O povo Akateko veio de Tenam e continua a prosperar

A comunidade linguística maia Akatek foi reconhecida em 1971. Anteriormente, era conhecida como “Migueleño” ou Q’anjob’al de San Miguel Acatán. Possui aproximadamente 67.000 falantes, dentro e fora da Guatemala. 

A língua Akateko, juntamente com Q’anjob’al, Jakalteco ou Popti’ e Chuj, formam uma família de línguas maias que se separaram há cerca de mil e quinhentos anos.  

Por esse motivo, o Akateko era conhecido apenas como “Migueleño” ou Q’anjob’al de San Miguel Acatán, ou seja, era considerado um dialeto. Mas, em 1971, foi reconhecido como uma língua distinta e com identidade própria.  

Território de identidade Akateka

Atualmente o povo Akateko está distribuído nos seguintes municípios de Huehuetenango: 

  • San Miguel Acatán, “Mekel Jak’atan”, que significa “Miguel perto de você” ou “perto de um grupo de pessoas”, é composto pelas palavras “Mekel”, derivada do nome espanhol Miguel, e “Jak’atan”, que significa “perto de você”, de acordo com uma análise morfológica e estrutura atual da Academia de Línguas Maias da Guatemala -ALMG- .    “Ak’al Taalaj” se traduz como “lugar ou ponto povoado por pinheiros”, de acordo com uma análise da Academia de Línguas Maias da Guatemala -ALMG-.
  • San Rafael la Independencia,
  • Aldeia Jo’om em San Sebastián Coatán; duas aldeias em Nentón e uma em Concepción Huista. 

No total, o principal centro populacional de Akateka cobre uma área de aproximadamente 216 quilômetros quadrados e abriga aproximadamente 66.000 habitantes, de acordo com o Censo Nacional de População de 2018.

A Academia de Línguas Maias da Guatemala, por meio de sua comunidade Akateka, realiza inúmeras atividades para preservar a cultura, a língua e as tradições dessa identidade maia.

Principal localização geográfica da identidade maia Akateka. Mapa da Diretoria de Educação Intercultural Bilíngue do Ministério da Educação.

Roupas tradicionais das mulheres Akateka

As mulheres akatecas usam um huipil, feito de manta branca. É decorado com renda verde, vermelha, amarela, laranja e rosa. O huipil é bordado no peito com figuras triangulares ou em forma de “vulcão”, que, segundo o costume, indicam que a portadora é mãe.  

Também é muito comum o uso de colares, que as mulheres solteiras usam com duas ou três voltas no pescoço; um colar com mais voltas simboliza que a mulher tem marido. 

A vestimenta é tecida com fio vermelho fino com pequenas listras pretas e amarelas. Esta peça é presa na cintura por uma faixa. As mulheres Akateka prendem os cabelos com fitas coloridas ou pequenas faixas trançadas enroladas na cabeça. 

Traje tradicional do homem Akateko

A vestimenta tradicional do homem Akatek é branca, e sobre ela ele usa um kapixay de lã preta, que evoca o clima frio da região.

 

Os homens akatek costumam usar o “Kapixay”, feito de lã preta ou marrom. O tecido é feito em tear manual. O “Kapixay” atual é fechado na frente e atrás, com mangas abertas que pendem frouxamente no meio do braço. 

Decote em V, com bordados decorativos costurados à mão ou à máquina, alguns com figuras de pequenos diamantes formando uma flor de três pétalas; as extremidades das mangas e a bainha inferior das saias, na altura da cintura, também apresentam bordados. O “Kapixay” é uma vestimenta compartilhada, embora com variações de design, com outras identidades, como o q’anjob’al.

Vida, valores e visão de mundo Akatek

O Akateko sempre busca se relacionar diretamente com o ambiente natural, não com uma atitude de posse ou propriedade, mas com um senso de pertencimento, de integração da pessoa com o ambiente e a comunidade em que nasceu. Durante as festividades da padroeira, são executadas as danças tradicionais de: Cervos, Mouros e Cristãos, Mexicanos, Convite e Gracejos.  

O povo Akateko pratica vários costumes ancestrais, por exemplo, quando nasce uma menina,  eles dizem: “Você vai ser como eu e eu vou te deixar minha habilidade, para que você possa ser  parteira”, então eles cortam o umbigo dela. 

O umbigo do recém-nascido pode ser usado para ver quantos filhos a mãe terá no futuro e se serão  meninos ou meninas. Após três dias, esse pedaço de muxh (umbigo) cai.   Esse muxh é guardado em um pequeno pano; se for menino, é pendurado em um galho de uma pequena árvore para que ele sempre se lembre de onde estão suas raízes.

Pôr do sol em San Miguel Acatán, Huehuetenango. Fotografia de Abel Juárez.
Outra tradição é que existem lugares sagrados, como colinas, que têm donos. Certa vez, um pastor seguiu um carneiro, deixou sua ovelha e foi atrás dela. Ele esperava capturá-la para aumentar seu rebanho. Naquele momento, um velho saiu e perguntou o que ele queria.

Em resposta, ele disse que estava procurando o carneiro, mas agora que vira que ele tinha dono, não o queria mais, pois seu avô o aconselhara a nunca roubar. “É só por isso que estou deixando você ir, para obedecer ao meu avô”, disse o velho, aconselhando-o a não contar a ninguém o que havia acontecido.

Além das fronteiras, mas para sempre akatekos

O povo Akateko se concentrou nos seguintes locais: Del Rio e McCallen, Texas; Lake Worth, Flórida; Raleigh, Carolina do Norte; Nashville, Tennessee; e no estado de Ohio. 

É uma das comunidades maias guatemaltecas mais coesas dos Estados Unidos. Eles realizam atividades religiosas e sociais, além de concertos de marimba, para se encontrarem e vivenciarem a comunhão. 

Ao lado da gente

Não é nada disso, a gente percebe que não é nada disso, quando a moça ao lado da gente no ônibus começa a chorar.

A gente sabe aqueles negocios todos, de fraternidade, da necessidade de carinho, da selvageria das grandes cidades. A gente sabe que se uma pessoa precisa de ajuda a gente vai e ajuda. Mas de repente a moça do lado começa a chorar, e ai?

Primeiro pensei, ou quis pensar, que ela fungasse. Depois não deu mais jeito, tive que perceber que soluçava mesmo. E por fim, olhei. Chorava sentido, irrefreável, de olhos inchados. Mas como, em tão pouco tempo? Ou será que já tinha chorado em casa antes e agora continuava ao meu lado aquele pranto doméstico? Soluçava sacudindo a cabeça e de vez em quando limpava o nariz na manga.

O que é que a gente faz ao lado de uma pessoa que chora? Pergunta se precisa de alguma coisa, se dá pra ajudar. Estica a mão, faz um afago na mão da pessoa. Bom, então o que eu tenho que fazer primeiro é perguntar, moça, a senhora precisa de alguma coisa?

E se ela responder atravessado, ou não me responder, ou se responder sim, que precisa, e me contar a história toda, o drama, a mim que certamente não vou poder resolvê-lo na curta viagem do ônibus para a cidade?

Melhor não perguntar nada. Se ela quiser, se ela precisar, ela fala. Viu quando olhei, não fez cara nenhuma de quem queria falar. Vai ver, não quer que eu me meta. Quer chorar em paz.

Todo mundo no ônibus já viu e ninguém perguntou nada. A pessoa tem o direito de chorar em paz onde quiser. É isso, a gente tem que respeitar o sofrimento dos outros.

Então o jeito é voltar para o meu livro, para ela entender que não vou atrapalhar a tristeza dela. Mas como que a gente lê com uma pessoa infeliz do lado? Infeliz de unhas roxas. Reparei quando olhei para ela, que usava esmalte escuro, cor de uva. E com a ponta dos dedos de vampiro limpa as pestanas maquiladas. Olho de novo disfarçado, procurando em mim a coragem de falar, nela a razão do choro.

Nem parece. Está toda direitinha, arrumada, de pulseira. E tem momentos que para, fica só fungando como se afinal tivesse entendido que não vale a pena sofrer tanto. Mas é só um pouco,

logo recomeça, sacudida, soluçando alto, a dor redobrada na entrega.

Eu preciso falar com ela. Preciso ser humana com essa moça. Mas porque sou humana tenho tanto medo déla que não consigo nem chegar perto. Não consigo abrir a boca e dizer, moça…

Então olho pela janela para ela não pensar que estou ali só de curiosidade, curtindo o sofrimento dela. Mas como posso olhar as vitrinas que passam na calçada quando alguém ao meu lado se lamenta de forma tão evidente?

Está sem meias mas maquilou as pernas. Eu sei que maquilou para fingir de meias porque a pele está fosca e sem desigualdades, pele de nylon. Então quando saiu de casa não estava tão infeliz assim, ou estava mas tentou disfarçar a tristeza melhorando as pernas, e depois no ônibus as pernas dobradas já não adiantaram nada e pronto lá foi ela de novo chorando alto e com vergonha porque todos no ônibus percebem. Foi por isso também que botou o vestido de mangas embabadadas, para se enfeitar, não para limpar o nariz como está fazendo agora. Achou que não ia precisar de lenço. Achou que já estava boa. E agora o nariz escorre na frente de todo mundo, os olhos escorrem, ela toda se escorre nesse choro, sem que sequer a vizinha do lado lhe pergunte o que foi.

Marina Colasanti

9 de julho de 1972

A História de Uma Hora
De Kate Chopin (1894)

Sabendo que Mrs. Mallard sofria de problema cardíaco, um grande cuidado foi tomado para avisá-la da forma mais cautelosa possível sobre a morte de seu marido.
Foi sua irmã Josephine quem lhe contou com frases incompletas; sinais omitidos que iam se revelando aos poucos. Richard o melhor amigo de seu marido estava lá também, perto dela. Era ele quem estava na redação do jornal quando a notícia do desastre da estrada de ferro foi recebida, com o nome de Brently Mallard descrito na lista de “mortos”. Arranjou um tempo para se certificar da fatalidade por um segundo telegrama e se apressou para impedir que um amigo menos cuidadoso, menos carinhoso comunicasse a triste notícia.
Ela não ouviu o relato que outras mulheres ouviram, pois se sentia paralisada, incapaz de aceitar o fato ocorrido. Ela chorou subitamente nos braços de sua irmã em sôfrego abandono. Quando sua dor se esgotou, foi para seu quarto sozinha. Não queria que ninguém a acompanhasse.
Ali permaneceu, olhando pela janela, numa confortável poltrona e nela se afundou com sinal de extrema exaustão que percorria seu corpo e que parecia atingir sua alma.
Ela conseguia perceber na pracinha localizada de frente para sua casa, o topo das árvores que estavam em consonância com a nova vida da primavera. Um hálito delicioso de chuva pairava no ar. Na rua debaixo, um ambulante estava comercializando seus artefatos. As notas longínquas de uma música que alguém cantava, chegaram até ela levemente e incontáveis pardais voavam sobre o telhado. Havia traços de céu azul que apareciam aqui e ali através de nuvens que se encontravam e se entrelaçavam umas sobre as outras no lado leste, vindo de encontro à sua janela.
Ela sentou com sua cabeça inclinada na almofada da poltrona, sem emoção, com exceção de quando um soluço correu por sua garganta e a sacudiu, como uma criança que chorou para dormir e que continua soluçando ao adormecer.
Ela era jovem, com um semblante íntegro e calmo, cujas linhas de expressões denotavam repressão e uma certa força. Mas neste momento havia uma névoa em seus olhos. Seu olhar vagava como as nuvens do céu. Não era um olhar de reflexão, ao contrário indicava a suspensão do pensamento.
Havia algo se que se aproximava e que ela aguardava, temerosamente. O que seria aquilo? Ela não sabia; era muito repentino e elusivo para nomeá-lo. Mas ela o sentia vindo do céu, atingindo-a e estremecendo-a , através dos sons, odores e cores que planavam no ar.
Neste momento seu peito se abriu e se sentiu conturbado. Estava começando a reconhecer o que se aproximava para dominá-la, e ela está lutando com todas suas forças tão impotente quanto suas lânguidas mãos. Rendendo-se, um sussurro escapou de seus lábios partidos e delicados. Ela repetia várias e várias vezes: “liberdade, liberdade, liberdade!” Um vago e aterrorizante olhar brotava de seus olhos. Eles permaneceram vivos e brilhantes. Seus pulsos pulsavam atemorizados, seu sangue percorria quente e relaxava todo seu corpo.
Não parava de perguntar a si mesma se não era uma arrebatadora euforia que a invadia. Uma clara e forte percepção a ajudava a desconsiderar aquele fato como comum. Ela sabia que choraria novamente quando olhasse suas mãos gentis e carinhosas definhando-se em morte. Uma face que nunca havia olhado com amor, paralisada, sem cor e morta. Mas ela via naquele amargo momento longos anos que estavam por vir e que pertenceriam a ela de forma absoluta. E então, abriu seus braços e os ergueu em direção a eles em forma de boas-vindas.
Não haveria ninguém por quem viver durante aqueles próximos anos, viveria apenas para si. Não haveria nenhuma vontade poderosa que a fizesse mudar de ideia na sua persistência em pensar que o homem e a mulher acreditam no direito de impor sua vontade um sobre o outro. Uma intenção amigável ou cruel feita de atitude não pareceria menos criminosa do que aquele momento de iluminação em que se encontrava.
E ainda ela o amou- algumas vezes. Outras não. O que importaria! O que poderia amar? Um mistério insolúvel, contar com a posse da sua autoconfiança naquele momento, reconhecia como o impulso mais forte de seu ser.
“Livre! Corpo e alma livres.” Continuou sussurrando.
Josephine estava ajoelhada atrás da porta, que estava fechada, com seus lábios na fechadura implorando para ser ouvida.
“Louise, abra a porta! Implorou: “Abra a porta. Você ficará doente. O que está fazendo Louise? Pelo amor de Deus abra a porta”.
“Vá embora. Não estou ficando doente”. Não; ela estava bebendo o elixir da vida através do ar que vinha pela janela.
Sua imaginação corria em desalinho a respeito daqueles dias que iriam chegar. Dias de primavera, dias de verão e todos os demais que seriam apenas seus. Fez uma pequena prece para que a vida fosse longa. Ainda ontem ela pensava estremecida que a vida haveria de ser longa.
Levantou-se de súbito e abriu a porta para atender aos apelos de sua irmã. Havia um cálido triunfo em seu olhar, caminhou inconscientemente como se fosse a deusa da vitória, agarrou-se à cintura de Josephine e então desceram as escadas. Richard as aguardava no piso debaixo.
Alguém estava abrindo a porta da frente. Era Brent Mallard! Calmo e um tanto sujo pelo trabalho, carregava uma sacola e um guarda- chuva. Ele estava muito longe do lugar aonde o acidente havia acontecido e nem mesmo tinha tomado conhecimento dele! Ficou paralisado e atônito com o choro convulsivo de Josephine e com a forte emoção de Richard ao vê-lo de frente à sua esposa.
Quando os médicos chegaram disseram que Louise havia falecido de ataque do coração- causado pela forte emoção que a acometera.

Museu

Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.

Há um leque — onde os rubores?
Há espadas — onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo,
o bigode pendido sobre a vitrine.

Metais, argila, pluma de pássaro
triunfam silenciosos no tempo.
Só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do Egito.

A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
E como ele adoraria sobreviver!

Wislawa

 

À Espera dos Bárbaros

Konstantinos Kaváfis

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Poesia Moderna da Grécia – José Paulo Paes

21 de março : Dia Mundial da Árvore e da Floresta e Dia Mundial da Poesia

” As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.”

Antonio Gedeão, Poema da Árvore. In Movimento Perpétuo.🌱🌿🌳

O maior tesão da vida não é transar gostoso, não é ter orgasmos múltiplos e nem ser milionário. Nada disso nos livra das nossas mazelas de existir – rico também toma antidepressivo, bonito também vai ao psiquiatra e intelectual também faz análise. O maior tesão da vida é dar conta de encontrar um sentido para viver. a ciência não o tem, filosofia também não e a religião muito menos. O sentido de viver é pessoal.
Não há maior prazer do que ser capaz de construir uma tela de proteção existencial que seja capaz de nos proteger do desespero e da loucura – a melhor alegria de viver é ser capaz de construir algo de si pelo enfrentamento de si naquilo que ninguém pode resolver por você.
O maior tesão não é colecionar transas, adquirir bens ou ostentar ideias. Não é a arrogância de se entupir antidepressivos, cirurgias plásticas, próteses e anabolizantes. O maior tesão da vida está no vazio que nada disso preenche.
Não existe o ser – no sentido de que sabemos sobre nós mesmos. Existe o ter, no sentido de que temos esse vazio – e precisamos criar alguma borda de sentido em torno dele. Esse – sim – é o nosso maior tesão de viver!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

FERNANDO PESSOA, in POESIAS INÉDITAS (1930-1935), [(Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990)]
NÃO DIGAS NADA!
Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.
p. 167
23-8-1934
ALICE VIEIRA, in OS ARMÁRIOS DA NOITE, capa de Heduardo Kiesse/ ParadoXos (Caminho, 2014)
esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais
e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar
sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver
*
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia, in “Poesia Completa”

Velha

Estou com medo de agulhas.
Estou cansada de lençóis de borracha e tubos.
Estou cansada de rostos que eu não conheço
e agora penso que a morte está começando.
A morte começa como um sonho,
repleto de objetos e do riso da minha irmã.
Nós estamos jovens e nós caminhamos
e colhemos mirtilos selvagens.
em todo o caminho para Damariscotta.
Ó Susan, ela gritou.
você manchou o seu corpete novo.
Gosto doce –
minha boca tão cheia
e o doce azul se esgotando
em todo o caminho para Damariscotta.
O que você está fazendo? Me deixe em paz!
Você não vê que estou sonhando?
Em um sonho você nunca tem oitenta.

Anne Sexton

http://www.mallarmargens.com/2019/01/quatro-poemas-de-anne-sexton-por.html

 

Podia ser simples 🙂

A História do Jornaleiro Mal Educado

Um executivo acompanha o seu amigo ao trabalho, e o amigo do executivo, como de costume, parou na banca para comprar o jornal. O amigo cumprimentou o jornaleiro educada e respeitosamente, mas como retorno recebeu um tratamento rude, grosseiro e desrespeitoso.
O amigo do executivo pagou o jornal que foi atirado em sua direção pelo dono da banca, sorriu atenciosamente e desejou ao jornaleiro um bom dia. Quando desciam pela rua, o executivo perguntou:
– Ele sempre te trata dessa forma desrespeitosa?
– Sim.
– E você é sempre tão educado e respeitoso com ele?
– Sim, sou.
– E por que você é tão educado e respeitoso com ele, já que ele é tão grosso com você?
– Simples: porque não vou deixar que a atitude dele determine a minha.

Exame de Rotina

Catarina Costa

Meu pai foi diagnosticado
No meu seio esquerdo

Do jeito que meu pai é aventureiro
é capaz de querer ir até o mediastino
um drible duplamente invisível
feito o drible do tempo até
o meridiano

os médicos querem tirá-lo de lá
dizem que não é saudável
para uma moça jovem como eu
nem para uma mulher
amorosa como minha mãe
acomodar esse senhor tão espaçoso
que ao se espreguiçar
se estende do mamilo à axila

eu discuto com os médicos

Deixo que meu pai fique
contanto que fique
em silêncio

Sem atrapalhar minha mãe
que aperta minha mão
sem receio algum

A questão sobre qual é o significado da vida foi contemplada por quase todos os seres humanos que pensam, sentem e respiram, e de forma memorável por vários ícones culturais, incluindo Carl Sagan, Henry Miller , Anaïs Nin , David Foster Wallace, Richard Feynman e tantos outros.

Mas uma das meditações mais incomuns e comoventes sobre essa eterna questão vem, de maneira inusitada, mas com uma precisão cristalina, da lendária antropóloga Margaret Mead .

Em uma carta de 1926 encontrada em To Cherish the Life of the World: Selected Letters of Margaret Mead (sem tradução em português)- o mesmo livro magnífico que nos deu as cartas de amor de Margaret Mead para sua alma gêmea, Ruth Benedict, e seus pensamentos prescientes sobre a sexualidade humana – Mead relata um sonho particularmente intrigante. Mais do que um mero registro sobre o inconsciente, o sonho se desdobra em uma poderosa metáfora para o significado da vida – para a beleza do não-saber, para a admiração como alimento da alma e para a questão do que é “suficiente”.

Mead escreve:

Ontem à noite tive o sonho mais estranho. Eu estava em um laboratório com o Dr. Boas e ele estava conversando comigo e com um grupo de outras pessoas sobre religião, insistindo que a vida deve ter um sentido, que o homem não poderia viver sem significado. Então ele fez uma massa de material gelatinoso do azul mais lindo que eu já tinha visto – e ele parecia estar perguntando a todos nós o que fazer com isso. Lembro-me de pensar que era muito bonito, mas eu me perguntava impotente para que servia. As pessoas iam e vinham fazendo sugestões absurdas. De alguma forma, o Dr. Boas tentou colocar as sugestões em prática – mas as pessoas sempre iam embora zangadas ou desapontadas – e, finalmente, depois de termos ficado acordados a noite toda, todos eles desapareceram e éramos apenas nós dois. Ele olhou para mim e disse, apelando: “Toque”. Peguei um pouco da beleza surpreendentemente azul em minhas mãos e senti com grande emoção que era matéria viva.

De The Marginalian – Maria Popova

CONSOLO ANTIGO

por Anna Belle Kaufman

 

Quando minha mãe morreu,
um de seus pães de mel ficou no freezer.
Eu não suportaria vê-lo desaparecer,
assim ele esperou, perdoado,
em sua caverna de gelo
atrás das bandejas de metal
por mais dois anos.

No meu quadragésimo primeiro aniversário
Eu o despedacei,
uma ressurreição retangular,
levantei o peso morto
na palma da minha mão.

Antes de descongelar,
Eu parti, com faca serrilhada,
a mais fina das fatias —
Eucaristia judaica.

Os quadrados âmbar,
seus painéis translúcidos de nozes
com gosto – um pouco queimado
– de freezer,
de geada,
uma iguaria fermentada
entregue
de uma delicatessen no submundo.

Eu ansiava por recordar a vida, não a morte –
seu corpo imóvel na camisola rosa sobre a cama,
do mesmo jeito que eu deito
no berço raso dos lençóis espalhados
depois que eles a levaram embora,
inalando seu perfume uma última vez.

Fecho os olhos, saboreio uma hóstia de
pão sagrado na língua e
tento provar minha mãe, para entender
a mensagem que ela assou nestes pães
quando estava muito doente para comê-los:

Eu te amo.
Isso vai acabar.
Deixe algo de doçura
e substância
na boca do mundo.

Imagine, por exemplo, que você nasceu em Chicago e nunca teve a mais remota vontade de visitar Hong Kong, que para você é apenas um nome no mapa; imagine que algum acontecimento, às vezes chamado de acidente, o coloca em contato com um homem ou uma mulher que mora em Hong Kong; e que você se apaixone. Hong Kong deixará imediatamente de ser um nome e se tornará o centro de sua vida. E você pode nunca saber quantas pessoas vivem em Hong Kong. Mas você saberá que um homem ou uma mulher mora lá sem o qual você não pode viver. E é assim que nossas vidas mudam, e é assim que somos redimidos.
Que viagem é esta vida! Dependente, inteiramente, de coisas invisíveis. Se o seu amado mora em Hong Kong e não pode ir para Chicago, será necessário que você vá para Hong Kong. Talvez você passe sua vida lá e nunca mais veja Chicago. E, garanto-lhe, enquanto o espaço e o tempo o separarem de qualquer pessoa que você ame, você descobrirá muito sobre rotas marítimas, companhias aéreas, terremotos, fome, doenças e guerras. E você sempre saberá que horas são em Hong Kong, pois ama alguém que mora lá. E o amor simplesmente não terá escolha a não ser entrar em batalha com o espaço e o tempo e, além disso, vencer.

James Baldwin

Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio.
Vergílio Ferreira
Quando você tem vinte anos, mesmo que você se sinta confuso e incerto a respeito dos seus objetivos, você tem um forte senso do que é a vida, e do que você é na vida, e pode vir a ser. Mais tarde…mais tarde há mais incerteza, mais sobreposição, mais retrocesso, mais falsas lembranças. Na juventude, conseguimos nos lembrar de toda a nossa curta vida. Mais tarde, a memória vira uma coisa feita de retalhos e remendos.
O Sentido de um Fim, Julian Barnes

Repito. É preciso repeti-lo muito. O trabalho de uma mulher, desde que se levanta até a hora que vai pra cama, é tão pesado quanto um dia de guerra, pios que a jornada de trabalho de um homem, porque ela, ela precisa inventar seu emprego do tempo de acordo com o emprego do tempo das outras pessoas, das pessoas de sua família e das pessoas das instituições externas.  

(Marguerite Duras, A vida material p. 46)

“O que me salvou quando menina no Arizona à espera de ficar adulta, à espera da hora de fugir para uma realidade mais ampla, foi a leitura de livros. Ter acesso à literatura, à literatura do mundo, era escapar da prisão da frivolidade nacional, do mau gosto, do provincianismo compulsório, da educação vazia, dos destinos imperfeitos e da má sorte”

Susan Sontag

A vida não se interessa pelo bem nem pelo mal. Dom Quixote estava sempre escolhendo entre o bem e o mal, mas fazia essas escolhas no seu estado de sonho. Ele era maluco. Só entrava na realidade quando estava tão ocupado tentando lidar com as pessoas que não tinha tempo de distinguir entre o bem e o mal. Como as pessoas só existem na vida, precisam dedicar seu tempo apenas a estarem vivas. A vida é movimento, e o movimento está ligado àquilo que faz com que o homem se movimente — que é a ambição, o poder, o prazer. O tempo que um homem pode dedicar à moralidade, ele sempre o terá de arrancar à força do movimento do qual faz parte. Ele é compelido a fazer escolhas entre o bem e o mal, cedo ou tarde, porque a consciência moral exige isso dele, para que ele possa continuar a viver consigo mesmo no dia seguinte. Sua consciência moral é a maldição que ele tem de aceitar dos deuses, a fim de obter deles o direito de sonhar.

William Faulkner – Entrevista à Paris Review – A arte da ficção 12

”Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente.”

Valter Hugo Mãe

Ocaso do Século

Wislawa Szymborska

Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX.
Agora já não tem mais jeito,
os anos estão contados,
os passos vacilantes,
a respiração curta.

Coisas demais aconteceram,
que não eram para acontecer,
e o que era para ter sido
não foi.

Era para se chegar à primavera
e à felicidade, entre outras coisas.

Era para o medo deixar os vales e as montanhas.
Era para a verdade atingir o objetivo
mais depressa que a mentira.

Era para já não mais ocorrerem
algumas desgraças:
a guerra por exemplo,
e a fome e assim por diante.

Era para ter sido levada sério
a fraqueza dos indefesos,
a confiança e similares.

Quem quis se alegrar com o mundo
depara com uma tarefa
de execução impossível.

A burrice não é cômica.
A sabedoria não é alegre.
A esperança
já não é aquela bela jovem
et cetera, infelizmente.

Era para Deus finalmente crer no homem
bom e forte
mas bom e forte
são ainda duas pessoas.

Como viver – me perguntou alguém numa carta,
a quem eu pretendia fazer
a mesma pergunta.

De novo e como sempre,
como se vê acima,
não há perguntas mais urgentes
do que as perguntas ingênuas.

Tradução de Regina Przybycien

Flor que recorda

Cerca de ríos, manantiales y arroyos de la campiña cubana, pero también en algunos patios y jardines húmedos, crece la mariposa (Hedychium coronarium), la flor nacional de Cuba desde 1936 a pesar de su exotismo, pues es originaria de la India, de acuerdo con datos de expertos.

Parece orquídea, mas não. Cheira a gardênia, mas também não. Suas grandes pétalas, asas brancas, tremem querendo voar, ir-se embora do talo; e há de ser por isso que em Cuba é chamada de borboleta.

Alessandra Riccio plantou, na terra de Nápoles, um bulbo de borboleta, trazido de Havana. Em terra estranha, a borboleta deu folhas, mas não floresceu. E passaram-se os meses e os anos, e continuava sem dar nada além de folhas quando uns amigos cubanos de Alessandra chegaram a Nápoles e ficaram em sua casa durante uma semana.

Então, nos arredores da planta, soaram e ressoaram as vozes de sua terra, o antilhano jeito de dizer cantando: a planta escutou aquela música das palavras durante sete dias e sete noites, porque os cubanos falam acordados e dormindo também.

Quando Alessandra disse adeus aos seus amigos e voltou do aeroporto, encontrou em sua casa uma flor branca recém-nascida.

Eduardo Galeano

Insônia

Quero escrever um poema irritado.
Quero vingar meu sono dividido
(busco palavras que interroguem essa alquimia
do poema, que vire a noite em fogo vário
e a lua em pegada escondida atrás do muro
— vagaroso desmoronar de extinto voo).
Quero um poema ainda não pensado,
que inquiete as marés de silêncio da palavra
ainda não escrita nem pronunciada,
que vergue o ferruginoso canto do oceano
e reviva a ruína que são as poças d’água.
Quero um poema para vingar minha insônia.

Olga Savary

A Surpresa

Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.

Crônica extraída do livro: A Descoberta do Mundo – Clarice Lispector

Em 2006 uma professora de ensino médio pediu a seus alunos que escrevessem para escritores/as famosos/as solicitando conselhos de escrita. Kurt Vonnegut foi o único a responder e sua resposta foi excêntrica:

“Querida Escola Xavier, Sra. Lockwood, e Srs. Perin, McFeely, Batten, Maurer e Congiusta: agradeço pelas cartas amigáveis. Vocês com certeza sabem como animar um velhote muito velhinho (84) em seus anos crepusculares. Não faço mais aparições públicas porque agora me pareço com nada menos que uma iguana. O que teria a dizer a vocês, aliás, não demoraria muito, a saber: pratiquem qualquer arte, música, canto, dança, atuação, desenho, pintura, escultura, poesia, ficção, ensaio, reportagem, não importa quão bem ou mal não para ganhar dinheiro e fama, mas pra mas experimentar o devir, descobrir o que está dentro de vocês, fazer suas almas crescerem. É sério! Começando neste momento, façam arte e façam isso pelo resto de suas vidas. Façam um desenho engraçado da Sra. Lockwood e deem a ela.
Dancem em casa depois da escola, cantem no chuveiro e assim por diante. Façam uma carinha em seu purê de batatas. Finjam que vocês são Conde Drácula. Aqui vai uma tarefa para esta noite, e espero que a Sra. Lockwood os reprovem se não fizerem isso:
Escrevam um poema de seis linhas, sobre qualquer coisa, contanto que seja rimado. Não há partida de tênis justa sem uma rede. Façam o melhor que puderem. Mas não contem a ninguém o que estão fazendo.
Não mostrem ou recitem pra ninguém, nem mesmo para sua namorada ou pais ou qualquer outra coisa, ou para a Sra. Lockwood. OK? Rasguem o poema em pedaços minúsculos e descartem os pedaços em recipientes de lixo amplamente separados.
Vocês descobrirão que já foram gloriosamente recompensados por seus poemas. Vocês experimentaram o tornar-se, aprenderam muito mais sobre o que está dentro de vocês e fizeram suas almas crescerem.

Deus abençoe vocês!”

Kurt Vonnegut.


Fonte:

Essa poesia eu vi quando assiti pela primeira vez os vivos e os mortos , nos anos 90. Desde que vi fiquei apaixonada. Mas só depois da internet é que vim a saber a origem dela, e alguma historinha por trás. Parece que faz parte do folclore gaélico e Lady Gregory (dramaturga, poeta, folclorista inglesa) traduziu/adaptou para o inglês. Dizem que ela cortou algumas partes, ou reduziu a métrica, algo assim. E dizemq ue também em inglês ficou mais forte. De toda forma a tradução é belíssima. Eu ainda sou encantada com ela.


Votos Partidos
Era tarde a noite passada.
O cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano.
Falava de você.
Você é o pássaro solitário das florestas.
Que você fique sem companhia,
Até achar-me.
Você prometeu e me traiu.
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.
Eu assobiei e gritei cem vezes.
E não achei nada lá,
A não ser uma ovelha balindo.
Você prometeu uma coisa difícil.
Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
E uma branca e bela praça à beira-mar.
Você prometeu algo impossível.
Que me daria luvas de pele de peixe.
E sapatos de asas de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã. Nem Domingo.
Foi um mau momento para dizer-me isso.
Como trancar a porta após ter a casa arrombada.
Você tirou o leste de mim.
Tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe à minha frente.
Tirou o que há atrás.
Tirou a lua.
Tirou o sol de mim,
E meu medo é grande.
Você tirou Deus de mim.

Otimismo

de Jane Hirshfield

Cada vez mais admiro a resiliência.
Não a simples resistência de um travesseiro,
cuja espuma volta sempre à mesma forma,
mas a tenacidade sinuosa de uma árvore:
encontrando a luz recém-bloqueada de um lado,
ela se transforma no outro.
Uma inteligência cega, é verdade.
Mas dessa persistência
surgiram tartarugas, rios, mitocôndrias, figos
– toda essa terra resinosa e irretratável.

Nostos

Havia uma macieira no quintal –
isso teria sido há
quarenta anos – nos fundos,
apenas prados. Excesso
de crocus na relva úmida
Eu estava naquela janela:
fim de abril. Flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, realmente, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, nem antes
nem depois? Substituição
do imutável
por transformação, por evolução.
Substituição da imagem
pela terra implacável. O que
sei eu deste lugar,
o papel que foi da árvore por décadas
desempenhado por um bonsai, vozes
subindo das quadras de tênis –
Campos. Cheiro de grama alta, recém
cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Nós vemos o mundo uma única vez, na infância.
O resto é memória.

GLÜCK, Louise. “Nostos”. In: Poems 1962-2012.

New York: Farrar, Straus and Giroux, 2013.

[Tradução: Nelson Santander]

um

o pneu da bicicleta
a gente enchia de palha quando furava
palha que também era o recheio
do colchão da cama dos meus pais
que não rangia porque
eles mal se mexiam à noite
às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
não chegava à noite
chegava sem dar bom dia
a mãe não dormida de espera já passava o café
ralo como os cabelos
que prendia sempre acordada
a mãe não fazia nenhum barulho
como a cama em que durmo hoje
quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
ralo como as alegrias
da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
minha mãe fazia que não era com ela
que nunca existia antes de mudar dali
sozinha com a gente e a bicicleta
cantando

dois

a mãe saiu com a gente
ninguém de nós sabia pra onde
mas a gente ia grudado
nela que ia grudada em nada era o que
a gente pensava
miúdo calado
seguindo o passo depois
o outro passo fomos
até aonde a mãe conseguiu chegar

a gente não sabia
nem eu nem ninguém soube
a mãe chegou sozinha
onde estamos hoje bem

três

a mãe morreu num dia
qualquer não fosse porque ela morreu seria
um dia qualquer

a gente saía cedo e voltava tarde
todos os dias eram como aquele mas de repente
voltamos cedo
voltamos correndo
na hora em que íamos alguém foi dar um
beijo na mãe dura
abaixada no banco do canto
da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
a janela ainda não era janela
o chão ainda era batido
como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
com dor
e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
imediatamente ela tinha religião
corremos o padre correu choramos o padre rezou
ela continuava morta
nós sem fome sem frio sem sede
como estávamos bem desde que
ela saiu e a gente saiu com ela de lá

onde ela não existia
de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
à noite entendemos

a mãe já não é
mas sempre
é mãe não há o que fazer a gente se lembra
da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
estopa ou véu na caminhada?
não lembro, era quente e fazia muito sol
tínhamos fome
não temos mais
o que ela mais
gostava do quê?
nunca a gente soube
mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
moída na voz grande

quatro

Não era mais
preciso nós quatro
ficarmos
no mesmo
(cabia um pouco de nós)
no quarto
da mãe
que não ia mais dormir e acordar ali

a gente foi arrumar
as coisas da mãe
choramos

a gente começou pelo armário
tiramos os vestidos
eram apenas três______duas saias duas blusas
como ela podia estar vestida
todo dia com apenas
aquelas roupas no varal procuramos
não havia nada da mãe só a gente
pendurado como saíamos de dia e de noite
a mãe não saía
de noite de dia
ia às vezes ao mercadinho
às vezes à padaria
às vezes ao correio a gente nunca soube
o que ela ia fazer no correio
a gente limpou o armário
colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
o padre veio buscar

embaixo da cama
uma caixa de papelão
estava escrito polpa de tomate etti
tinha muita coisa lá dentro

cinco

um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
a aliança riscada
de que?
uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
dois terços
uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
muitas cartas escritas para meu pai
dizendo onde estávamos como estávamos
com ela seladas
com endereço e tudo
uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
até hoje

me mexo
a noite e minha cama rangem
sofro depois que entendi minha mãe
Constança Guimarães | poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |
https://revistagueto.com/2020/10/16/poema-inedito-de-constanca-guimaraes/

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti – não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

S. Martinho de Anta, 1 de Junho


Miguel Torga – Diário IV

“E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente -tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?”

Que saudade do Grande Sertão

O que demaseia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.

dies irae

“DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. (…) E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação.”

Clarice Lispector, in: Todas as Crônicas. — Editora: Rocco, 2018, pág. 29.

Uma Palavra

Eu tenho uma palavra na garganta
e não a solto, não me livro dela,
apesar de seu ímpeto de sangue.
Se eu a solto, ela queima o pasto vivo,
sangra o cordeiro, faz cair o pássaro.

De minha língua devo desprendê-la,
encontrar-lhe uma toca de castores,
ou sepultá-la com argamassa e cal,
para não alçar voos como a alma.

Eu não quero dar mostras de estar viva,
enquanto ela em meu sangue vai e vem
e sobe e desce por meu louco alento.
Embora Jó, fremente, a tenha dito,
não quer dizê-la minha pobre boca,
a fim de que não role e não se enrede
nas tranças das mulheres que a encontrem,
e a fim de que não torça ou queime o mato.

Quero lançar-lhe sólidas sementes
que, numa noite, vão cobri-la toda,
sem deixar dela o cisco de uma sílaba.
Ou então vou quebrá-la, como a víbora
que se parte em metades entre os dentes.

E voltar a meu lar, entrar, dormir,
já destacada e separada dela,
e despertar depois de dois mil dias,
renascida de sono e esquecimento.

Sem saber – ai! – que tive uma palavra
de iodo e pedra-ume entre meus lábios,
e sem poder lembrar-me de uma noite,
de um país estrangeiro e de uma casa,
e da cilada e do infortúnio à porta,
e de meu corpo a caminhar sem alma.

Gabriela Mistral


Tradução de Ruth Sylvia de Miranda Salles. In: MISTRAL, Gabriela; MEIRELES, Cecília. Poemas

Saldo Negativo

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês

e isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do Ocidente.


Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha.

Quando eu for pequeno mãe

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in “O Livro Branco da Melancolia”

e, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho,
e se um outro acordou inseto na mente de um escritor,
e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu,
e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz,
e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários,
tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol”

João Anzanello Carrascoza In: Caderno de Um Ausente

Mãe, eu quero ir-me embora

Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira “Mãe, eu quero ir-me embora” in O Canto do Vento nos Cipestres (2001)

Para Maria da Graça

 

Crônica de Paulo Mendes Campos

Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões.

Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.


Publicado pela primeira vez na Revista Manchete 588

Para uma criança de cinco anos

 

Um caracol escala o peitoril da janela
do seu quarto, depois de uma noite de
chuva. Você me chama para ver,
e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
para que ninguém o esmague. Você entende
e o carrega para fora, com mão diligente,
para comer uma flor amarela.
Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
seus parentes mais próximos, e que abasteci
das verdades mais duras muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
e nós tratamos os caracóis com gentileza.

ADCOCK, Fleur. “For a Five-Year Old”.

In: Poems 1960-2000, Hexham: Bloodaxe Books, 2000.

[Tradução: Nelson Santander]

Receita

Ilustração de Antônio Benetazzo, morto pela ditadura

O poema de hoje é um poema de resistência.

Poesia brasileira de resistência à ditadura, feita nos anos sombrios

RECEITA

Nicolas Behr

Ingredientes:
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração
leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas
corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver
parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

Nicolas Behr
https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolas_Behr

https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Benetazzo

Horas Tardias

 

Nas noites de verão o mundo
se move ao alcance do ouvido
na interestadual com seus silvos
e rugidos, uma ocasional sirene
que nos provoca arrepios.
Às vezes, em noites claras e serenas,
vozes flutuam em nosso quarto,
lunares e fragmentadas,
como se o céu as houvesse liberado
bem antes de nosso nascimento.

No inverno fechamos as janelas
e lemos Tchekhov,
quase a chorar por seu mundo.

Que luxo, sermos tão felizes
que podemos nos afligir
por conta de vidas imaginárias

Lisel Mueller – tradução de J. A. Rodrigues

Ruminações

Donizete Galvão

Nunca saí dessa roceira Minas
que nos dá aflição e dor como herança.
Lamaçal de bosta de vaca
no curral bem em frente da casa.
Cheiro de leite azedo nos latões
e de óleo queimado para expulsar bernes.
Jardins de dália e corações magoados,
chás de consolda e escaldados de quirera.
A avó socando o arroz no pilão,
preparando decoada para o sabão
ou com rodilhas para o feixe de lenha.
Compras sem um item supérfluo
anotadas nas cadernetas de armazém.
Terras tomadas por sapé e sorocaba
e vendidas para pagar promissórias.
Vidas acanhadas atrás de janelas
na cidade que não definha nem prospera.
Rancores cultivados durante anos,
as mesquinharias de parentes.
Amor ressabiado, apenas sugerido,
abraços sem calor, corpos com arestas.
Podem dar-me asas, cheques de viagem,
mandar-me para velejar em Bizâncio.
Recolho, rumino e regurgito
a as aspereza daqueles dias.
Rejeito sua rica hospedagem.
Sou um estranho em suas festas.
Nunca saí desse círculo de ferro.
Nunca saí dessa Minas que não termina.

De passagem

Lisel Mueller

Com que rapidez o mel filtrado
da luz da tarde
flui para a escuridão

e o fechado broto livra-se
de seu singular mistério
a fim de desabrochar:

como se o que existe, exista
para poder perder-se
e tornar-se precioso.

Imortalidade

Lisel Mueller

No castelo da Bela Adormecida
o relógio bate cem anos
e a garota na torre volta ao mundo.
O mesmo ocorre com os criados na cozinha,
que nem sequer esfregam os olhos.
A mão direita do cozinheiro, levantada
há exatamente um século,
completa seu arco descendente
até a orelha esquerda do ajudante de cozinha;
as tensas cordas vocais do garoto
libertam finalmente
o sofrido lamento aprisionado,
e a mosca, capturada no meio de um salto
acima da torta de morango,
cumpre sua missão permanente
e mergulha no doce e vermelho esmalte.

Quando criança, eu tinha um livro
com uma gravura dessa cena.
Eu era muito jovem para perceber
como o medo persiste, e como
o ódio que provoca o medo persiste,
que sua trajetória não pode ser alterada
ou rompida, apenas interrompida.
Minha atenção estava na mosca;
no fato de que este corpo leve
com suas asas transparentes
e o tempo de vida de um dia humano
ainda ansiava por sua cota particular
de doçura, um século depois.

Trad.: Nelson Santander

Remedios Varo

Poema para a fiandeira de Remedios Varo

não há de ser
só escuro o lado
de dentro do muro
o avesso do viço esse pesar

é a retina
que rege o furor das coisas

sob o descompasso da neblina
há terra úmida que germina —
o coração do ventre
mora no olhar

há de se descortinar o céu de si
vento estrela aurora boreal
arrancar da própria costela a mulher que ali habita
morrer-se a cada dia um tanto
concha
semente
pranto
navegar além do canto (e do silêncio)
das sereias do pensamento

Francesca Cricelli

Ribeirão Preto, maio 2019.

 

Com cinquenta anos eu me sinto assombrada, cada vez mais assombrada. Segunda adolescência, busca de respostas, o mundo se despedaçando. Como sempre, mato a realidade nos livros. O que leio agora é O Mundo Desdobrável da Carola Saavedra.
Estou amando e fico lendo, suspirando, rabiscando, fazendo pausas e enchendo o WhatsApp dos amigos de trechos. Pois bem. Leio hoje um trecho em que Carola fala de uma artista chamada Remedios Varo.
Paro imediatamente, tenho essa fissura tola de ficar indo em busca das referências. Mas olha só, ela começa o tal trecho assim: “Remedios Varo é uma das artistas mais interessantes que conheço”. Basta isso para que eu queira saber quem é essa artista que encantou a outra artista que tem me encantado, e corro atrás.

Descubro que realmente, puta que pariu, que mulher interessante, como eu não conhecia a história dela? Continuo correndo atrás e vejo as pinturas, socorro, cada uma mais incrível que a outra.


Parecem sonhos, são poesia em telas. E são todas dos anos 50-60 do século XX, mas parecem imagens que vejo agora no universo das pessoas jovens. Parecem saídas do Pinterest ou do Instagram de alguém que ainda está no próprio tempo.

E as pinturas de Varo são surreais, acontecem no próprio coração do movimento Surrealista. Fico encantada, e com muita pena de não poder ver essas pinturas ao vivo. Ainda bem que existe a internet e que vivemos de simulacro. Por ora vai ter que servir.

Resolvo começar a ler sobre ela, a Remedios Varo. Esqueço da vida, esqueço esse mundo feio, todos os meus problemas (ui que delícia). Já me sinto amiga dela, queria bater papo.

Aí até ensaiei fazer uma pequena biografia dela, mas não, informações sobre os dados e datas da vida dela são fáceis de encontrar.

Pois o que eu queria mesmo era falar para vocês que ela foi uma pintora que fez parte do movimento surrealista, era considerada sensacional por André Breton (e por vários outros), mas não teve o mesmo reconhecimento dos homens do movimento, nem de longe.
Também queria contar que ela era antinazista, antifascista, que divergia dos surrealistas da Espanha pois achava que eles eram pouco comprometidos com as mudanças sociais.
Que ela viveu em Paris nos anos dourados do Surrealismo. Que antes ela foi contemporânea de Dali, e viu Um Cão Andaluz em primeira mão.

Remedios pintava o inconsciente, sua obra é uma explosão de cores e de detalhes simbólicos. Que como soi acontecer, ela estava na vanguarda, como pessoa e como artista. E não se envergonhava de suas bruxarias ou de seu colorido.

Que ela se casou para sair do jugo da família e na primeira oportunidade vazou com o marido para a França, fugindo da Guerra Civil espanhola. Mas logo se viu numa Paris ocupada. E Frida Kahlo rogou ao governo do México que a recebesse na fuga do nazismo. (Isso só se soube recentemente, a fofoca mais conhecida era a de que Frida e Diego esnobaram Remedios quando ela chegou ao México).

Quero contar para vocês que as pinturas dela são maravilhosas e que ela era fascinante e teve N amantes, casou, descasou várias vezes, se apaixonou outras tantas. Que era muito amiga dos ex maridos e ex amores. Não teve filhos. Teve um amante 14 anos mais jovem e foi rodar o mundo com ele, que era piloto. Abandonou a Espanha e ficou no México. Era bruxa, mística, intelectual. Lia Gurdjeff e suas pinturas têm a influência dele e de gente como Poe, Dumas, Verne, Bosch, El Greco, Goya.
Remedios adorava gatos, suas pinturas estão cheias de gatos, de torres, de relógios, de freiras, de fios finíssimos, de rodas de bicicletas e de pessoas magérrimas. Também é cheia de janelas e de Freud e de Jung.
Essa moça tão diferente encantou Octavio Paz. E esse poeta lhe escreveu um texto belíssimo, além de cartas e bilhetes cheios de amor e admiração.

Mas o que me deixou cheia de risadinhas juvenis foi a amizade dela com Leonor Carrington. As duas trocavam receitas de poções eróticas e mágicas, se deliciavam conversando sobre misticismo e magia e viagens interiores, e também com coisas que seriam impossíveis de realizar. E riam juntas, eram vizinhas e bebiam juntas. Conquiatariam o mundo juntas se tivessem deixado. Não me contaram isso, mas certamente elas se apoiavam. Ainda mais nos anos 50, contra tudo, contra o mundo dos homens. E juntas causavam (risos). Elas se chamavam almas gêmeas.


Também não posso esquecer de falar que as obras dela são sim, do mesmo nível dos maiores trabalhos surrealistas e que ela não merecia ficar fora da história da pintura, como uma menção apenas. Isso não sou eu que falo, quem sou eu, mas gente que entende do riscado. Ainda bem que nosso tempo vem corrigindo essas injustiças.

Remedios morreu muito cedo, morreu aos 55 anos. É outro assombro pensar nisso. É um assombro pensar numa vida tão curta e tão rica, ela tinha apenas 55! Por isso também eu tenho 50 e vivo assombrada.
Outra hora vou procurar sobre Leonor, talvez ela tenha morrido mais tarde. Quem sabe ela começou depois dos 50 e eu ainda tenho tempo? (risos eternos)


Aí vai um pequeno pdf que fiz com algumas obras de
Remedios e um texto de Octavio Paz sobre ela: Remedios Varo pinturas e texto

(Esse texto eu fiz de cabeça depois de ler várias coisas e pode ter incorreções. Mas se alguém se dignar a ver as pinturas dela, já valeu)

TODAS AS HISTÓRIAS JÁ FORAM CONTADAS

Trata-se de uma afirmação muito comum no discurso pós-moderno: tudo já foi feito, e, principalmente, todas as histórias já foram contadas. Será? Será que já contamos todas as histórias sobre o parto, a experiência de um parto normal? A experiência de uma cesárea? A dor de dar à luz um bebê morto? Sobre a violência obstétrica, sobre a depressão pós-parto, sobre a amamentação? Sobre não querer amamentar e sobre não poder amamentar? Será que já contamos todas as histórias sobre a experiencia da menstruação? E da menopausa? Quantos romances falam sobre a menopausa? Será que já contamos todas as histórias sobre esterilização forçada, sobre não querer ser mãe, sobre querer ser mãe e não poder, sobre ter um filho negro ou indígena ou homossexual ou trans, sobre o medo da violência das pessoas e instituições sobre esse filho? Será que já contamos todas as histórias sobre o que significa ser uma mulher negra? E uma mulher indígena? E sobre mulheres ou homens trans? Será que já contamos todas as histórias sobre o sexo entre duas mulheres? E sobre o amor entre duas mulheres? Será que já contamos todas as histórias sobre aborto? Sobre aborto espontâneo de um filho desejado e sobre aborto malfeito, sobre a menina que engravida e é obrigada a ser mãe, sobre a menina que engravida? Será mesmo que todas as histórias já foram contadas?

Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

O adágio, a paz e a simplicidade

Affonso Romano de Sant’Anna

Eu queria era escrever sobre o poder de certas árias musicais, tão simples que nos esfacelam o coração. Dessas que a gente ouve e fica em pura contemplação. Dessas que a gente não tem dúvida: não foram fabricadas, não foram compostas, nasceram prontas, como pronta nasce uma flor da semente de si mesma, naturalmente.

Que força têm certas árias! Não quero citar nomes, mas não resisto e cito logo um exemplo universal: o adágio do Concerto de Aranjuez, do compositor espanhol Joaquín Rodrigo.

Não há ninguém até hoje que tenha resistido a essa música. Tenho certeza que toda vez que soam aqueles instrumentos num quebranto árabe e espanhol o mundo se torna melhor. E se conseguissem tocar esse trecho da música em todos os quarteirões do mundo, incluindo os mares e desertos, poder-se-ia dizer que num certo instante o mundo foi irremediavelmente feliz.

Há inumeráveis músicas bonitas, benfeitas e inteligentes, mas há algumas árias que a gente ouve e pensa: o homem ainda tem salvação; se alguém parecido com a gente foi capaz de fazer isto, então nem tudo está perdido.

É assim: começa a soar um concerto. Por exemplo, o Concerto 21, para piano e orquestra, de Mozart. Aí, apesar de já ser Mozart e você achar que Mozart não pode superar a si mesmo, de repente, ele parte para a maior lição de humildade, que é a aspiração de qualquer grande artista; escolhe duas ou três notinhas, que nas mãos dos inábeis passariam desapercebidas, e começa a pingá-las no piano. Começa o movimento chamado Andante. Aí, não tem jeito. Você tira o olho do livro, tira o olho das amarguras, tira o olho do desamor, esquece das dívidas, olha a natureza interior com uma forma suave e deixa a alma respirar beleza.

Um dia estava num avião sobrevoando a Transilvânia, vejam só, aquela região de vampiros, estava indo para Jerusalém e de repente o comandante anunciou que íamos ter uma turbulência e por isto era necessário apertar os cintos etc. Mas como apertar os cintos se no headphone começou a soar o Andante do Concerto para violino de Mendelssohn?

Caísse o avião, eu não estava nem aí. Anunciassem o que quisessem, toda e qualquer tragédia, há muito eu já estava nos céus entre querubins e serafins. Tenho certeza de que no dia em que Mendelssohn compôs essa parte do concerto, o Senhor, do alto de sua clemência, perdoou todos os pecados dele e de sua descendência até a quarta geração.

Não falei ainda do Adágio de Albinoni. E o que essa música já fez pelo coração dos jovens amantes, só se compara ao que Aranjuez continua inapelavelmente a fazer quando nas tardes os amantes se encontram e diluem os corações, um nas doçuras do outro.

Estou me dando conta que privilégio muito os andantes e os adágios. Devo confessar que tenho um fraco por adágios e andantes. Aí a alma da gente começa a passear num parque de folhas secas, como se estivesse num dourado outono. O adágio tem essa força, essa gravidade, essa densidade, como se estivéssemos num ritual, caminhando para alguma coisa digna que dá sentido à nossa vida. Quando começa um movimento mais ríspido e espevitado, minha alma agradece, mas quer mesmo é adágio e andante, porque o ritual harmônico das almas é que dá sentido à vida.

Algum maldoso poderia dizer: “Você está citando só musiquinhas populares dentro da música clássica”. Aí, eu exclamo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Eu também já tive minha fase de glorificar os modernos e modernosos, — e entre eles há tanta coisa que eu gosto! —, mas estou falando de uma coisa totalmente diferente, e se você não está me entendendo, finja que está, e prossigamos”.

Acho que a idade da sabedoria, ou algo que se aproxime a isto, tem muito a ver com adágios e andantes. Na Grécia, os pensadores, quando queriam pensar algo grave, saíam andando fora dos muros da cidade, a conversar, peripateticamente. Andar e conhecer, colocar a alma em ritmo de adágio, pura meditação, ainda que acompanhada.

Na infância e juventude predomina o allegro vivace. E bom para começar. Mas a alma se refestela mesmo é quando irrompe o denso e suave adágio da maturidade.

Há uma série de músicas que nos enchem tanto de vida, que dizemos: “Essa é a música que eu queria ouvir na hora de morrer”. De minha parte, já pensei até em preparar uma gravação para isto. É a única maneira de compensar a feiura dos cemitérios e suas deprimentes capelas. Seria realmente mais digno ir sendo levado por uma verde campina enquanto soassem Mozart, Mendelssohn, Bach, Albinoni, Telemann, Vivaldi e outros.

Não gosto de músicas que contrariem a natureza. E a música era outra coisa antes de o mundo conhecer a poluição industrial.

Por isto, minha amiga, toque mais uma vez o Concerto de Aranjuez na sua alma. Deite-se entre as almofadas da tarde e vá sorvendo o silêncio da noite, porque a vida é harmonia e musicalmente se ama melhor.

As Causas

Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.

Jorge Luis Borges, in “História da Noite”

Literatura Indígena

Literatura indígena. Quando os europeus chegaram no continente, a maior parte das culturas eram ágrafas, muitas ainda são, e lembro das palavras do xamā Davi Kopenawa, que chama os livros de peles de árvores mortas. Para Kopenawa, nós matamos árvores com o intuito de gravar ali o que nossa memória inepta não é capaz de lembrar. Me pergunto, o que será a literatura indígena?
Talvez antes seja necessário pensar nas semelhanças e diferenças entre os tantos povos indígenas. Como comparar os Guarani, que resistem em grandes cidades como Rio e São Paulo, e etnias no mais profundo da Amazônia sem quase nenhum contato com a civilização “branca”?
Mas talvez antes mesmo de começar estes questionamentos seja importante se fazer uma outra pergunta: o que é literatura? Costumamos associá-la à palavra escrita, como se esta fosse a única possibilidade. Gosto de imaginar que literatura é toda linguagem metafórica, toda linguagem simbólica: nosso corpo, uma árvore, um sonho, todo gesto de interpretação a partir deles é literatura. Um corpo que dança é literatura, a adivinhação do formato de uma nuvem. O filho que cresce no útero pode ser literatura. A voz que já não sai da garganta um homem, uma planta que perdeu as flores, um rio, um vulcão.
Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Correio Literário

W.K., Lublin

Por enquanto suas observações têm caráter puramente particular–dizem respeito a pessoas e ambientes delineados de forma tão nebulosa e fragmentada que não conseguiriam prender a atenção do leitor. Aliás, não entendemos bem por que na carta para a redação o senhor fala em «mania de escrever», como se fosse uma doença vergonhosa que é preciso forçosamente curar o mais rápido possível. Não há nada de anormal na necessidade de anotar seus pensamentos e vivências; pelo contrário, é uma manifestação natural da cultura literária pessoal, o que se aplica, afinal, não só aos escritores, mas, em geral, a todas as pessoas cultas! Quando lemos publicações de antigos cadernos de memórias ou cartas, ficamos admirados com o brilho da excelente forma literária dessas confissões – escritas com frequência por pessoas que não eram literatas nem tencionavam ser… Hoje, basta a pessoa escrever algumas paginazinhas e ela já se pergunta quanto vale aquilo, já lhe atormentam pensamentos sobre a publicação e ela deseja saber se vale a pena «perder seu tempo»… É triste que cada frase formulada de maneira mais ou menos graciosa deva imediatamente valer a pena. E se for valer a pena só daqui a dez ou vinte anos? Ou se nunca chegar a valer a pena no sentido público, mas, em vez disso, ajudar o escritor nos momentos mais difíceis e enriquecer sua própria individualidade? Isso não serve de nada?

Wisława Szymborska  – Correio Literário página 31

Benzimento Antigo

BENZIMENTO ANTIGO
Deus te viu, Deus te criou
Deus te livre de quem para ti
com mal olhou.
Em nome do pai, do Filho
e do Espírito santo
Virgem do pranto,
quebrai este quebranto.
Eu te benzo pelo nome que te puseram na pia,
em nome de Deus e da Virgem Maria,
e das três pessoas da Santíssima Trindade,
eu te benzo.
Deus nosso Senhor que te cura,
Deus que te acuda nas tuas necessidades.
Se teu mal é quebranto, mal invejado,
olhos atravessados ou qualquer outra enfermidade,
se te deram no comer, no beber, no sorrir,
no zombar, na tua formosura,
na tua gordura, na tua postura,
na tua barriga, nos teus ossos, na tua cabeça,
na tua garganta, nas tuas lombrigas, nas tuas pernas.
Que Deus Nosso Senhor que há de tirar,
vem um anjo do céu,
deita no fundo do mar
onde não ouça galinha e nem galo a cantar.
Com dois puseram, com três eu tiro.
Com as três pessoas da Santíssima Trindade,
que tira quebranto e mau-olhado,
‘pras ondas do mar,
‘pra nunca mais voltar.
Com dois puseram, com três eu tiro.
Com as três pessoas da Santíssima Trindade,
que tira quebranto e mau-olhado,
‘pras ondas do mar,
‘pra nunca mais voltar.
Virgem Mãe da Conceição
Mãe do poderoso Deus
Tirai este mal, este quebranto
Do corpo de…
Deus te fez, Deus te criou
Deus perdoa, a quem mal te olhou
Em louvor à Virgem Maria
Padre Nosso e Ave Maria.
Mal do ar, mal do mar,
mal do fogo, mal da lua,
mal das estrelas,
mal do ponto do meio dia,
mal do ponto da meia noite.
Se estiveres com quebranto,
mau olhado, feitiçaria e bruxaria,
que em nome de Deus e da Virgem Maria,
seja levado para as ondas do mar sagrado,
onde não canta o galo nem a galinha
nem chora a criancinha
nem há nenhum cristão batizado.

Tudo o que eu queria
Era para sempre
esse eterno deslumbramento
de pássaro aprendendo o voo
de rio aprendendo a montanha
Tudo o que eu queria
era para sempre
esse fôlego, esse brilho
esse abraçar o mundo
como se o mundo fosse um filho
e coubesse entre os braços.

– Roseana Murray

Feliz aniversário, Mãe

Feliz Aniversário, Mãe, onde quer que você esteja ou não esteja.
“E hoje era o teu dia de festa!
Meu presente é buscar-te.
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.
Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.
Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.”
Elegia – Cecília Meirelles

Cinzas

No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estalo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.

Adélia Prado

Repenso o mundo

Repenso o mundo, segunda edição,
segunda edição corrigida,
aos idiotas o riso,
aos tristes o pranto,
aos carecas o pente,
aos cães botas.
Eis um capítulo:
A Fala dos Bichos e das Plantas,
com um glossário próprio
para cada espécie.
Mesmo um simples bom-dia
trocado com um peixe,
a ti, ao peixe, a todos
na vida fortalece.
Essa há muito pressentida,
de súbito revelada,
improvisação da mata.
Essa épica das corujas!
Esses aforismos do ouriço
compostos quando imaginamos
que, ora, está só adormecido!
O tempo (capítulo dois)
tem direito de se meter
em tudo, coisa boa ou má.
Porém — ele que pulveriza montanhas
remove oceanos e está
presente na órbita das estrelas,
não terá o menor poder
sobre os amantes, tão nus
tão abraçados, com o coração alvoroçado
como um pardal na mão pousado.
A velhice é uma moral
só na vida de um marginal.
Ah, então todos são jovens!
O sofrimento (capítulo três)
não insulta o corpo.
A morte
chega com o sono.
E vais sonhar
que nem é preciso respirar,
que o silêncio sem ar
não é uma música má,
pequeno como uma fagulha,
a um toque te apagarás.
Morrer, só assim. Dor mais dolorosa
tiveste segurando nas mãos uma rosa
e terror maior sentiste ao som
de uma pétala caindo no chão.
O mundo, só assim. Só assim
viver. E morrer só esse tanto.
E todo o resto — é como Bach
tocado por um instante
num serrote.
Wisława Szymborska, Poemas

Nostalgia

NOSTALGIA
Havia uma macieira no quintal –
terá sido
há quarenta anos – atrás,
apenas prados. Rastos
de açafrão na relva húmida.
Fiquei naquela janela:
final de abril. A primavera
nas flores no quintal vizinho.
Quantas vezes, na verdade, floriu
a árvore no meu aniversário,
no dia exato, não
antes, não depois? Substituição
do imutável
para o mutante, a evolução.
Substituição da imagem
pela terra implacável . Que
eu sei sobre este lugar,
o papel da árvore que por décadas
parecia um bonsai, vozes
vindo dos campos de ténis –
Campos. Cheiro de relva alta, corte novo.
Como se espera de um poeta lírico.
Olhámos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória.

LOUISE GLUCK, in MEADOWLANDS

(Hopewell, New Jersey, 1996),

tradução de CARLOS CAMPOS

O Sacristão

O SACRISTÃOSomerset Maugham

Houvera um batizado aquela tarde, na igreja de São Pedro, e Albert Edward Foreman ainda estava com sua batina de sacristão. Ele reservava sua melhor indumentária do cargo para casamentos e funerais, e a que usava naquele momento era a segunda melhor. Gostava de usar a batina, por ser um digno símbolo das suas funções, e se sentia insuficientemente vestido sem ela. Cuidava do traje com todo carinho, e durante os dezesseis anos no cargo tivera uma série delas, mas nunca fora capaz de jogá-las fora quando desgastadas pelo uso, guardando-as embrulhadas em papel marrom nas gavetas inferiores do guarda-roupa.
Estava esperando apenas o vigário sair, para poder arrumar tudo, trancar a igreja e ir para casa. O vigário passou para o presbitério, fez uma genuflexão diante do altar e começou a caminhar numa das alas de bancos.
— “Que será que ele está procurando? — pensou. — Ele devia perceber que eu tenho de ir para casa tomar o meu chá”.
O vigário era um homem de seus quarenta anos, rosto corado e enérgico, que assumira o cargo recentemente. Albert ainda lamentava a perda do antecessor, um sacerdote da velha escola que pregava seus sermões monotonamente, com voz argêntea, e freqüentemente jantava com seus paroquianos mais aristocráticos. Gostava das coisas assim, não como esse novo vigário, que queria dar palpite em tudo. Mas Albert era tolerante, e nunca se agastava.
A Igreja de São Pedro era muito bem localizada, com paroquianos muito distintos. O novo vigário estivera antes junto a paroquianos de outro nível social, e era natural que demorasse um pouco a se adaptar aos novos.
— “Mudanças assim contundem as pessoas — pensava Albert, — mas ele acabará aprendendo”.
Quando o vigário se aproximou de Albert a ponto de poder falar-lhe no tom de voz baixo adequado ao lugar sagrado, parou e o chamou.
— Foreman, venha comigo à sacristia, que eu preciso conversar um pouco com você.
— Pois não, senhor.
Enquanto caminhavam juntos, Albert comentou:
— Bonito batizado, senhor. E foi muito interessante como a criança parou de chorar exatamente quando o senhor a tomou nos braços.
— Já notei que isso acontece com freqüência. De fato eu consegui boa prática em lidar com bebês.
Albert ficou um tanto surpreso ao encontrar na sacristia os dois conselheiros da paróquia, que ele não vira entrar. Cumprimentou-os cortesmente. Eles ocupavam o conselho há muito tempo, quase tanto quanto o dele como sacristão. Estavam sentados atrás de uma grande mesa, e o vigário ocupou a cadeira vaga entre os dois. Albert sentou-se do outro lado da mesa, enquanto procurava, com certa intranqüilidade, descobrir o que podia ter acontecido. Lembrava-se de quando o organista criou uma encrenca, e dos aborrecimentos que os três tiveram para acertar as coisas. Numa igreja como a de São Pedro não se podiam admitir escândalos. O vigário tinha um ar de benevolência, mas os outros estavam um tanto a contra-gosto.

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A Vida Na Hora

A VIDA NA HORA
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
conheço.
Isso é justo — pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

Wisława Szymborska, Poemas

Patina-se sempre no nevoeiro sangrento, mas com algumas referências. O caos não está mais do que a alguns metros. Magro êxito, na verdade.
Que contraste com O poder absoluto, milagroso, da leitura! Uma vida inteira lendo teria satisfeito os meus desejos. Isso eu já sabia aos sete anos de idade. A textura do mundo é dolorosa, inadequada; não me parece que se possa modificá-la. Realmente, acho que uma vida inteira lendo teria sido melhor para mim. Tal vida não me foi dada.

Michel Houellebecq em Extensão do Domínio da Luta

Mãe

A mulher fia o filho.
No silêncio do corpo
inaugura-se: mãe.
O ventre: curvatura de sol
levantando-se
em mansidão de horizonte.
De si própria se esquece:
tecelã da rosa que já aflora
em crescimento lento
no seu sangue.
Zila Mamede
Mãe, poema do livro Exercício da Palavra, de 1975

O que você está lendo?

Todos nós fazemos muitas perguntas uns aos outros: “Onde você passou as férias?” “Como você dormiu?” Ou, minha favorita, enquanto olho os últimos pedaços de bolo de chocolate no prato de sobremesa de um amigo, “Você vai terminar isso?” (Uma pergunta apresentada de forma memorável no filme Diner de 1982.)
Mas há uma pergunta que acho que devemos fazer uns aos outros com muito mais frequência, e é “O que você está lendo?”
É uma pergunta simples, mas poderosa, e pode mudar vidas, criando um universo compartilhado para pessoas que de outra forma estão separadas por cultura e idade e por tempo e espaço.
Lembro-me de uma mulher que me disse que adorava ser avó, mas sentia-se tristemente sem contato com o neto. Ela morava na Flórida. Ele e os pais moravam em outro lugar. Ela ligava para ele e perguntava sobre a escola, sobre seu dia. Ele sempre respondia com monossílabos: Tô bem. Nada. Não.
E então um dia ela perguntou o que ele estava lendo. E ele tinha acabado de começar Jogos Vorazes, uma série de romances distópicos para jovens de Suzanne Collins. Essa avó decidiu ler o primeiro volume, para que pudesse conversar sobre isso com o neto na próxima vez ao telefone. Ela não sabia o que esperar, mas se viu fisgada nas primeiras páginas quando Katniss Everdeen se oferece para tomar o lugar de sua irmã mais nova na batalha anual até a morte entre um seleto grupo de adolescentes.

O livro ajudou esta avó a superar as superficialidades da conversa por telefone e envolver seu neto nas questões mais importantes que os humanos enfrentam sobre sobrevivência, destruição, lealdade, traição, bem e mal, e também sobre política. E ajudou seu neto a se envolver com a avó nas mesmas questões – não como uma criança que precisava de um sermão, mas como um companheiro de busca. Isso lhe deu uma linguagem para discutir questões nas quais ele estava pensando, sem ter que explicar por que esses temas lhe importavam.
Quando falavam sobre Jogos Vorazes, eles não eram mais apenas avó e neto: eram dois leitores que embarcaram em uma jornada juntos. Agora seu neto mal podia esperar para falar com ela quando ela ligasse – para dizer onde ele estava, para descobrir onde ela estava e para especular sobre o que aconteceria a seguir.
Os Jogos Vorazes deram-lhes inspiração para discussões mais profundas do que nunca, e forneceu-lhes uma riqueza de sugestões para suas conversas. O livro até os levou a falar sobre tópicos que incluíam desigualdade econômica, guerra, privacidade e mídia. À medida que continuaram lendo e falando sobre outros livros, descobriram que tinham uma linguagem comum em constante expansão: seu “vocabulário” era composto de todos os personagens, ações e descrições em todos os livros que liam, e eles podiam usá-los para transmitir seus pensamentos e sentimentos.

Além do acidente de ser da mesma família, eles nunca tiveram muito em comum. Agora tinham.

Quando nos perguntamos “O que você está lendo?” às vezes descobrimos como somos semelhantes; às vezes as maneiras como somos diferentes. Às vezes, descobrimos coisas que nunca soubemos que compartilhávamos; outras vezes, nos abrimos para explorar novos mundos e ideias. “O que você está lendo?” não é uma pergunta simples quando feita com curiosidade genuína; é realmente uma maneira de perguntar: “Quem é você agora e quem você está se tornando?”

Books for Living – Will Will Schwalbe

Bois Dormindo

à Tomé Filgueira

A paz dos bois dormindo era tamanha
(mas grave era tristeza do seu sono)
e tanto era o silêncio da campina
que ouviam nascer as açucenas.
No sono os bois seguiam tangerinos
que abandonando relhos e chicotes
tangiam-nos serenos com as cantigas
aboiadeiras e um bastão de lírios.

Os bois assim dormindo caminhavam
destino não de bois mas de meninos
libertos que vadiassem chão de feno;

e ausentes de limites e porteiras
arquitetassem sonhos (sem currais)
nessa paz outonal de bois dormindo.

“Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.”
G. K. Chesterton, Ortodoxia.

Dani Querida

Tenho pensado muito em escrever. Não exatamente no que vou escrever e sim no ato de escrever.
Escrever é registrar.
Registrar é olhar em volta ou para dentro e ver e observar e analisar e sentir e perceber e conjecturar e projetar e racionalizar e enumerar e resumir e narrar e repetir-para-elaborar e planejar e compor e bolar planos infalíveis, resenhas infernais, súmulas inquietantes, relatos coloridos, listas comoventes.
Registro é o que nos define.
Somos os caras que registram.
Antes da escrita registramos entalhando ossos e desenhando nas paredes de cavernas e nas superfícies das rochas, espalhando flores em torno dos corpos sepultados de nossos entes queridos, produzindo utensílios e tratando peles de animais.
Depois da escrita, inventando símbolos, alfabetos rebuscados, tomos e mais tomos gramaticais e regras ilógicas sobre o uso do hífen em plaquinhas de argila, pergaminhos e papel de carta da Hello Kitty.

Somos os caras que registram com nossos celulares, nossas publicações independentes, caderninhos de capa florida, guardanapos de boteco, nossos sites e nossa indignação seletiva aqui e ali na rede social.

– Quem são aqueles caras ali? – vai perguntar alguém de passagem pelo planeta.
– São os caras do registro – responderá o outro E.T. – Eles relatam o que veem e sentem, anotam e desenham, costuram e modelam, escrevem e solfejam, pintam as paredes mesmo sabendo que vão apanhar quando pai chegar em casa. Eles fotografam o risoto feio para o Instagram, gravam áudios de oito minutos para a Iza, guardam o sapatinho do bebê para muito depois que o bebê partir daquele mundo, produzem livros, colam recortes em caderninhos fofos, sobem cartas de amor para a nuvem, escrevem recados dolorosos enquanto ouvem o coração trincar e a chuva cair no meio da madrugada.

Escolha uma coisa, Dan, uma coisa perto de você, e registre. Do jeito que você puder ou quiser. Com palavras, imagens, desenhos ou voz (vamos evitar, por enquanto, os ossos entalhados, meu bem).
Faça seu registro, mande para mim.
Vamos começar hoje as nossas aulas de redação?
Fal

Adolescente

Wislawa Szymborska

Eu — adolescente?
Se de repente ela me aparecesse aqui, agora,
deveria saudá-la como a uma pessoa próxima,
mesmo que me pareça estranha e distante?

Derramar uma lágrima, beijar a testa
somente pelo motivo
de termos a mesma data de nascimento?

Tanta dessemelhança entre nós
que talvez só os ossos sejam os mesmos,
o formato do crânio, as órbitas.

Pois os olhos deles já parecem maiores,
os cílios mais longos, a estatura mais alta
e o corpo compactamente coberto
de pele lisa, sem defeito.

É verdade que nos unem parentes e amigos,
mas no seu mundo quase todos estão vivos
e no meu quase ninguém
desse círculo comum.

Tanto nos diferenciamos,
de coisas tão diversas falamos, pensamos.
Ela sabe pouco —
mas com absoluta convicção.
Eu sei muito mais —
mas sem certezas.

Me mostra os seus versos,
escritos numa letra clara, caprichada,
que eu já não tenho há anos.

Leio esses versos, releio.
Bom, talvez só este,
se der para encurtar
e corrigir aqui e ali.
Para o resto não vejo futuro.

A conversa não engata.
No seu relógio pobre
o tempo ainda é vacilante e barato.
No meu, muito mais caro e preciso.

Na despedida, nada: um sorriso casual
e nenhuma emoção.

Só quando some
e na pressa esquece o cachecol.

Um cachecol de pura lã,
com listras coloridas,
tricotado à mão para ela
pela nossa mãe.

Eu o guardo ainda.

Como Tomar Um Sorvete

Umberto Eco

Quando eu era pequeno, compravam-se dois tipos de sorvete para as crianças, vendidos em carrocinhas brancas com teto prateado: as casquinhas de dez centavos ou o biscoito de vinte. As casquinhas de dez centavos eram mínimas, cabiam perfeitamente na mão de uma criança e se confeccionavam tirando o sorvete do balde com a concha adequada e acumulando-o em cima do cone de massa. As avós nos aconselhavam a só comer uma parte da casquinha, jogando fora o fundo em ponta, porque havia sido tocado pela mão do sorveteiro (no entanto, era esta a parte melhor e mais crocante, todos a comiam escondidos, fingindo tê-la jogado fora).
O biscoito de vinte centavos, a cialda, era confeccionado com um aparelho especial, também prateado, que comprimia duas superfícies circulares de massa contra uma seção cilíndrica de sorvete. Fazia-se correr a língua pelo interstício até ela não conseguir mais alcançar o núcleo central do sorvete, e a essa altura se comia tudo, pois as superfícies já estariam moles e devidamente impregnadas do néctar. As avós não tinham nada a dizer; em teoria, os biscoitos só tinham contato direto com a máquina: na prática o sorveteiro os pegava com as mãos para entregá-los, mas era impossível identificar a zona infectada.
Eu sentia grande fascínio por alguns coetâneos meus cujos pais adquiriam não um biscoito de vinte centavos, mas duas casquinhas de dez. Estes privilegiados saíam desfilando orgulhosos com um sorvete na mão direita e outro na esquerda e, movendo com agilidade a cabeça, lambiam ora um ora outro. Esta liturgia me parecia tão suntuosamente invejável que muitas vezes pedi para poder celebrá-la. Em vão. Meus pais eram inflexíveis: um sorvete de vinte centavos sim, mas dois de dez centavos absolutamente não.
Como todos podem ver, nem a matemática, nem a economia e nem a dietética justificavam esta recusa. E nem mesmo a higiene, contanto que depois se jogassem fora as extremidades dos dois cones. Uma piedosa justificação argumentava, na verdade falaciosamente, que um menino ocupado em ficar correndo os olhos de um sorvete para o outro estaria mais inclinado a tropeçar em pedras soltas, degraus ou irregularidades quaisquer do calçamento. De maneira obscura, eu intuía que devia haver algum outro motivo, cruelmente pedagógico, do qual porém não conseguia me dar conta.
Hoje, habitante e vítima de uma sociedade de consumo e do desperdício (o que certamente não era o caso dos anos trinta), compreendo que aqueles meus entes queridos, hoje desaparecidos, estavam com a razão. Dois sorvetes de dez centavos em lugar de um de vinte não eram economicamente um desperdício, mas sem dúvida o eram simbolicamente. Por isso mesmo eu os desejava tanto: porque dois sorvetes sugeriam um excesso. E era justamente por isso que me eram negados: porque parecia uma indecência, um insulto à miséria, uma ostentação de privilégio fictício, um luxo injustificado. Só tomavam dois sorvetes as crianças estragadas, aquelas que eram justamente castigadas nas histórias, como Pinóquio quando desprezava a casca e o talo da maçã. E os pais que encorajavam esta fraqueza dos pequenos parvenus educavam os filhos no teatro idiota do “quero-mas-não-posso”, ou então os estavam preparando, como diríamos hoje, para se apresentarem ao check-in da classe turística portando um falso Gucci comprado num camelô da beira da praia de Rimini.
Este apólogo corre o risco de parecer desprovido de moral, num mundo onde a sociedade de consumo tenta estragar também os adultos, e lhes promete sempre algo a mais, do reloginho incluído na embalagem à medalha oferecida para quem comprar a revista. Como os pais daqueles glutôes ambidestros que eu tanto invejava, a sociedade de consumo finge dar mais, mas na verdade dá por vinte centavos aquilo que vale vinte centavos. Jogamos fora o rádio velho para comprar o que promete também um toca-fitas auto-reverse, mas algumas inexplicáveis fraquezas da estrutura interna fazem com que o novo rádio dure somente um ano. O novo carro econômico tem assentos de couro, dois espelhos laterais reguláveis do interior e o painel em madeira, mas durará muito menos que a gloriosa Fiat 500 que, mesmo quando quebrava, sempre voltava a funcionar com um pontapé.
Mas a moral daqueles tempos queria que fôssemos todos espartanos, e a de hoje quer nos transformar a todos em sibaritas.

Carta de amor de Richard Feynman

Richard Feynman, um dos pais da bomba atômica, escreve em 1946 à sua esposa, Arline Greenbaum, falecida 16 meses antes:

“Cara Arline,

Eu adoro você, querida.

Eu sei como você gosta de me ouvir, mas escrevo não apenas para agradá-la. Escrevo porque isso inunda de calor meu interior. Não escrevi por muito tempo, quase 2 anos. Mas sei que você vai me perdoar, um inveterado pragmático. Achava que não havia sentido algum em escrever para você.

Mas agora, minha querida esposa, sei que devo fazer aquilo que adiei por muito tempo e que, com tanta frequência, fazia no passado. Quero dizer que amo você. Quero amá-la. Sempre a amarei.

Com minha mente é difícil entender o que significa amá-la depois de morta, mas até agora quero protegê-la e cuidar de você. E eu quero que me ame e cuide de mim. Eu quero falar com você sobre os meus problemas. Eu quero fazer coisas diferentes com você. Até agora, isso nunca tinha me acontecido. Mas poderíamos fazer muitas coisas juntos: costurar roupas, aprender chinês, comprar um projetor de filmes. E agora, posso fazer isso? Não, estou tão sozinho sem você. Você foi o principal gerador de ideias e a fonte de inspiração para todas as minhas loucas aventuras.

Quando estava doente, você se preocupava por não ser capaz de me dar o que eu precisava, o que queria me dar. Você não deveria ter se preocupado. Não havia necessidade disso. Eu sempre disse que a amava muito, simplesmente por existir. E agora entendo isso mais do que nunca. Você não pode me dar mais nada e eu amo tanto você que nunca poderei amar outra pessoa. E eu quero que seja assim. Porque até morta você é muito melhor do que todos os vivos.

Eu sei que você vai dizer que sou um tolo e quer que eu seja feliz, sem se interpor no meu caminho. Provavelmente ficará surpresa ao saber que, durante esses 2 anos, eu não tive sequer uma namorada (exceto você, minha amada). E você não pode fazer nada a respeito. Eu também não posso. Não entendo nada. Conheci muitas garotas, incluindo algumas muito simpáticas, e não quero ficar sozinho, mas depois de alguns encontros, percebi que elas não significavam nada para mim. Eu só tenho você. Você é real.

Minha querida esposa, eu adoro você.
Eu amo a minha esposa. Minha esposa morreu.

Rich

P.S: Perdoe-me, por favor, por não ter lhe enviado esta carta: não sei seu novo endereço”.

Cinzas – Adélia Prado

No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita,
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.

Carta de Valter Hugo Mãe para Marcelino Freire:

Marcelino, tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.

Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.

Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.

Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?

Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.

Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.

Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente.
Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.

Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.

Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.

Um senhor deixa cair ao chão os óculos

que fazem um barulho terrível ao bater nos ladrilhos. O senhor se abaixa aflitíssimo porque as lentes dos óculos custam muito caro, mas descobre assombrado que por milagre elas não se quebraram. Agora esse senhor sente-se profundamente grato, e compreende que o acontecimento vale por uma advertência amigável, de maneira que se dirige a uma ótica e compra logo um estojo de couro acolchoado, com proteção dupla, como precaução. Uma hora depois deixa cair o estojo e ao abaixar-se sem maior preocupação verifica que os óculos viraram farelo. Esse senhor leva tempo para compreender que os desígnios da Providência são insondáveis e que na realidade o milagre aconteceu agora.

Julio Cortázar – “Histórias de cronópios e de famas”

Pra que é que presta uma menininha?

“Infância? pobre, mas linda…

 Tão linda que mesmo longe

 Continua em mim ainda.”

(Vinícius de Moraes —  Autobiografia)

Pra que é que eu presto? Pra que serve uma menininha? As respostas podem ser variadas, de acordo com o ângulo e a visão do mundo do respondedor. É possível afirmar, liricamente, que ela enfeita e dá alegria à vida dos pais. Ou, cientificamente, buscar explicações nas leis biológicas de preservação da espécie e sua futura e provável incidência. Nada disso, porém, respondia à angústia da menina nascida no Natal de 1941 e que desde muito cedo era brindada constantemente com o adjetivo de imprestável, coisa meio’ difícil de entender, palavra que se revirava na cabeça sem sentido claro, mas evidentemente negativa, pelo tom de voz em que era insistentemente pronunciada.

Dá para retraçar com certa objetividade a primeira grande dúvida semântica suscitada por esse imprestável. A menina tinha por volta de quatro anos, dá para ter certeza porque era nas vésperas do casamento do tio mais querido, isso não se esquece e deixa conferir a data depois.

— Sua imprestável! Vê se aprende com a Rita Maria a ser uma menina boazinha e prestativa…

Impossível lembrar, tantos anos depois, o que é que a imprestável devia ter feito e não fez. Mas também impossível esquecer a dor. E impossível esquecer que Rita Maria era a prima um ano e meio mais velha, que ajudava a tomar conta dos irmãos menores, e que era tão linda, tão parecida com a tia, mãe da menininha imprestável.

Por mais que a menina tentasse, não conseguia ser linda e parecida com a mãe, como queria. Vai ver até que não era mesmo filha dela, era filha de um bugre, achada no mato pelo avô que abria estrada de ferro, como todos gostavam de contar e brincar. Vai ver, era por isso que queriam se livrar dela, emprestar para alguém, passar adiante aquela menina emprestável. E se fizesse como tantas coisas que se emprestam e ela fosse esquecida, ninguém mais devolvesse? Ela ia ficar com tantas saudades da mãe, do pai, do irmãozinho, dos avós … De noite, antes de dormir, chorava, chorava, olhava pro teto, via as lagartixas passeando no forro do casarão do avô e pensava:

— Se eles não me emprestarem, eu fico tão boazinha que até nem grito se um bicho horrível desses cair em cima de mim.

Não caía. Não dava para testar. Chorava até dormir. E sonhar. Com uma bruxa que levava ela emprestada num dia de ventania e ficava espetando o dedo na barriga dela (anos depois, assistindo a “O Mágico de Oz”, viu na tela a materialização do passado e foi terrível). E com o Bodinho, mistura de um soldado da PE (Polícia Especial), que andava no estribo do bonde de Santa Teresa onde ela morava, com os bodes que se encarapitavam pelos morros do bairro. A bruxa e o Bodinho eram as piores figuras para quem ela poderia ser emprestada. Mas todos os adultos que se aproximavam podiam ser, em potencial, candidatos ao empréstimo. E essa idéia não costumava ser das mais agradáveis.

Um dia, a área semântica do adjetivo precisou-se melhor. Ouviu o pai dizer com profundo desprezo a respeito de alguém:

— Esse sujeito não presta! Era um julgamento definitivo, uma condenação categórica. Então, tinha mais essa… Podia ser que imprestável não fosse alguém a ser emprestado, mas alguém desprezível, que não tem jeito, não serve nem para emprestar aos outros. Daí a algum tempo, a confirmação:

— Mas esta menina é incapaz de fazer uma coisa direito, não presta para nada …

Mais ou menos por essa época (é muito difícil precisar uma cronologia em dor tão remota), pescou a expressão prestar atenção. E pouco antes, ou pouco depois, captara admirações elogiosas a um tal de Prestes. Quem sabe, então, se ela aprendesse a prestar atenção nas coisas, quem sabe, não viraria uma espécie de Prestes?

Aí as pessoas iam falar dela com aquela admiração. Passou a prestar atenção em tudo — em formiga, em joaninha, em casca de árvore, em poeira dançando no raio de sol em frente da janela, em corrida de gota de chuva na vidraça, no barulho que os dentes do avô faziam quando ele comia torrada…

— Essa menina vive no mundo da lua, está sempre distraída, não presta atenção em nada…

Como não presta atenção? Não faz outra coisa, ninguém vê? Vai começando a vontade de brigar… Mas não adianta, lá vem o estribilho: — É mesmo uma imprestável,não serve para nada.

Ah, isso já esclarece mais: quem não quiser ser imprestável, tem que servir. Ou seja, primeira lição clara: para gostarem de mim, não me emprestarem, não

me largarem, tenho que ser servil, obedecer e ajudar nos trabalhos da casa, varrer, tirar pó, tomar conta de neném, essas coisas. Mas aí, além do Prestes, entrou em cena outro personagem. A menina foi levada a um comício dele, na praça cheia de gente, uma rosa ou um cravo na mão, sentada nos ombros do pai, ouvindo a multidão gritar:

— Brigadeiro! Brigadeiro! Brigadeiro! Não é de espantar que o ideal de briga tenha encontrado alguma ressonância. E começou uma oscilação que ia se estender pelos anos afora, na alternância dos adjetivos da definição familiar:

— É uma imprestável! — Sua malcriada! Mas o tempo vai passando, a menininha vai crescendo, aprende a ler, entende muito bem o que quer dizer imprestável, não confunde mais. Imprestável é a trilha sonora que acompanha a limonada. Começa assim:

— Minha filha, pode me fazer uma limonada? Claro. Significa espremer o limão, botar água no copo, pôr açúcar, botar num pratinho com uma colherinha, vir andando bem devagar pelo corredor, equilibrando para não cair, querendo um gole também, esperando um sorriso de agradecimento e encontrar:

— Você é mesmo uma imprestável! Não é capaz nem de fazer uma limonada…

Um dia estava muito doce, outro dia muito azeda, outro dia muito aguada. Mas, entre caretas e resmungos, desaparecia lá dentro da goela da mãe, sem ficar nem um golinho de fora.

Malcriada era de outro escalão. Sabia perfeitamente quando ia fazer algo para merecer o adjetivo e até se orgulhava disso. Era uma resposta a uma atitude consciente de provocação. Imprestável, não. Vinha sempre numa angústia nebulosa, machucando injusto, inesperado na maioria das vezes, humilhante. Acompanhava outra constelação qualificativa:

— Desmazelada! Desleixada! Relaxada! Esses eram quando deixava as coisas fora do lugar, não arrumava gavetas, esquecia a porta do armário aberta. Às vezes, tais adjetivos vinham acompanhados de outro:

— Porca! Este se aplicava especialmente aos cadernos que guardavam a marca do que tinha sido escrito a lápis e fora apagado. Culpa da borracha? Do lápis? De quê? Da menina, claro. Podia haver outro culpado para tudo de errado que acontecia? Para não ter que apagar os erros, o jeito era não errar nunca, levar a auto-exigência a rigores aflitivamente insuportáveis e nunca reconhecidos. Ser primeira da classe — “não fez mais do que sua obrigação” — caxias, objeto de zombaria da turma. Morre de vergonha até hoje ao lembrar que passou no vestibular com média 9,8. E que muito depois, no exílio, contratada para trabalhar na BBC de Londres, levou algum tempo para descobrir que podia errar, os técnicos apagavam o erro na fita gravada, era só repetir — ela era a ave rara que já trabalhava ali há semanas e nunca tinha engasgado ou tropeçado. Ninguém via o tamanho da doença que isso representava. Só ela, que convivia com essa dor desde menina.

Mas no doce e ameno tempo da infância, não adiantava se esforçar para não errar. Só reparavam nos erros. Com outras frases que ficaram:

— É incapaz de fazer as coisas direito! — Sem-jeito mandou lembranças… Mandou mesmo … Pegava na agulha de crochê sem qualquer habilidade. Enfiava linha na agulha (ou agulha na linha? até hoje não sabe…) de um modo tão esquisito que se encantou quando descobriu que o Huck de Mark Twain fazia o mesmo e, pelo menos, tinha um companheiro — que virou paixão — numa balsa do Mississipi. Pegava qualquer coisa, cheia de dedos, deixava cair, entornava, se queimava, se cortava. Com quase quarenta anos, decifrou o mistério, graças a muitas cabeçadas, algumas quedas e um eletroencefalograma: tem um foco de disritmia, o que complica certas sutilezas motoras. Mas antes, só podia se afligir e chorar. Mas podia? Lá vinha:

— Engole esse choro! Já! Só quem já experimentou sabe como é impossível. Ainda mais para uma “manteiga derretida”. Mas havia tanta coisa a ser engolida já, além do choro: dobradinha que crescia na boca feito esponja, nata de leite que grudava no céu da boca num nojo só… Vontade de vomitar. Qualquer pessoa que falar das delícias da infância sem fazer um parênteses para o que nos impingem à força goela abaixo (sei de um menino que levava golpes de colher nos dentes para abrir a boca, e é filho de uma super mãe amantíssima) é porque não tem memória. Mas dá para passar por cima dessas coisas neste depoimento. Deixar o capítulo alimentar ao lado da novela do vestuário, que compreendia vestidos de organdi espetentos, com forro de tafetá engomado, duro, que arranhava a cintura e debaixo do braço até deixar marcas, e se completava com a indumentária de praia — maiô de lã que semeava assaduras entre as pernas e obrigava a andar de perna aberta, ouvindo broncas sobre ser uma menina sem modos. Mas deixa pra lá. Falar na comida lembra o clima da mesa, e isso é dose para elefante. Tinha vezes até que era ótimo, a hora em que todos os irmãos se reuniam, contando casos da escola, dos amigos, de tudo, num tumulto:

— Agora é minha vez! — Deixa eu falar! Tinha sempre a irmã que corrigia: — Não foi bem assim … Lá vem a Ana exagerando…

Mas às vezes, saía um tumulto. Por qualquer bobagem. Aí era um inferno. O pai levantava da mesa. Assim não é possível! E cada um dos filhos era culpado da dor de cabeça do pai, de ter estragado o dia dele, do choro da mãe. Quando esse coro se misturava com o eterno motivo da imprestável (por exemplo, se a causa da irritação tivesse sido porque a menina que pôs a mesa esqueceu alguma coisa), começava a haver uma variante nova — o refrão do marido:

— Assim não arranja um marido. — Imprestável desse jeito (desmazelada assim, etc.), o marido um dia se levanta da mesa e vai embora.

Seria possível continuar por páginas e páginas. Mas não era tudo horrível, claro. E há um outro lado. O que salvou. Primeiro, a consciência de que a desgraça era coletiva. Nos primeiros anos, de filha única ou só com um irmão, o peso era muito maior. Quando se distribuiu pelos nove filhos, ficou mais fácil de carregar. Acontecia com os outros também. E o convívio fraterno foi sempre uma coisa de uma carga tão positiva nesses tempos de infância que dava força para segurar qualquer barra.

Apesar dos ciúmes e rivalidades naturais, das brigas eventuais, o carinho era muito grande e muito bom. Dava para ir em frente numa boa. Graças à repetição do processo, que o atenuava. A história se repetia. Era muitas vezes …

Mas outro instrumento de salvação foi o Era uma vez… As histórias que a mãe e o pai contavam, pondo a gente no colo, sentando do lado na rede ou na beirada da cama. Quem contava aquelas coisas tão maravilhosas, daquela maneira tão carinhosa, só podia gostar da gente… E as histórias ensinavam tanto… Traziam a certeza da esperança, garantiam a vitória do mais fraco, aplacavam as angústias difusas, davam forma às bruxas fora da gente. Pelo que a mãe contava, a menina ficava sabendo que Chapeuzinho Vermelho pode ser comida pelos lobos nos bosques da vida e não há vovó que proteja, mas no fim ela ganha. João e Maria podem ser abandonados no fundo do mato, se enganar com a promessa dos mais velhos, ser obrigados à força a comer o que não querem, mas um dia põem a bruxa no fogo e quando ela grita:

— Água, meus netinhos… Eles podem ser malcriadíssimos e gritar: — Azeite, minha vozinha… As histórias mostravam que Branca de Neve ficava mais bonita que a madrasta e, por mais que tivesse que lavar as escadarias do palácio, cozinhar e arrumar casa para sete anões, enfim, provar o tempo todo que sabia fazer limonada e não era imprestável, no fim ia acabar se salvando. Houve alguém mais porca e explorada do que a Gata Borralheira ou Pele de Asno? E que dizer de A Bela e a Fera, onde mesmo um bicho tão horroroso podia ser amado de verdade? Havia esperança…

Depois que a menina cresceu, olhou para trás e viu que as histórias foram bonitas, verdadeiras e boas, conseguiram mostrar o carinho como os gestos e as palavras tão reprimidos daquela geração não tinham conseguido. Não curaram a dor, não desmancharam as cicatrizes, seria pedir muito. Mas ajudaram, com suas palavras, a fechar as feridas das outras palavras.

Muitos anos, muitas histórias e dois filhos depois, a menina virada mulher olha para tudo isso lá atrás, numa mistura de carinho e dor, ainda Tem que fazer um depoimento sobre isso, que a Fanny pediu. Senta e escreve, num escrever que flui. Depois pára, sem saber como acabar, adia, interrompe o texto uns tempos.

Pensa na filha que está a caminho — maravilhas da ciência moderna, agora a gente sabe até que é uma menina, antes mesmo de nascer. E de repente, um dia, entrando em trabalho de parto, literalmente a caminho da maternidade, nas horas tensas em que, bem ou mal, as fantasias de medo da morte se misturam com as emoções do limiar da vida, lembra que o prazo para o artigo também se esgotou, o texto tem que ser mandado já, tem que ser completado. E neste momento logo antes da infância de outra menina que se inicia, a mulher se pergunta se seria capaz de responder à velha pergunta:

— Pra que serve uma menininha? Pra que é que eu presto? Não há respostas sabidas. Para o que serve todo ser humano? Para cumprir os desígnios de Deus, dirão os religiosos, ou prosseguir o ciclo da natureza, dirão os sensatos. Um filósofo e romancista como Camus talvez dissesse que para cumprir o absurdo da existência, como Sísifo em sua maldição mítica: rolar com esforço uma pesada pedra montanha acima e, lá no alto, vê-la despencar-se encosta abaixo, descer e recomeçar a empurrá-la, pelos séculos dos séculos. E, apesar disso, não se suicidar. E se a essa consciência lúcida puder se somar mais um vestígio de história de fadas, talvez a mulher pedisse às fadas no nascimento de sua menina o que já pediu no nascimento dos meninos:

— Que ela tenha saúde e seja muito amada, tão amada, mas tão amada mesmo, que dê para se sentir amada. E que isso lhe dê força e coragem para enfrentar a barra da infância, que é pesada, dura e requer coragem. Para que possa ter consciência e lembrança dos momentos em que for feliz.

“Sei lá, sei lá…

 A vida é uma grande ilusão.

 Sei lá, sei lá…

 Só sei que ela está com a razão.”

Vinícius de Moraes


MACHADO, Ana Maria. Pra que é que presta uma menininha? In: ABRAMOVICH, Fanny (Org.). O mito da infância feliz; antologia.
São Paulo: Summus, 1983.


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A colherada estreita

(Julio Cortázar)

“Um fama descobriu que a virtude era um micróbio redondo e cheio de patas. Instantaneamente deu de beber à sua sogra uma grande colherada de virtude. O resultado foi horrível: essa senhora renunciou a seus comentários mordazes, fundou um clube para a proteção de alpinistas perdidos, e em menos de dois meses se comportou de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, inadvertidos até então, passaram ao primeiro plano para grande sobressalto e assombro do fama. Não teve outro remédio senão dar uma colherada de virtude à sua mulher, que o abandonou nessa mesma noite por achá-lo grosseiro, insignificante e completamente diferente dos padrões morais que flutuavam rutilando perante seus olhos.

O fama refletiu largamente e afinal tomou ele próprio um frasco de virtude. Mas continuou da mesma maneira vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sogra ou a mulher, ambos se cumprimentam respeitosamente e de longe. Não ousam sequer se falar, tamanha é a sua perfeição respectiva e o medo que têm de contaminar-se.”

À DERIVA

Horacio Quiroga – (1878 – 1937)

O homem pisou algo esbranquiçado e, em seguida, sentiu a picadura no pé. Deu um salto e, ao voltar-se com um palavrão, viu uma jararacuçu que, enrodilhada, preparava um novo bote.

O homem deu uma olhadela no pé, onde duas gotinhas de sangue se esforçavam em engrossar, e sacou o facão da cintura. A serpente viu a ameaça e afundou ainda mais a cabeça no centro de sua espiral; mas o facão caiu sobre ela, segregando-lhe as vértebras.

O homem abaixou-se à mordedura, limpou as gotinhas de sangue e, durante um instante, examinou a ferida. Uma dor aguda brotava dos pontinhos violáceos e começava a invadir todo o pé. Apressadamente, atou com um lenço o tornozelo e seguiu pela picada até a fazenda.

A dor no pé aumentava com a sensação de um inchaço tenso e, de repente, o homem sentiu três fulgurantes pontadas que, como relâmpagos, irradiavam-se a partir da ferida e subiam até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade. Uma secura metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, lhe arrancou um novo palavrão.

Finalmente chegou à fazenda e lançou os braços à roda de um moinho. Os dois pontinhos violáceos agora desapareciam na monstruosa inchação de todo o pé. A pele parecia adelgaçada e a ponto de ceder, de tão esticada que estava. Quis chamar a mulher, mas a voz rebentou num ronco arrastado de garganta seca. A sede o devorava.

― Dorotea! ― consegui gritar num estertor. ― Dê-me cachaça!

A mulher correu-lhe com um copo cheio, que o homem sorveu em três tragos. Mas não havia sentido gosto nenhum.

― Eu lhe pedi cachaça, não água! ― rugiu de novo. ― Dê-me cachaça!

― Mas é cachaça, Paulino! ― respondeu a esposa, espantada.

― Não! Você me trouxe água! Eu quero cachaça, já lhe disse!

A mulher correu outra vez, voltando com a moringa. O homem tragou, um após o outro, mais dois copos. Contudo, nada sentiu na garganta.

― Bem, isto está horrível ― murmurou, olhando para o pé lívido, já tomado de um brilho gangrenoso. Sobre a funda atadura do tornozelo, a carne desbordava como um grande chouriço.

As dores fulgurantes se sucediam em contínuos relâmpagos, e chegavam agora à virilha. A atroz secura da garganta, que a respiração parecia afoguear ainda mais, aumentava a olhos vistos. Quando tentou se erguer, um vômito fulminante o manteve meio minuto com a testa encostada à moenda.

Mas o homem não queria morrer. Então, descendo à beira do rio, embarcou na canoa. Sentando-se à popa, pôs-se a remar até o meio do Paraná. Ali, a corrente, nas imediações do Iguaçu, percorre seis milhas e ela o levaria em menos de cinco horas a Tacurú-Pucú.

O homem, com um ímpeto sombrio, pôde mesmo chegar ao meio do rio; mas, ali, as suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa e, depois de um novo vômito ― desta vez, de sangue ―, elevou o olhar para o Sol, que já transpunha a mata.

Até a metade da coxa, toda a perna era um bloco disforme e duríssimo, que rebentava a roupa. O homem cortou a atadura e abriu a calça com a faca: o baixo-ventre desbordou inchado, terrivelmente doloroso, com grandes manchas lívidas. O homem estimou que não mais poderia chegar sozinho a Tacarú-Pacú e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, com quem estava intrigado há muito tempo.

Agora, a corrente do rio precipitava-se até a banda brasileira, e o homem pôde atracar sem dificuldades. Arrastou-se na picada margem acima, mas, a uns vinte metros, exausto, ficou estendido de peito.

― Alves! ― gritou com as forças que pôde. E assuntou em vão.

― Compadre Alves! Não me negue este favor! ― gritou novamente, erguendo a cabeça. No silêncio da floresta, não ouviu um ruído sequer. O homem teve ainda coragem para chegar à canoa, e a corrente, arrebatando-a de novo, velozmente levou-a à deriva.

Ali, o Paraná afunda num imenso cânion, cujas paredes, elevando-se uns cem metros, represam funebremente o rio. A partir das margens orladas de negros blocos de basalto, ergue-se a floresta, igualmente negra. Mais adiante, nos flancos e por detrás, erige-se a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio, rodopiante, se precipita, em incessantes borbulhas de água lodosa. A paisagem é agressiva e nela reina um silêncio de morte. Mas, ao entardecer, aquela beleza ― sombria e calma ― adquire uma singular majestade.

O Sol já havia caído quando o homem, meio estendido no fundo da canoa, experimentou um violento calafrio. E, de repente, num sobressalto, aprumou pesadamente a cabeça; sentia-se melhor. Somente lhe doía a perna, a sede diminuía e o seu peito, agora livre, se abria em lenta inspiração.

O veneno começava a esvair-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem e, embora não tivesse força para mover a mão, contava com a descida do orvalho para recompor-se de todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.

O bem-estar avançava e, com ele, uma sonolência cheia de recordações. Já não sentia nada, na perna ou no ventre. O seu compadre Gaona viveria ainda em Tacurú-Pacú? Será que veria também Mr. Dougald, o seu ex-patrão, e o receptor de madeira do obraje[1]?

Chegaria logo? O céu, no poente, se abria agora num abajur de ouro, e o rio dourava, também. Na costa paraguaia, já entenebrecida, a mata deixava cair sobre o rio a sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores cítricas e mel silvestre. Um casal de araras sobrevoou bem alto e silenciosamente, rumo ao Paraguai.

Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando ocasionalmente em torno de si mesma, ante o borbotão de um redemoinho. O homem que seguia nela se sentia cada vez melhor, enquanto pensava no exato tempo que havia passado sem ver o seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez não, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isto mesmo, seguramente.

De repente, sentiu que estava gelado até o peito.

O que seria isso? E a respiração…

Havia conhecido o receptor de madeiras de Mr. Dougalad, Lorenzo Cubilla, em Puerto Esperanza, numa Sexta-feira Santa… Sexta-feira? Sim, ou fora numa quinta?…

O homem esticou lentamente os dedos da mão.

― Numa quinta-feira…

E parou de respirar.

[1] Estabelecimento de exploração florestal.

Inevitável egoísmo da humanidade

Quando for mais velho, compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. É absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que sacrificariam eles os seus desejos aos nossos? Quando quiser compreender que cada um, no mundo, se preocupa apenas consigo próprio, exigirá menos dos seus semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer.

W. Somerset Maugham – Servidão Humana

As pessoas são fracas

As pessoas são fracas.
Ou amamos e perdoamos suas fraquezas, ou só as amaremos até o dia inevitável em que se revelarem fracas.
Então, fraquejando diante da fraqueza alheia e sem a força para perdoar, descartaremos quem cometeu a fraqueza de se revelar tão fraca quanto nós.
Quer fraqueza maior que essa?
Alex Castro

O velho cardigã azul do pai

Anne Carson

Agora está pendurado no espaldar da cadeira da cozinha
onde eu me sento sempre,
no espaldar da cadeira da cozinha, onde ele sempre se sentava.

Eu o visto toda vez que chego,
como ele fazia, batendo as botas
para tirar a neve.

Eu o visto e me sento no escuro.
Ele não teria feito isso.
E cortante o frio que desce do osso da lua no céu.

Suas leis eram um segredo.
Mas eu me lembro do momento em que eu soube
que ele estava enlouquecendo dentro de suas leis.

Ele estava parado na entrada da garagem quando cheguei.
Vestia o cardigã azul com os botões todos fechados até em cima.
Não só porque era uma tarde quente de julho

mas o olhar em seu rosto…
como uma criança pequena que alguma tia vestiu de manhã bem cedo
para uma longa viagem

em trens frios e plataformas ventosas
e vai se sentar muito ereto na borda do seu assento
enquanto as sombras como longos dedos

sobre os montes de feno que passam zunindo
continuam a impressioná-lo
porque ele está viajando de trás para a frente.

Do livro Arquivo das Crianças Perdidas – Valeria Luiselli – p. 278

Carta de Caio para Hilda, sobre Clarice

PA, 29.12.70.

Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite.

Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário.

Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando.

De repente fiquei supernervoso e saí para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — “Fica comigo”. Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos states) e você.

Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre o Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir.

Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor.

Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa.

Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde.

Um grande beijo do teu Caio.

Caio Fernando Abreu em carta para Hilda Hilst, 29 de dezembro de 1970 – no livro “Três vezes Hilda: biografia, correspondência e poesia”. Companhia das Letras, 2018.

Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno

Já logo na vitrine da livraria, [você] identificou a capa com o título que procurava. Seguindo essa pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois são distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo de Terem Sido Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas antes Deve Ler Outros, Dos Livros Demasiados Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço, dos Livros Idem Quando Forem Reeditados Em Coleções De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir Emprestado A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem

os Livros Que Há Tempo Você Pretende Ler,
os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,
os Livros Que deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,
os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,
os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.

Bom, foi enfim possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto certamente muito grande, conquanto calculado num número finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já seria Hora De Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.

Você se livra com rápidos ziguezagues e, de um salto, penetra na cidadela das Novidades Em Que O Autor Ou O Tema São Atraentes. Uma vez no interior dessa fortaleza, pode abrir brechas entre as fileiras de defensores e dividi-los em Novidades De Autores Ou Temas Já Conhecidos (por você ou por todos) e Novidades De Autores Completamente Desconhecidos (ao menos para você) e definir a atração que eles exercem sobre você segundo suas necessidades e desejos de novidade e não-novidade (da novidade que você busca no não-novo e do não-novo que você busca na novidade).

Tudo isso para dizer que, após ter percorrido rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos de Se um viajante numa noite de inverno, pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de possuí-lo.

Você ainda lançou sobre os livros em redor um olhar desgarrado (ou melhor, os livros é que o olharam com um olhar perdido como o dos cães nos cercados do canil municipal quando veem um ex-companheiro ser levado na coleira pelo dono que veio resgatá-lo) e, enfim, saiu.

Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. [tradução de Nilson Moulin]

O Amor

 Maiakovski
[…]

Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um barraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra

Mineirinho

Clarice Lispector

É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu.” Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.
Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila, e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo – uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.


Do livro: Para Não Esquecer
Editora Rocco

O QI médio da população mundial

que desde o pós-guerra até o final dos anos 90 sempre aumentou, nos últimos vinte anos está diminuindo …
É o retorno do efeito Flynn. Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos. Muitas podem ser as causas desse fenômeno. Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem. Com efeito, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não se trata apenas da redução do vocabulário utilizado, mas também das subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre para o presente, limitado no momento: incapaz de projeções no tempo. A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e a pontuação são exemplos de “golpes fatais” à precisão e variedade da expressão. Apenas um exemplo: apagar a palavra “miss” (já desueta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que não existem fases intermediárias entre uma menina e uma mulher. Menos palavras e menos verbos conjugados implicam em menos capacidade de expressar emoções e menos possibilidades de elaborar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada vem diretamente da incapacidade de descrever suas emoções por meio de palavras. Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais pensamento desaparece. A história é rica em exemplos e muitos livros (Georges Orwell-1984; Ray Bradbury – Fahrenheit 451) contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras. Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras. Como pode um pensamento hipotético-dedutivo ser construído sem uma condicional? Como pode o futuro ser pensado sem uma conjugação no futuro? Como captar uma tempestade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia? Seja, e o que será depois do que poderia ter acontecido, realmente aconteceu? Queridos pais e professores: vamos conversar, ler e escrever para nossos filhos, para nossos alunos. Ensine e pratique o idioma em suas mais diferentes formas. Embora pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço está a liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus ′ ′ defeitos “, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo o que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza. ”
Christophe Clavé

Desfado – Ana Moura

Desfado – Ana Moura

 

Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
Alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

Ai se eu pudesse não cantar ai se eu pudesse
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande certeza de não estar certa de nada

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
Alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

 

Composição: Pedro Da Silva Martins

Amor depois de amor

Love after love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other’s welcome,

and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.

WALCOTT, Derek. “Love after love”. In:_____. Collected poems. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1986.


Amor depois de amor

Vai vir o tempo
em que você, orgulhoso,
vai saudar a si mesmo chegando
à sua própria porta, em seu próprio espelho,
e vão trocar sorrisos de boas-vindas,

você vai dizer, sente-se. Coma.
Vai amar o estranho que um dia você foi.
Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
pra ele mesmo, o estranho que o amou

por toda a sua vida, e a quem você ignorou
por outro alguém, que o conhece de cor.
Pegue da estante as cartas de amor,

as fotografias, as anotações desesperadas,
descasque seu reflexo do espelho.
Sente-se. Sirva-se da vida.

WALCOTT, Derek. “Amor depois de amor”. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. In blog Estúdio Realidade. URL: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2011/12/amor-depois-de-amor-derek-walcott.html. Acessado em 1 de março de 2017.

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Nunca serei vencida

Nunca serei vencida.
Não o serei
senão à força de vencer.
Cada armadilha estendida
fechando-me cada vez mais
no amor
que acabará por ser o meu
túmulo,
acabarei a minha vida numa cela
de vitórias.
Sozinha,
a derrota encontra chaves,
abre portas.
A morte,
para atingir o fugitivo,
tem de se pôr em movimento,
perder essa fixidez
que nos faz reconhecer
que ela é o duro contrário
da vida.
Ela dá-nos o fim do cisne
atingido em pleno voo,
de Aquiles agarrado pelos cabelos
por não sabermos que sombria Razão.
Como a mulher asfixiada no vestíbulo
da sua casa de Pompeia,
a morte não faz mais do que prolongar
no outro mundo os corredores
da fuga.
A minha morte será
de pedra.
Conheço as passagens,
as curvas,
as armadilhas,
todas as minas da Fatalidade.
Não posso perder-me.
A morte,
para me matar,
terá necessidade da minha
cumplicidade.

MARGUERITE YOURCENAR,
in FOGOS (trad. de Maria da Graça Morais Sarmento, Difel, 1995)

A Vida da Bruxa

Tradução de Ana Santos

Quando eu era criança
havia uma velha em nosso bairro
a quem chamávamos A Bruxa.
O dia todo ela espiava da sua janela no segundo andar
por trás das cortinas enrugadas
e às vezes abria a janela
e gritava: Saiam da minha vida!
Seu cabelo era como alga
e sua voz como rocha.

Penso nela às vezes
e me pergunto se é nela que me transformo.
Meus sapatos apontam para cima como os de um bufão.
Montes do meu cabelo, enquanto escrevo isto,
enrolam-se sozinhos feito dedos.
Lanço as crianças para fora,
pá por pá.
Só meus livros me ungem,
e alguns amigos,
os que penetram minhas veias.
Talvez esteja virando eremita,
abrindo a porta apenas para
uns poucos animais especiais?
Talvez meu crânio esteja demasiado cheio
e não tenha uma brecha através da qual
possa tomar sopa?
Talvez eu tenha fechado as cavidades
para prender os deuses?
Talvez, embora meu coração
seja um gato de manteiga,
eu o esteja inflando como a um zepelim.
Sim. É a vida da bruxa,
escalar a primordial escalada,
um sonho dentro de um sonho,
e então sentar-me aqui,
um cesto de fogo nas mãos.

Anne Sexton

Carta de Anne Sexton para a Filha

Querida Linda,
Estou no meio de um voo para St Louis para fazer uma leitura. Eu estava lendo uma história na New Yorker que me fez pensar na minha mãe e completamente sozinha no assento eu sussurrei ‘Eu sei, Mãe, eu sei’. (Achei uma caneta!). E pensei em você – algum dia voando para algum lugar completamente sozinha e eu morta talvez e você querendo falar comigo.
E eu quero te responder (Linda, talvez não seja voando, talvez seja na sua própria mesa de cozinha bebendo chá durante alguma tarde quando você tiver 40 anos. A qualquer hora) – Quero te responder
1º Eu te amo
2º Você nunca me decepcionou
3º Eu sei. Já estive lá. Eu também já tive 40 anos e uma mãe morta, de quem eu ainda precisava.
Essa é a minha mensagem para a Linda-de-40 anos. Não importa o que aconteça, você sempre foi minha passarinha, minha excepcional Linda Gray. A vida não é fácil. É terrivelmente solitária. Eu sei disso. Agora você também sabe – esteja onde estiver, Linda, conversando comigo. Mas eu tive uma vida boa – eu escrevi e fui infeliz – mas eu vivi ao máximo. Você também, Linda – Viva ao MÁXIMO! Acima de tudo. Eu te amo, Linda-de-40-anos, e amo o que você faz, o que você descobre, o que você é! – Seja sua própria mulher. Seja daqueles que te amam. Fale com meus poemas, e fale com seu coração – eu estou em ambos: se precisar de mim. Eu menti, Linda. Eu amei sim minha mãe e ela me amou. Ela nunca me abraçava mas eu sinto saudades dela, por isso tenho que negar que a amava – ou que ela me amava! Boba da Anne! Isso mesmo!
Beijo beijo beijo
Mãe

Desta casta

Tenho saído por aí, bruxa maldita,
assombrado no escuro, na noite bravia;
tramando o mal, minha espécie milita
sobre casas comuns onde a lanterna luzia:
sozinha, doze dedos, de loucura vasta.
Mulheres assim não são mulheres, eu sabia.
Eu tenho sido desta casta.

Tenho achado grutas mornas sob o céu,
enchido-as de potes, entalhes, estantes,
móveis, panos, incontável cacaréu;
para vermes e duendes preparo lanches:
enfileirando-os, queixosa, exausta.
Mulheres assim ninguém entendeu.
Eu tenho sido desta casta.

Tenho andado na sua caleça, cocheiro,
acenado braços nus às vilas que passam,
aprendendo as rotas finais, no fogareiro
sobrevivo às chamas que pernas assam
e fendem ossos, onde a carroça se arrasta.
Mulheres assim de morrer não se vexam.
Eu tenho sido desta casta.

Anne Sexton

Mães

para J. B.

Oh mãe,
aqui no seu colo,
tão bom quanto uma cuia de nuvens,
eu, sua criança gananciosa,
recebo seu seio,
o mar embalado em pele,
e seus braços,
raízes cobertas de musgo
e com novos brotos surgindo
tirando-me risos com cócegas.
Sim, estou noiva de meu ursinho
mas ele tem o mesmo cheiro seu
assim como o cheiro meu.
Pego nos dedos seu colar
que é todo olhos de anjo.
Seus anéis que cintilam
são como a lua na lagoa.
Suas pernas me balançam pra cima e pra baixo,
suas queridas pernas cobertas de nylon,
são os cavalos em que montarei
à eternidade.

Oh mãe,
depois deste colo da infância
nunca mais poderei sair
ao mundo das pessoas grandes
como uma estranha,
algo inventado,
ou vacilação
quando outro alguém
está tão vazio como um sapato.

Anne Sexton

Menstruação aos quarenta

Anne Sexton

Pensava num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino que toca,
mas no décimo primeiro mês da sua vida
sinto o Novembro
do corpo assim como o do calendário.
Daqui a dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terá entregue a sua colheita.
Neste tempo procuro a morte,
a noite para a qual me inclino,
a noite que desejo.
Bem, pois então—
fala dele!
Durante todo este tempo esteve no ventre.

Pensava num filho…
Tu, o nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
tu, o dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do cachorro.
Dar-te-ei os meus olhos ou os dele?
Serás tu o David ou a Susana?
(Ouvi esses dois nomes e elegi-os.)
Podes ser igual aos homens da tua família,
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos originárias da Jugoslávia,
em qualquer parte o camponês, eslavo e determinado,
em qualquer parte o sobrevivente, pletórico de vida—
podia tudo isto ainda ser possível
com os olhos de Susana?

dois dias que se foram em sangue.
Morrerei sem ser baptizada,
a terceira filha que não azucrinaram.
A minha morte virá no dia do santo do meu nome,
O que há de errado com o dia do santo do meu nome?
É só um anjo do sol.
Mulher,
que teces uma teia de aranha sobre ti mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha—
morre.

A minha morte pelos pulsos,
duas etiquetas com o meu nome,
sangue usado como um corpete
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita:
é uma habitação quente,
o lugar do sangue.
Deixa a porta aberta sobre as dobradiças!

Dois dias para a tua morte
e dois dias até à minha.

Amor! Essa rubra doença –
Ano após ano, David, deixar-me-ias furiosa!
David, Susana, David, David!
roliço e desgrenhado, assobiando na noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por ti no alpendre…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
ter-te-ia possuído antes de todas as mulheres,
chamando pelo nome,
chamando-te minha.

Anne Sexton e a Poesia Confessional: antologia e tradução comentada”/Renato Marques de Oliveira

Palavras para o velho abacateiro

Antigamente as pessoas eram pessoas de chegar. Não sabíamos fazer despedidas.

palavras da avó Catarina

Quando chegamos da praia, o céu estava à espera que as pessoas todas se recolhessem para poder ordenar às nuvens que começassem a largar uma grande chuva molhada, era até raro em Luanda naquele tempo fazer uma ventania daquelas, os baldes no quintal começaram a voar à toa, os gatos nas chapas de zinco não sabiam bem onde era o buraco de se esconderem, os guardas da casa ao lado vieram a correr buscar as akás que estavam encostadas no muro e o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso perguntar aos galhos de um abacateiro velho, cumprimentei o guarda enquanto corria no quintal a segurar os baldes que queriam levantar voo, fui fechar a porta da casa de banho e da despensa, a bomba de água disparou e assustei-me, o vento estava a pôr-me nervoso, olhei a mangueira com mangas verdes, olhei os galhos secos do abacateiro, reparei no encarnado vivo das romãs bem madurinhas ali perto do mamoeiro, olhei as uvas na videira e, enquanto olhava o céu escuro, ainda pensei que era tão estranho aquelas uvas terem um sabor tão nítido a manga adocicada, fui fechar a portinhola da casota onde ficavam as botijas de gás e ainda recolhi duas toalhas que estavam na corda, voltei a entrar na cozinha, com o corpo a pingar de chuva e suor fresco, a t-shirt estava tão molhada que voltei lá fora para deixá-la já pendurada na corda, parei um pouco a deixar a chuva cair sobre a cabeça, fechando os olhos, escutando o ruído que ela fazia cá fora no mundo e dentro de mim também, queria ver quantos pensamentos eu podia inventar — e pensar — ao mesmo tempo que ouvia aquele ruído tipo música de uma orquestra bêbada, ri, ri sozinho quando abri os olhos e vi a cadeira verde onde às vezes, mas raramente, também o camarada António gostava de ensaiar um sono distraído, caiu a carga de água que o céu tinha prometido pela cor e pelo vento soprado, enquanto a ventania diminuía de repente, a chuva caía como um embrulho gigante de redes de pesca que tivesse escorregado do armário de um pescador que estava lá muito em cima, nas alturas, era tanta água que mesmo ver a casa do Jika estava difícil, o mundo parecia um deserto molhado naquela tarde, ainda conseguia ouvir, mas mal, os passos dos guardas a correr e, entre tantas cascatas de água com a poeira da videira, do outro lado, tipo filme de western, um gato vesgo ficou parado em cima do outro telheiro a olhar para mim — seria o gato vesgo que eu tinha acertado no olho com o chumbo da pressão de ar? —, tive um pouco de medo, lá de dentro, a qualquer momento, a voz da minha mãe podia vir me perguntar se eu era maluco de estar ali com aquela chuva toda a pedir mesmo para ter uma crise de asma complicada, ali fora o gato calmo tinha ficado parado a olhar para mim, olhava mais com o olho vesgo que com o olho que via bem, perto de mim estava um ferro abandonado das obras do vizinho, sempre desconfiei dos gatos calmos, não me mexi, ele sim, devagarinho, saltou até perto das raízes da mangueira, parou de novo, foi a andar muito devagar, parecia que para ele não chovia e fazia um sol que lhe causava preguiça de partir, não me mexi, as mãos estavam na corda, como se eu estivesse preso com as molas de estender a roupa, a água caiu mais forte e de tanto não ver nada tive medo que o gato voltasse às escondidas e me atacasse, decidi entrar em casa, assustei-me com a voz da minha mãe — “o pai e eu estivemos a falar sobre aquele assunto” —, o meu corpo todo molhado, pensei que a minha mãe ia me ralhar de eu estar a trazer a chuva para dentro de casa, espalhando as gotas do meu corpo pelo chão limpo da cozinha, a mesma cozinha antiga que todos nós dizíamos a rir que era do camarada António, a minha mãe tinha os olhos molhados também e um grande silêncio invadiu a casa escolhendo esse espaço entre nós para ficar, eu olhava o chão pingado como se ele fosse muito mais distante, ouvia cada gota cair no chão e ao mesmo tempo pensei que não devia prestar atenção àquilo, pois outra coisa mais importante estava prestes a acontecer — “tu há tanto tempo que falavas nisso, nós estivemos a falar” —, a minha cabeça viajava pelo corredor escuro porque fazia esse domingo cinzento de chuva e ninguém tinha ainda acendido as luzes, a minha cabeça deslocava-se devagarinho e subia as escadas espreitando primeiro a sala onde a minha irmã mais nova tinha acabado de adormecer com o corpo todo cansado da praia e a pele cheia do sal do mar, onde tínhamos passado quase todos os sábados e domingos da nossa infância, eu subia as escadas sem fazer barulho, o meu pai podia ter decidido dormir um pouco e só acordar mais tarde para começar com um café na cozinha e ir ver se na televisão as equipas nacionais estavam a jogar futebol, o corredor lá em cima era um mar pesado de silêncios e isto não é poesia falada, havia ali um silêncio que pesava se uma pessoa se mexesse em qualquer direção, parei, quieto, a escutar a tarde que chovia lá fora, os ecos do comportamento das trepadeiras e das árvores enormes dos vizinhos, podia quase desenhar essas árvores sem olhar para elas, a mais cambuta do lado esquerdo, na casa da tia Mambo, devia ser um abacateiro e era maior que o nosso, tinha folhas gordas e um cheiro sempre poeirento mesmo que chovesse, e do lado direito, na casa da tia Iracema, havia uma árvore que imitava ou era mesmo um pinheiro muito alto e ligeiramente torto onde os pássaros — não sei porquê — gostavam de fazer voo rasante quando traziam minhocas na boca para dar aos filhos que tinham acabado de nascer e ficavam no telhado da tia Iracema a fazer barulho, parei, quieto, a escutar as trepadeiras, as árvores, uma buzina, algumas vozes, o cão do Bruno a ladrar tão longe e o barulho da caneta da minha irmã mais velha a escrever os pensamentos dela de domingo à tarde quando chove em Luanda, o que não se ouvia era o gritinho dos filhos desses pássaros que eu não disse mas são andorinhas, eles deviam estar a tremer de frio e de medo, todo mundo sabe, as andorinhas são como os gatos, não gostam nada da chuva, se calhar é por causa do barulho dos trovões, não sei — “filho, assim a pingar ainda te constipas” —, a porta do meu quarto estava aberta e uma luz nenhuma saía dele entrando no corredor a chamar-me, o mundo cinzento espreitava pela minha janela, entendi que havia uma nesga aberta nos vidros e, por ali, todas as vozes da tarde, da chuva, da trepadeira, das árvores, entravam pelo meu quarto para me dar sinais estranhos que o meu corpo não sabia aceitar, nem a minha cabeça, uma vontade de lágrimas me visitou, cocei a pele da bochecha que era um gesto antigo para falar com as minhas vozes de dentro, pingava menos o meu corpo, o calção molhado deixei junto à porta, entrei no meu quarto de tão poucos anos, fazia-me confusão entender porquê que eu vivia aquele quarto como um espaço antigo, como se eu fosse uma pessoa também de antigamente, e não era — via-se no espelho o meu corpo magro e a pele toda esticadinha a contornar os dedos da mão, os lábios desenhados quando eu os olhava sem compreender as curvas deles, os olhos que eram mais difíceis de olhar porque me traziam aos olhos essa chuva de eles ficarem encarnados — “nós pensamos que, se é realmente o que tu queres, podes ir estudar para outro país” —, pensei que lá nesse país teria outro quarto, mas não este, o antigo, o dos cheiros e das roupas e das músicas e dos livros e das escritas tristes e secretas, da mala com os livros do Astérix, ou A náusea, ou o Cem anos de solidão, ou os “gracilianos” como eu lhes chamava, ou a camisa amarela-escura com manchas pretas e acastanhadas que o meu pai trouxe de Portugal e, desde que a vi, soube que amava esse tecido de acalmar os olhos que às vezes choravam em frente ao espelho da incompreensão, porque o corpo mudava, a voz mudava, as mãos no corpo mudavam, era visível que eu preferia acordar mais tarde que acordar mais cedo, era visível, para mim, que ouvia barulhos e sentia cheiros que não podia dividir com ninguém, e a avó Agnette continuava a partilhar as noites comigo, contando, inventando, alterando as estórias todas, as de antigamente, as do presente e as outras, como se o tempo fosse o saco de ar com bolinhas que ela gostava de rebentar, como se, às 2h da manhã — entre risos de cumplicidade, olhares de fascínio que acendiam a madrugada, ternuras faladas como se fossem verdades de ofertar — ela me dissesse, devagarinho, com a voz convicta e os factos arrumados caoticamente, que o futuro não era uma coisa invisível que gostava de ficar muito à frente de nós mas antes — ela dizia como frase de adormecimento mútuo —, antes um lugar aberto, uma varanda, talvez uma canoa onde é preciso enchermos cada pedaço de espaço com o riso do presente e todas, todas as aprendizagens do passado, que alguns também chamam de antigamente — “assim a pingar, ainda te constipas” —, a minha mãe disse com chuva nos olhos bem encarnados, o corpo dela encolhido a dar marcha atrás na cozinha, no trajeto que ela tinha feito para vir devagarinho falar comigo, sem me ralhar por eu estar a molhar a cozinha, sem me falar da asma e dos brônquios, sem quase olhar para mim, eu também sem quase saber como olhar para ela, como dizer — a ela e a mim — que essa viagem, essa partida de ir embora, de repente me chegava fora do tempo, num terreno que ia muito além da dor e das lágrimas, num lugar que nenhum escrito meu podia ter conseguido explicar nem nenhuma lágrima conseguiria apagar, a minha mãe retirava devagar o corpo da cozinha, fiquei com os olhos postos nas gotas tombadas no chão, sem poder saber, nunca mais, o que era gota o que era lágrima, como se eu fosse um cego e naquele momento todos os cheiros e todas as dores da infância me pesassem no corpo, e isso estava bem, era normal, mas um peso me fechou os lábios e eu não soube o que dizer à minha mãe, talvez as frases dela trouxessem pedido de resposta, talvez se eu tivesse falado nesse tempo fora do meu corpo ela me tivesse dito, ou mostrado com os olhos, que aquele era, de qualquer modo, o tempo deles, dos meus pais, aí talvez os meus lábios dissessem que esse tempo de sabermos o momento de partir tinha acontecido fora do meu próprio tempo, e que nos últimos anos eu havia estado perdido, triste e confuso, num espaço tão grande que afinal eram apenas duas cadeiras de tecido encarnado, uma secretária, o armário embutido, o sofá-cama encarnado que eu mesmo tinha escolhido e usado essa palavra, “encarnado”, e riram porque era uma palavra de antigamente na boca de uma criança, esse espaço, com esse sofá-cama, com esse colchão fininho, com essas molas fracas, onde eu dormi tanto tempo com a avó Agnette, onde ela me ensinou madrugadas e deu todas as estórias e o desdobrar de todos os tempos que quis dar, esse espaço enorme assim tão pequenino era apenas um quarto, com a enorme janela virada para a trepadeira, que estava perto da poeira dela, que estava perto das flores, que estava perto da botija de gás vazia, que estava perto do contador de água, que estava perto da relva, que estava perto do cacto, que estava perto dos caracóis, que estavam perto das lesmas, que estavam perto da baba, que estava perto do portão pequeno, que estava perto da caixa de correio branca sem cartas, que estava perto da rua, que estava perto de mim — “se tu queres ir para outro lugar, nós também achamos que é o melhor”.

Deixei os braços pousarem na madeira inchada e úmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá em baixo, na varanda, os passos da avó Agnette que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar fresco, senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância.

A chuva parou. O mais difícil era saber parar as lágrimas.

O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.

Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette.

Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.

— Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.

— Vão pra casa, filho.

— Tantas vezes de um lado para o outro?

— Uma casa está em muitos lugares — ela respirou devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.

Ondjaki. Os da Minha Rua.

Heidegger adorava os “Rios”, de Hölderlin, sobretudo quando o poeta dizia que o rio peregrina e funda a ideia de natalidade. Pertencimento, em suma. Desta sensação de que pertencemos ao rio e ao lugar por onde o rio passa, e sempre fica, vem a sacralidade dos cursos das águas. Para aquele que Heidegger chama de homem da técnica, todavia, o rio é o objeto presentificado. Serve apenas para ser manipulado objetivamente, em virtude dos interesses materiais concretos dos homens.

O outro rio, o que vela e desvela, o que peregrina e manifesta o sagrado (aquilo que Hölderlin chama de “festa” em que os deuses vêm como convidados) , é detestado pelo homem da técnica; um desencantador por excelência.

Pai Francelino de Shapanan, Abê Olokun, lembrava lindamente que para o povo do tambor-de-mina o encantado não é o espírito de um humano que morreu; perdeu seu corpo físico. O encantado é aquele que se transformou, tomou outra feição, nova maneira de ser. Encantou-se em uma nova forma de vida, numa planta, num peixe, num animal, no vento, na folha, num rio.

Nas praias do Itaqui, de Olho d´Água e da Ponta d´Areia moram a Princesa Ína, a Rã Preta, e a Menina da Ponta d´Areia. A pedra de Itacolomi é a morada de João da Mata, o Rei da Bandeira. A Praia dos Lençóis é do Rei Sebastião; a Mãe d´Água passeia nas pontas de Mangunça e de Caçacueira. Nas matas de Codó vivem Dom Pedro Angasso e a Rainha Rosa. É lá que Légua Boji Boa comanda as caboclas e os caboclos de sua guma.

Na encruzilhada em que escuto o tambor-de-mina e leio os alemães, assombrado pelo desencanto de Mariana e agora de Brumadinho, concluo que quem morre não é a natureza, mas nós todos, que perdemos a dimensão da única sacralidade possivel para as nossas vidas; aquela que percebe o rio a partir da terceira margem, como intuiu o canoeiro do conto seminal de Guimarães Rosa: não mais o Paraopeba procurando o São Francisco, não mais o humano, não mais o natural. Tudo é um rio só: feito de carne, osso, folha, pedra, peixe, jitirana e água.

(do instagram de)

Luiz Antonio Simas

O que esperamos na ágora reunidos

“O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquencias.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.”

 

Konstantinos Kaváfis (Alexandria, 29 de abril de 1863 – Alexandria, 29 de abril de 1933) – Considerado um dos maiores poetas gregos modernos. Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu. traduzido por José Paulo Paes.

trecho de regresso a tipasa

“(…) eu contemplava o mar que, nessa hora, se erguia imperceptivelmente num movimento cansado, e saciava as duas sedes que ninguém pode enganar por muito tempo sem murchar: a sede de amar e a de admirar. Porque não ser amado é apenas questão de pouca sorte, mas não ser capaz de amar é uma desgraça. Todos nós, atualmente, morremos dessa desgraça. Porque a violência e o ódio murcham o coração e a prolongada luta por justiça esgota o próprio amor que lhe deu origem. No clamor em que vivemos o amor é impossível e a justiça não basta. E é por isto que a Europa odeia a luz do dia e não sabe senão opor a injustiça a si própria. Contudo, a fim de impedir que a justiça se endureça como um belo fruto cor de laranja que possui uma polpa seca e amarga, eu descobri novamente em Tipasa que devemos manter intacto, dentro de nós, um frescor, uma fonte de alegria, saber amar o dia que escapa à injustiça e, uma vez conquistada essa luz, retornar ao combate. Aqui reencontrei a beleza antiga, um céu jovem, e avaliei minha sorte, compreendendo que nos piores anos de nossa loucura a lembrança desse céu jamais me abandonara. Foi ele que, no final das contas, me impediu de desesperar. Sempre soube que as ruínas de Tipasa eram mais jovens que nossos canteiros de obras ou nossos escombros. Ali, o mundo recomeçava todos os dias numa luz sempre nova. Oh luz! Este é o clamor de todos os personagens de dramas antigos quando colocados diante de seu destino. Este também era o nosso último recurso, e eu sabia disto agora. Nas profundezas do inverno finalmente descobri um verão invencível em mim.”

Camus, Regresso a Tipasa

Sempre fui metido a ser artista e, pra ser sincero, a maior parte da vida isso me constrangeu. Primeiro que não pegava bem, coisa de gente desajuizada, segundo, que direito eu tinha? É coisa de quem tá querendo ser – era o diagnóstico. Ah lá o menino, querendo ser. Dessas coisas de artista meu pai tinha um nome: brincadeira sem futuro. Ah lá o menino, cas brincadeira sem futuro.
Querendo ser de cantar, de imitar ator, de imitar os bicho, de desenhar cidade com bloco vermelho no chão do quintal e inventar uma história pra cada pessoa, que na verdade eram pedrinhas que eu riscava uns quadrados em volta e chamava de casas. Quer dizer, eu não só tinha o problema de querer ser, como ainda inventava de querer que as coisas sejam.
Isso de querer que as coisas sejam é donde vem as artes tudo. Nesse ponto todo mundo tem um lado metido a artista. Basta dizer que o amor é uma brincadeira sem futuro. Aliás, o futuro é um lugar pros economistas e pras baratas (não necessariamente nesta ordem). Se bem que pode não ser, porque como disse, tem gente, muita gente, ainda querendo que as coisas sejam. Vai saber.
Um dia eu descobri um novo chão de quintal, se chama livro. Ali dá pra botar toda sorte de brincadeira sem futuro e, por falar nisso, se chama “Os Dias Antes de Nenhum” o meu segundo que será lançado muito, muito, muito em breve.
Torço pra que vocês visitem o próprio quintal de vez em quando, torço pra que ainda queiram ser e torço pra que ainda queiram que as coisas sejam.
Ricardo Terto

Sobre labirintos e portas

 

O escritor Pedro Rodrigues Salgueiro me encaminhou trecho de uma carta de Rosa de Luxemburgo, escrita da prisão de Breslau, numa noite natalina de 1917. Ela diz: “No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida, sob os passos lentos e pesados da sentinela, canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir.” O texto me deixou inquieto porque veio sem qualquer apresentação ou justificativa, aparentemente por nenhum motivo, grifado com um pequeno título: noite.

É possível tatear no escuro à procura de uma saída, mesmo que as portas pareçam fechadas. Não é difícil reconhecer que o escuro existe, basta ligar a televisão ou o rádio, ler os jornais e ir ao cinema. Ou olhar pela janela do carro. Você nem precisa frequentar como paciente a emergência de um hospital público ou uma delegacia de polícia. Não vá tão longe.

As trevas sempre existiram e Plínio, O Velho, até escreveu que encarar a luz é para os mortais a coisa mais aprazível e o que está sob a terra é nada. O que jaz escondido pertence ao mundo da ignorância. Quando desejamos conhecer algo, trazemos para a luz. A luz da ciência, a luz do conhecimento, a luz da razão.

Mas, prefiro a luz do conhecimento, que não é necessariamente a luz da razão. O logos, este saber dos gregos que no ocidente chamou-se ciência, e que explica o que a mitologia deixou de explicar, não preenche todo o saber. Permanece o espaço da não razão, que não é necessariamente treva.

A ciência não nos colocou no lugar mais calmo e justo, isso já sabemos. O medo de que algo inevitável está para acontecer atormenta nosso sono. Do mesmo jeito que atormentava o dos povos antigos, ao pressentirem o exército inimigo sitiando suas muralhas. Qual a diferença entre as bolas de fogo arremessadas das máquinas de guerra medievais e o fogo de uma bomba atômica? A morte está no fim de tudo, não importa a intensidade da explosão.

No filme Sonhos, do japonês Akira Kurosawa, alguns soldados se perdem na tempestade de neve quando procuram um forte. Amarram-se uns aos outros para não se extraviarem. Cuidam em não dormir. Mas a fadiga e o sono são irresistíveis. O comandante deita e sonha com a morte. Ela vem buscá-lo, sedutora e bela. Ele acorda e grita por seus homens. Tateiam há dias, dão voltas sem nunca acharem o fortim que os acolherá e salvará suas vidas. Por fim, escutam um toque de corneta bem próximo. Sempre estiveram há alguns passos da salvação, mas, no escuro, não divisavam nada.

Nunca existirá uma porta, afirmou Jorge Luis Borges ao escrever sobre labirintos. Pior que afirmar não existirem portas é dizer que estamos sós, ligados numa rede de comunicação, que não nos coloca em contato verdadeiro com ninguém. Dura metáfora. Dura muralha de pedra.

Como responder à pergunta dos personagens de Tchekhov – o que fazer? – se a resposta é sempre: não sei. Ou que o mais importante é transformar a vida e que o resto é inútil. Transformar que vida?

Dos fios de uma Rosa de Luxemburgo prisioneira, me aparece a crença de que o segredo não é outro senão a própria vida; de que a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo. Basta saber olhar.
Ronaldo Correia de Brito

A jornada

Um dia você finalmente descobriu
o que tinha de fazer e então começou,
mesmo que as vozes que te rodeavam
continuassem vociferando
péssimos conselhos –
mesmo que a casa inteira
começasse a estremecer
e você sentisse a velha fisgada
em seus calcanhares.
“Redima minha existência!”
clamaram as vozes.
Mas você não se deteve.
Sabia o que tinha de fazer,
mesmo que o vento o perseguisse
com seus dedos enrijecidos
com todas as suas forças,
mesmo que a melancolia por eles possuída
se mostrasse aterradora.
Já era tarde o suficiente,
e a noite, tempestuosa
e a estrada, repleta de galhos caídos
e pedras pelo caminho.
Porém lentamente,
ao deixar aquelas vozes para trás
as estrelas começaram a brilhar
através dos lençóis de nuvens,
e lá estava ocultada nova voz
que lentamente reconheceste como sua,
que se manteve em sua companhia
enquanto adentrava a passos largos
no mundo,
determinado a fazer
a única coisa que poderia fazer –
determinado a salvar
a única vida que pôde salvar.

Mary Oliver

Na verdade, vivemos

com muitos mistérios maravilhosos
a serem entendidos.
Como pode a grama ser nutritiva
na boca dos cordeiros.
Como podem os rios e as pedras estarem em permanente
aliança com a gravidade
enquanto nós mesmos sonhamos flutuar.
Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
que nunca mais se quebram.
Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
das cicatrizes dos golpes,
chegam ao conforto de um poema.
Deixem-me manter sempre a distância
dos que pensam ter todas as respostas.

Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
Vejam! e riem de assombro
e inclinam reverentes a cabeça.

Mary Oliver, Evidence: Poems

Sonhando os seios

Mãe,
estranha face divina
sobre meu lar leitoso,
aquele delicado asilo,
te comi toda.
Toda minha falta te
engoliu como um prato.

O que você ofertou
eu lembro em um sonho:
os braços sardentos me enlaçando,
o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando meu sapato,
os seios pendurados como dois tacos
e então me atingindo assim,
me curvando.

Os seios que eu soube à meia-noite
soam como o mar em mim agora.
Mãe, ponho abelhas em minha boca
para me impedir a comida
mas isso de nada adiantou.
No fim cortaram fora seus seios
e o leite derramou deles
nas mãos do cirurgião
e ele os abraçou.
Eu os tomei dele
e plantei-os.

Coloquei um cadeado
em você, Mãe, querida humana morta,
para que seus grandes sinos,
aqueles queridos pôneis brancos,
sigam galopando, galopando,
onde quer que você esteja.

Anne Sexton

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Hilda Hilst


 

Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos. E o que você lembra da história comum familiar costuma ser completamente diferente daquilo que seus irmãos lembram. Às vezes troco algumas cenas do passado com a minha irmã Martina, como quem troca figurinhas: e o lar infantil desenhado por uma e pela outra quase não têm pontos em comum. Os pais dela se chamavam igualzinho aos meus e moravam numa rua com o mesmo nome, mas certamente eram outras pessoas. De maneira que nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.
Rosa Montero – A Louca da Casa

A pequena morte

A pequena morte“, de Eduardo Galeano
“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

(De Mulheres, tradução de Eric Nepomuceno, edição da L&PM.)

Contagem regressiva

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.

Ana Cristina César

Balada de Alzira

Balada de Alzira

As coisas não existem.
O que existe é a ideia
melancólica e suave

que fazemos das coisas.

A mesa de escrever é feita de amor
e de submissão.
No entanto
ninguém a vê
como eu vejo.
Para os homens
é feita de madeira
e coberta de tinta.
Para mim também
mas a madeira
somente lhe protege o interior
e o interior é humano.

Os livros são criaturas.
Cada página um ano de vida,
cada leitura um pouco de alegria
e esta alegria
é igual ao consolo dos homens
quando permanecemos inquietos
em resposta às suas inquietudes.
As coisas não existem.
A ideia, sim.

A ideia é infinita
igual ao sonho das crianças.

–– extraído de “Balada de Alzira”, segundo livro de Hilda Hilst, publicado em 1951 pela Edições Alarico.

A liberdade de ver os outros

DFWDavid Foster Wallace

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

– Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

– Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude, mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.


Este texto é a transcrição do discurso de que David Foster Wallace quando foi paraninfo de formatura, na Universidade Kenyon, em maio de 2005.

Como ‘Strange Fruit’ matou Billie Holiday

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Foto de William P. Gottlieb. Billie Holiday e Mister at Downbeat em Nova York, ca. Fevereiro de 1947. Biblioteca do Congresso dos EUA

por Brandon Weber em 20 de fevereiro de 2018 

“Strange Fruit” pode ter sido escrita pelo compositor e poeta americano Abel Meeropol (também conhecido como Lewis Allen), mas desde que Billie Holiday cantou as três breves estrofes da música em 1937, ela se tornou a encarnação desta poesia.

Holiday, nascida Eleanora Fagan, disse que sempre pensava em seu pai quando cantava “Strange Fruit”. Ele morreu aos 39 anos de idade depois que um “Hospital para Brancos” negou a ele tratamento médico. Por causa dessa memória, Holiday relutou em incorporar esta música ao seu repertório, mas acabou por fazê-lo como uma maneira de contar às pessoas sobre a realidade da vida sendo uma pessoa negra na América.

“Isso me lembra como Pop morreu”, escreveu ela em sua autobiografia . “Mas eu preciso continuar cantando, não apenas porque as pessoas pedem, mas porque vinte anos depois da morte de Pop, as coisas que o mataram ainda estão acontecendo no sul”.

A música era tão pungente para Holiday que ela estabeleceu algumas regras quando a cantava em seus shows: ela fechava o show com a música; os garçons parariam de servir quando ela começasse; e o recinto ficaria na escuridão total, exceto por um holofote em seu rosto. Não haveria bis.

“Lady Day”, como Holiday era chamada por muitos na época, começou a trabalhar a música em seu repertório dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu assento no ônibus em Montgomery, Alabama. O escritor de jazz Leonard Feather se referiu à música como “o primeiro protesto significativo em palavras e música, o primeiro grito significativo contra o racismo”.

As estrofes da música eram chocantes para alguns membros do público majoritariamente branco de Holiday:

Árvores do sul dão frutos estranhos

Sangue nas folhas e sangue na raiz

Corpos negros balançando na brisa do sul

Fruta estranha pendurada nas árvores.

Às vezes, sua apresentação da música era recebida com uma feroz rejeição. Embora muitas pessoas soubessem que linchamentos de afro-americanos no sul eram comuns, houve resistência ao fim da prática entre os brancos do sul. O racismo, combinado com o desejo popular de limitar o poder federal sobre as ações locais, impediu as pessoas do Norte de tomarem medidas bem-sucedidas para acabar com os linchamentos no sul.

No final, a insistência de Billie Holiday em executar “Strange Fruit” pode ter sido responsável por sua morte.

Uma das principais tentativas de silenciá-la veio de um homem chamado Harry Anslinger, o primeiro comissário do Bureau Federal de Narcóticos e que era um racista extremo, mesmo para os anos 30. Como detalha Johann Hari em Chasing the Scream: Os Primeiros e Últimos Dias da Guerra contra as Drogas, Anslinger afirmou que os narcóticos fizeram os negros esquecerem seu lugar na sociedade americana, e que os músicos de jazz eram particularmente perigosos, criando músicas “satânicas” sob a influência da maconha.

Holiday, que ao longo de sua carreira chamou a atenção do público para o impacto devastador da supremacia branca, também era usuária de drogas. Ela chamou a atenção de Anslinger, e ele  ordenou que Holiday parasse de tocar a música. Holiday se recusou e Anslinger aumentou seus esforços para silenciá-la.

Depois que um dos homens de Anslinger foi pago para rastrear Holiday e forçá-la a comprar e usar heroína, ela passou dezoito meses na prisão. Após a sua libertação em 1948, o governo federal recusouse a renovar a sua licença de artista, que era obrigatória para qualquer artista tocando ou cantando em qualquer clube ou bar que servisse álcool.

Isso minou totalmente sua carreira. Embora Holiday tenha conseguido realizar várias apresentações esgotadas no Carnegie Hall nos próximos anos, ela não podia mais viajar para tocar no circuito de clubes.

Incapaz de se apresentar regularmente nos locais que amava, e de parar de se lembrar de uma infância que incluía ter sido violentada aos dez anos de idade e trabalhar em um bordel com sua mãe, Holiday finalmente começou a usar heroína novamente. Quando ela se internou em um hospital de Nova York em 1959, seu fígado estava com problemas, tomado pelo câncer. Ela estava emaciada, e seu coração e pulmões estavam comprometidos. Apesar de sua condição, ela não queria ficar lá. “Eles vão me matar. Eles vão me matar lá. Não deixem isso acontecer – ela implorava a amigos e familiares.

De fato, os homens de Anslinger, pressentindo uma oportunidade macabra, apareceram ao lado da cama de seu hospital, algemaram-na, tiraram fotos, removeram presentes que as pessoas trouxeram para o quarto – flores, rádio, toca-discos, chocolates, revistas – e colocaram dois policiais na porta.

Mesmo assim, quando os médicos começaram o tratamento com metadona, Holiday começou a melhorar, ganhando peso e melhorando lentamente. Mas então os homens de Anslinger impediram a equipe do hospital de administrar mais metadona. Ela sucumbiu à morte em poucos dias.

A única versão filmada sobrevivente de Holiday tocando a música é do programa de televisão britânico de cabaré “Chelsea At Nine”, gravado em 25 de fevereiro de 1959 e lançado em março do mesmo ano, apenas alguns meses antes de sua morte. Sua voz é forte e impressionante; a emoção crua simplesmente devastadora.

 [youtube https://www.youtube.com/watch?v=dnlTHvJBeP0&w=560&h=315]

Minhas aventuras na psicodelia

Helen Joyce

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United Archives/Carl Simon/Bridgeman Images Carl Simon: Vivendo no mar , século XX

Tudo começou com uma resenha de livro. No ano passado, li um artigo de David Aaronovitch no Times de Londres sobre o livro Como mudar sua mente, de Michael Pollan. O livro trata de um ressurgimento do interesse em drogas psicodélicas, que foram amplamente banidas após as aventuras de Timothy Leary com LSD, a partir do final da década de 1960, em que ele incentivou a juventude americana a “ligar, sintonizar e abandonar”. Nos últimos anos, no entanto, os cientistas começaram a testar os usos terapêuticos dos psicodélicos em busca de efeitos em uma gama extraordinária de doenças, incluindo depressão, dependência e angústia do final da vida.

Aaronovitch mencionou de passagem que ele estava intrigado o suficiente para reservar um “retiro psicodélico” na Holanda, administrado pela Sociedade Psicodélica Britânica, embora, no seu caso, sua esposa tenha batido o pé e ele tenha cancelado o retiro. Experimentar psicodélicos era algo que eu secretamente ansiava por fazer desde que era adolescente, mas sempre fui muito cautelosa e avessa a riscos. Quando fiquei mais velha, o momento pareceu passar. Hoje sou uma jornalista de meia-idade trabalhando em Londres, editora financeira do The Economist, esposa, mãe e, ao que parece, uma pessoa totalmente desprovida de tendências contraculturais.

E ainda assim… por impulso, eu resolvi tentar. Só depois que reservei eu contei ao meu marido. Ele ficou confuso, mas disse que estava tudo bem por ele, desde que eu não decidisse sob a influência dos psicodélicos, que não o amava mais. Meu filho de dezoito anos achou a coisa toda muito engraçada (acontece que sua mãe “se ligar” é uma boa maneira de fazer com que as drogas pareçam menos legais).

*

Um dia, depois de fechar a seção de finanças e economia daquela semana do The Economist, subi no trem Eurostar para Amsterdã. No dia seguinte, conheci meus companheiros de viagem – dez no total, de várias partes da Europa e dos Estados Unidos – em um escritório de Amsterdã. De acordo com as instruções que recebemos, cada um de nós comprou duas porções de trufas “High Hawaiian” – fungos macios e marrons claros em uma embalagem a vácuo – a um preço com desconto de 40 euros, e paramos por quatro dias em um antigo celeiro reformado no campo.

Eu tinha o pressentimento de que, além de qualquer experiência psicodélica que eu pudesse ter, haveria também muitos cânticos e mãos dadas a estranhos. Sou ateia e cética convicta: não acredito em chi ou acupuntura e não tenho tempo para cristais e sinos. Mas, consciente de que é arrogante permanecer indiferente em tais circunstâncias, decidi que me jogaria no que me pedissem.

E assim, eu não apenas pratiquei ioga e meditação, mas também me envolvi em longos períodos de agitação em todo o corpo, com os olhos fechados e “tom vocal” – emitindo um som, qualquer som, a cada expiração. Olhei nos olhos de alguém que acabara de conhecer e perguntei repetidamente, conforme as instruções: “O que a liberdade significa para você?” Entrei para “círculos de compartilhamento”. Tudo isso pretendia nos preparar para a viagem. Os facilitadores falaram sobre a importância do seu “todo” (ou estado de espírito) e de se sentir seguro e confortável no seu “ambiente” (onde você está e com quem está).

Um dos meus companheiros de viagem havia participado de um teste de psilocibina no King’s College London. Ele e três outros receberam aleatoriamente um placebo ou uma dose baixa, normal ou alta do medicamento em forma de pílula. Era óbvio, ele disse, que ele era o único que recebeu o placebo. Para tornar as viagens ruins menos prováveis, os pesquisadores haviam aconselhado os participantes a não resistir a qualquer coisa que acontecesse: “Se você vir um dragão, vá em direção a ele”. E fascinante foi o motivo de ele ter participado desse retiro. “Todos eles tinham dragões”, ele me disse. “Eu também queria um dragão.”

As pessoas que tomaram psicodélicos geralmente classificam a experiência entre as mais profundas de suas vidas. Da minha parte, eu não estava procurando por mim mesma, por Deus, ou por transcendência; nem estava procurando alívio para depressão ou pesar, tenho uma vida feliz e gratificante. Mas fiquei impressionada com algo que Pollan discute em seu livro: estudos em que os terapeutas usavam viagens para tratar o vício.

Eu nunca fumei e não tenho vícios dramáticos, mas os hábitos de tomar café durante a manhã e um copo de vinho uma ou duas noites quase me dominaram nos últimos anos. Nenhum dos dois parecia sério, mas ambos passaram a parecer necessidades – parte de um padrão maior de uma vida apressada e sem liberdade, com muitas coisas feitas por compulsão, em vez de desejo ou prazer.

São os de meia-idade e não os jovens que mais poderiam se beneficiar de uma “experiência do numinoso”, disse Carl Jung, citado por Pollan.

*

No grande dia, nos reunimos na sala principal, cada um de nós com um colchão e uma máscara para os olhos, depois de uma benção ritual com sálvia ardente e muitos refrões de uma música chamada “Tall Trees”. Os facilitadores colocaram uma lista de de música criada para o uso terapêutico da psilocibina, envolvendo harpas, cachimbos e canto coral. Cada um de nós tinha nossas trufas trituradas em um copo, e os facilitadores serviram chá de gengibre, o que ajudaria com náuseas leves que podem ocorrer com a droga. Houve uma segunda infusão e, se quiséssemos, uma terceira. Pedi um terceiro copo, mas nunca bebi. Em alguns minutos, meu campo de visão estava cheio de fractais cintilantes. Deitei e fechei os olhos – e fui embora, para não voltar, por várias horas.

Depois de um tempo imensurável, a náusea desaparece, e a visão também. Agora tudo o que vejo são trechos desconexos – fósseis de cavalos-marinhos em azul, verde e areia; lascas de osso… e então experimento o que é chamado de “dissolução do ego”: perco todo o senso de um “eu”. O tempo para. As notas da música tocando deixam de se seguir em sequência: elas se tornam objetos sólidos, pilares e, quando se partem, eu desapareço em uma fenda entre duas notas. Tudo caminha para um escuro confuso e eu me dissolvo no nada.

Isso não chega nem perto de descrever a experiência. De fato, talvez seja tão cansativo ler como a maioria dos relatos de viagens, como ouvir sobre o sonho de outra pessoa. Mas essa experiência de deixar de ser ainda parece profunda – não porque eu realmente pense que, quando morrer, desaparecerei em uma fenda entre duas notas solidificadas (embora sim, por favor, se isso for uma opção), mas porque se concretizou algo que antes, havia sido apenas um experimento mental: a idéia de não-ser, da dissolução final da morte – algo sobre o qual, como mãe ateia, eu tive que conversar com meus filhos. Eu tinha experimentado um final. E o que eu disse era verdade: não havia eu em mente, então eu não me importei.

*

Após um período de tempo incomensurável, percebi novamente que eu existia. Finalmente, consegui me sentar e abrir os olhos. As duas facilitadoras – ambas muito amáveis ​​na realidade – foram transformadas em deusas: Atena e Afrodite, talvez. Eu me senti envergonhada até de olhar para elas. O agradável celeiro convertido se tornara Valhalla, com as vigas de madeira douradas, as velas esculpidas em porcelana iluminadas por dentro. Uma das deusas me ofereceu um copo de água e fiquei fascinada por sua substância, profundidade e clareza, maravilhada com o fato de que alguma coisa pudesse ser tão bonita.

Coloquei meus fones de ouvido e ouvi minha música favorita, Musique à Grande Vitesse , de Michael Nyman. Ouvi suas complexas linhas entrelaçadas como nunca as ouvira antes, de alguma forma estavam separadas e simultâneas. Finalmente, quando minha viagem chegou ao fim, algo me levou a fazer o tipo de dança performática tediosa que eu não suporto assistir. Pior, eu dancei esta obra-prima não de pé, mas deitada e me contorcendo no colchão.

Quando todos comparamos anotações no dia seguinte, descobri que minhas experiências haviam sido atípicas. Um homem havia se barbeado – o melhor barbear de todos os tempos, aparentemente, feito com um pequeno diamante; outro falou com árvores; outros se encontraram com Jesus, Maomé e Buda. Eu senti inveja da pessoa que havia saído e mergulhado no estame de uma flor, viajando primeiro para um nível celular e depois para um nível atômico, antes de voltar para uma vista panorâmica de todo o país, que ele via como jardim.

Alguns de meus companheiros de viagem falaram em sentir uma conexão intensa com todos os seres vivos, até mesmo um amor absoluto por todos os seres. Mas eu me encontrei sozinha no universo. Na noite anterior, surpreendi-me dizendo a outro participante que achava que meus dias, sempre cercada de muita gente, era desgastante. Qualquer um que me conhece me descreveria como sociável, mas agora eu vi, muito claramente, que precisava ser mais autônoma. Naquela noite, escrevi: “Hábitos. Você não precisa. Solidão.”

*

Mesmo depois de voltar para casa, eu ainda me sentia espaçada, feliz. Não vi Deus, mas durante meses depois me lembrei de uma sombra pálida da beleza que havia experimentado olhando o copo de água ou a vela acesa ou ouvindo a música de Nyman. Eu contei ao meu marido sobre isso – ele não sente vontade de experimentar (embora deseje estar lá para ver a dança performática). Fiz pequenas mudanças para melhorar a vida, como comprar fones de ouvido com cancelamento de ruído para poder ouvir música corretamente e me sentir sozinha no meu trajeto. Para minha alegria, minha consciência da música ainda está aumentada. Meses se passaram antes que eu bebesse café ou álcool novamente; e ainda bebo muito menos do que antes.

Acima de tudo, tenho uma agradável sensação de distância dos aborrecimentos do dia a dia. Eu me sinto menos permeável. Eu tive que me observar com o desapego de uma maneira que, de outra forma, poderia levar anos de psicoterapia para ser alcançada.

Pesquisadores que procuram usar psicodélicos para fins terapêuticos falam sobre a verossimilhança e a intensidade da experiência. Eles acham que o efeito é causado por um desligamento temporário da “rede de modo padrão” – as partes do cérebro que nos permitem refletir, lembrar o passado e imaginar o futuro. Ao mesmo tempo, novas conexões neurais são formadas, o que pode explicar o senso de maior consciência, os sentimentos de unidade e a sinestesia que algumas pessoas experimentam (a mistura de sentidos, na qual um som pode ser “visto” ou uma visão pode ser ouvida ou sentida ao toque). Isso pode explicar por que uma única viagem psicodélica às vezes pode aliviar até a depressão crônica mais grave. As pessoas deprimidas geralmente dizem que são incapazes de desviar sua atenção de pensamentos repetitivos e infelizes e que não sentem mais prazer.

Eu pretendo tomar psicodélicos novamente. Da próxima vez, eu gostaria de sentir as árvores crescendo ou transformar o mundo em um jardim. Gostaria de viajar durante o verão para que, ao invés de Valhalla, eu pudesse ver uma planta crescer em Yggdrasil, a poderosa árvore da mitologia nórdica. Eu gostaria de contemplar a beleza de uma íris ou uma flor de maracujá, em vez de um copo da Ikea. Talvez, em vez de realizar meus próprios giros absurdos em um colchão, eu possa assistir a um vídeo de uma grande bailarina dançando.

“É possível sentir-me diferente sobre as coisas”, escrevi para mim mesma no dia em que voltei da minha viagem. “Você não precisa ser quem sempre foi. Mais coisas são escolhas do que você imaginava. As coisas comuns são muito bonitas se você tem olhos para ver.

11 de outubro de 2019 às 07:00

Um guia para ter cultura

vidaeobrapaulofrancis
Quero muito ler este livro, deve ser uma delícia

Uma bibliografia básica para quem quer compreender a aventura da humanidade

Paulo Francis

OESP – 30/05/91

Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos… Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.

Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.

Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 80. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como reza o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.

Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.

Começando pelo Brasil, é indispensável a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia. Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e Paz, de Tolstoi.

Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o nosso drama irresolvido.

Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a língua O Memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.

Os gregos são um dos nossos berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold (também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia e do Novo Testamento, que predominaram no mundo ocidental desde o Século V da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no Século IXX, quando se tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.

Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia do seu gosto, se deve ler A Apologia, que é a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.

Na Apologia se discute o que é mais importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia. Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.

Depois, o delicioso Simpósio. É uma discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.

Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo, Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.

Imprescindível também ler As Vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranóico, a Júlio César, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no Século V antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cleon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebiades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.

Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.

Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas li, claro, a Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Principios da Matemática Também vale a pena ler a História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo Lógico que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.

É nas artes que está a sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.

Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.

Antígona é o que há de melhor na mulher. É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida. É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu a tragédia.

A melhor história de Roma é a de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que você precisa saber.

E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena História do Mundo, de H.G.Wells, superada em muitos sentidos, mas insuperável como literatura.

Passo tranqüilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As Confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.

Não é preciso ler A Origem das Espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um Naturalista ao redor do Mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)

Houve três grandes revoluções no mundo, a americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando escreveu, fazia fé, ainda na década de 30, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o seu imenso fracasso.

O melhor livro sobre a Revolução Francesa é História da Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa, leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov, que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais alto que o brilho literário de Trotski.

Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.

Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.

Dos romances do Século IXX, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoiewski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e Paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande família, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e Castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoiewski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.

Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A Montanha Mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr. Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.

Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo.(1) Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.


NOTA:

 

(1) Evidentemente, é a isso o que podemos chamar de “cultura utilitarista” da pequena burguesia, ou então, já agora e como previa Carpeaux, de “cultura de super-mercado“.

Trazendo uma filha de volta do abismo com poemas

Por Betsy MacWhinney 

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26 de fevereiro de 2015

Quando George W. Bush foi reeleito em 2004, minha filha de 13 anos, Marisa, ficou tão brava que parou de usar sapatos.

Ela escolheu a rebelião mais ineficaz que se possa imaginar: dois pezinhos descalços contra o mundo. Ela declarou que não voltaria a usar sapatos até termos um novo presidente.

Eu aprendi cedo na maternidade que não vale a pena brigar com seus filhos sobre roupas, então eu assisti silenciosamente enquanto ela andava descalça todas as manhãs, andando pela entrada de automóveis de cascalho na escuridão fria e chuvosa para esperar o ônibus.

A diretora me ligou algumas vezes, declarando que Marisa tinha que começar a usar sapatos ou seria suspensa. Passei as mensagens, mas minha filha continuou sua marcha descalça.

Após cerca de quatro meses, ela vestiu sapatos sem comentar. Eu não perguntei o porquê. Eu não tinha certeza se o uso de sapatos era um sinal de falha ou maturidade; Perguntar a ela parecia que poderia adicionar insultos desnecessários a lesões.

Mas toda a sua rebelião naquele ano não foi tão inofensiva. Eu temia que ela estivesse agindo de maneira perigosa.

Enquanto caminhávamos pela mercearia um dia, ela pegou um abacate, fazendo com que a manga da blusa recuasse, revelando uma cicatriz assustadora no pulso ao longo do lugar onde estaria uma pulseira.

Peguei a mão dela. “Oh, Marisa. Você deve estar sofrendo tanto!

Ela desviou o olhar, sem dizer nada.

Tentei reprimir uma onda de náusea gelada pelo conhecimento de que minha filha estava se machucando.

Fiz o que os pais fazem: procurei profissionais e segui seus conselhos. Marisa foi a um terapeuta sozinha, e nós fomos juntas a outro diferente.

Senti uma pontada de horror no estômago, quando um psiquiatra me disse, na frente de Marisa: “Ela não deve ser deixada sozinha e não pode lidar com nada perigoso. Nada de facas. Se você tiver algum medicamento em casa, mantenha-o trancado e longe dela.

Mais tarde, naquela noite, descarregamos a máquina de lavar louça juntos, ela de um lado, eu do outro. Inconscientemente, passei para ela uma faca afiada para guardar.

“Mãe, você tem certeza de que pode confiar em mim com isso?” Ela disse brincando.

Eu me mantive muito bem até esse ponto, pelo menos na frente dela, mas comecei a soluçar incontrolavelmente quando ela disse isso.

Ela pareceu surpresa e me deu um abraço. “Eu vou ficar bem”, ela prometeu.

Comecei o Tuesday Night Dinners, para o qual convidaria todos que sabíamos que ficariam bem com a cena caótica de um jantar em família durante a semana.

Às vezes, três pessoas apareciam, às vezes 20, e comíamos o tipo de comida simples que uma mãe que trabalha pode juntar entre chegar em casa às 17h e ter pessoas chegando às 17h30.

Os pais de suas amigas vinham com os adolescentes e, pelo menos naquela noite, a casa estava animada com as pessoas. Eu queria que a vida chegasse até ela. Eu queria que ela flutuasse na corrente de conexões ricas.

Outras noites foram preenchidas com silêncios sombrios e delicados, pontuados por pequenos conflitos: eu resistindo à vontade de perguntar como ela estava, porque eu tinha medo do que poderia aprender e ela lutando bravamente  para entender a adolescência.

Enquanto ela tocava violão no quarto, tentei não espionar do lado de fora da porta fechada, mas quando a música parou, tive que respirar através do pânico, me perguntando se ela ainda estava a salvo.

Não estava claro para ela se deveria se preocupar em crescer. Ela me perguntava: “Você gosta da sua vida?” O tom dela implicava o julgamento da minha vida sem que ela precisasse explicá-la: você dirige, trabalha em um cubículo, faz um monte de tarefas e ainda está sozinha. Qual é o objetivo?

Um dia, meu filho chegou da escola falando sobre um vandalismo ocorrido na escola primária. “Alguém pintou com spray em todo o pátio da escola”, disse ele. “Coisas como ‘Muitos arbustos, (bushes) para poucas árvores’. “

Olhei de lado para Marisa. Ela encontrou meus olhos e olhou para baixo, confirmando minhas suspeitas. Não sou fã de vandalismo, mas fiquei feliz em saber que ela se importava tanto com alguma coisa.

Acontece que ela fez a pichação com um garoto, que foi pego e obrigado a pagar uma multa. Pedi à minha filha que ligasse para a família do menino e confessasse o que ela fez e me ofereci para pagar metade da multa, o que eles aceitaram.

Então eu comecei a deixar poemas nos sapatos dela pela manhã. Ela usara os sapatos como uma forma de protesto silencioso, então decidi que os usaria para manter uma posição tranquila de esperança. Quando uma de suas principais estratégias como mãe envolve deixar a “Frente de libertação do agricultor louco” de Wendell Berry no lugar do seu filho, fica claro que as coisas não estão indo muito bem.

O que eu queria que ela soubesse é: as pessoas já sofreram antes, lutaram para encontrar a esperança e olhem tudo o que fizeram com ela. Eles fizeram poesia que caiu bem no seu sapato, o mesmo sapato que você não usava há quatro meses por causa do seu desespero.

Antes de ela ir para a escola de manhã, eu queria que ela lesse o poema “Wild Geese” de Mary Oliver que fala sobre não ter que ser bom e não ter que andar de joelhos por quilômetros, se arrependendo. Como Oliver escreve: “Você só precisa deixar o animal macio do seu corpo amar o que ele ama”.

Ou isso, do Sr. Berry: “Seja alegre, apesar de ter considerado todos os fatos.”

Isso importaria para ela? Ela receberia minha mensagem de que o mundo a amava e realmente deveria tentar começar a amá-lo de volta?

Será que eu a convenceria de que, ainda que as coisas estejam terríveis no mundo, ela poderia, mesmo assim, encontrar motivos para calçar sapatos todos os dias? Criar um filho que não tinha esperança para o futuro parecia o meu maior fracasso de todos os tempos.

Normalmente não convido poesia para minha vida cotidiana. Como ecologista, abraço a ciência. Mas tudo o que eu tinha para oferecer a ela naquele momento eram os pensamentos de outras pessoas que lutavam para ter uma vida significativa e colocaram esses pensamentos nas melhores e mais piores palavras que puderam.

De repente, fiquei impressionado – eu, aquela que ama ciência, dados, fatos e razão – que, quando se trata de motivar, era com a poesia que eu podia contar. A poesia sabia onde a esperança vivia e poderia provocar aquele nó na garganta que me lembra que tudo vale a pena. A ciência não poderia fazer isso.

Eu acreditava, inexplicavelmente, que era urgente entregar as palavras perfeitas no sapato dela todos os dias. Parecia que a vida dela dependia disso.

Um dia, liguei atrasado para o trabalho para comprar uma tesoura e um bastão de cola em um minimercado de posto de gasolina. Levei os suprimentos e uma pilha de revistas descartadas para um restaurante mexicano barato para tomar café ruim e montar poemas em forma de bilhetes de resgate, como se minha filha tivesse sido seqüestrada e eu tivesse que disfarçar a escrita para recuperá-la.

Procurei freneticamente a palavra “ossos” para que eu pudesse acenar para a sexualidade dela com Roethke, “eu conhecia uma mulher, adorável em seus ossos”, mas supersticiosamente não queria cortar a palavra “ossos” de uma manchete sinistra. Eu esperava que ninguém perguntasse por que eu estava atrasada, pois eu não tinha ideia de por onde começar, de como explicar.

Por algumas semanas, ela não comentou os poemas. Ela sabia que eu estava fazendo isso porque tinha que remover os poemas do sapato antes de colocá-los de manhã. Senti-me mais animada, no entanto, ao encontrar um poema bem gasto e muitas vezes dobrado em um bolso enquanto lavava a roupa.

Com o passar dos dias, ela se envolveu mais com a vida. Ela fez planos, começou a correr, plantou sementes, decorou o quarto. Pude ver que para ela calçar os sapatos não era derrota, mas maturidade.

Em algum momento, eu sabia que ela havia saído de um longo túnel escuro. Eu também sabia que não seria o último túnel dela.

As pessoas mais otimistas costumam se esforçar mais. Eles não conseguem entender o que está acontecendo no mundo com suas crenças, e a disparidade é alarmante.

Ela ficou temporariamente presa na encruzilhada da tristeza causada por um cenário político sombrio, na transição para uma escola medíocre e nas vastas questões existenciais de uma adolescente curiosa.

Em retrospecto, meu projeto de poesia foi uma coisa  inofensiva que me manteve benevolentemente fora do caminho, enquanto ela lutava não apenas para ver o horizonte, mas para marchar bravamente em direção a ele.

Alguns anos atrás, ela foi entrevistada para se juntar a um grupo de estudantes em uma longa viagem à Serra Leoa. O professor explicou que provavelmente seria um período muito difícil, longe de casa, com dificuldades físicas e mentais.

“O que você faria”, ele perguntou a Marisa, “se você chegasse ao abismo, e ele começasse a falar?”

“Bem”, respondeu ela, “eu realmente teria muitas perguntas para o abismo.”


Betsy MacWhinney, é ecologista em Duvall, Washington, e está trabalhando em um livro de memórias sobre pais solteiros.

O Manifesto Hosltee

Esta é sua vida.
Faça o que você ama e o faça com frequência.
Se você não gosta de algo, mude-o.
Se não gosta do seu trabalho, saia dele.
Se você não tem tempo suficiente, pare de assistir TV.
Se você está procurando pelo amor da sua vida, pare; ele vai estar te esperando quando você começar a fazer as coisas que você ama.
Pare de analisar demais, a vida é simples.
Todas as emoções são bonitas.
Quando você comer, aprecie cada último pedaço.
Abra sua mente, braços e coração para novas coisas e pessoas, nós somos unidos nas nossas diferenças.
Pergunte à próxima pessoa que você vir qual é a paixão dela e compartilhe seu sonho inspirador com ela.
Viaje frequentemente; se perder vai te ajudar a se encontrar.
A vida é sobre as pessoas que você encontra, e o que você cria com elas, então saia e comece a criar.
A vida é curta.
Viva seu sonho e compartilhe a sua paixão.

(Vamos esquecer que isso foi feito por uma empresa)

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holstee.com/manifesto
[vimeo 34414313 w=640 h=360]

The Holstee Manifesto Lifecycle Video from Holstee on Vimeo.

A Viagem crepuscular de Walter Benjamin

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Fotografia panorâmica de Paris em 1845 feita por Friedrich von Martens (1809-1875)

George Steiner

O crítico analisa “O Trabalho das Passagens”, obra fundamental de um dos principais pensadores alemães do século 20

Inconclusão é a palavra-chave do modernismo. As elaborações sistemáticas da epistemologia e do historicismo do século 19, o “omnium gatherum” projetado com humor por Coleridge e que ganhou forma de leviatã para Hegel e Auguste Comte, desapareceram. Adorno afirma que “a totalidade é a mentira”. Uma poética do fragmentário, dos “fragmentos que apóiam nossa ruína”, habita a literatura moderna. Isso não exclui gradação. Pelo contrário. O inacabado, de final aberto, em Proust ou nos “Cantos”, de Pound, em “Moses und Aron”, de Schoenberg, a “forma aperta” de Musil, gera seus próprios modelos de imensidão incompleta.

No modernismo a forma não é um ato concluído, mas processo e constante revisão. O tema preponderante é, depois de Mallarmé, o da natureza problemática, da ilegitimidade, de passar a ser, simplesmente. A inconclusão, o excesso de esboços, de rascunhos, anotações e emendas circundam, ironizam e subvertem o texto por meio da constante sugestão e implicação de decisões alternativas, do que “poderia ter sido” -outra vez uma categoria que faz de Coleridge o pré-modernista.

Muito antes de Valéry, a intuição dizia que qualquer texto, música ou obra de arte acabada, ainda mais publicada, significava a morte de sua intenção, da visão conceitual que a originara. Surpreendentemente, essa convenção da inconclusão encerra os dois atos representativos da filosofia do século 20: “Ser e Tempo”, de Heidegger, não teve sua prometida terceira parte; e onde estão as totalidades formais de Wittgenstein?

As circunstâncias externas influíram. No barbarismo do século 20, os artistas, escritores e intelectuais foram frequentemente caçados, transformando-se em exilados e refugiados, expulsos de sua língua, das comunidades de reconhecimento em que suas criações poderiam se ter desdobrado. Foram forçados a produzir textos curtos e esópicos sob a pressão da necessidade material e da censura. Manuscritos foram confiscados, e maquetes, destruídas. Telas e partituras foram literalmente esmigalhadas. Mas existe na condição moderna uma pressão mais profunda contra a perfeição, quando essa palavra significa “realização concluída”.

A aceleração e a violência da história recente, o desaparecimento em grande escala dos privilégios da privacidade, do silêncio e do lazer, que permitiam o exercício clássico da leitura e da resposta estética, a economia do efêmero, do descartável e reciclável que alimenta o mercado de consumo em massa, seja na mídia, seja na fábrica, militam contra as representações de completude e totalidade. Como poderíamos reunir a confiança quase megalômana que comanda a ordenação do mundo na “Comédia Humana”, de Balzac (1799-1850), ou na tetralogia de Wagner (1813-83)? A colagem feita de detritos, de coisas efêmeras, de utensílios banais com as bordas gastas é um espelho para os tempos.

Cada um desses componentes se aplica a Walter Benjamin. Muito antes da catástrofe, a sua autoconsciência e o cenário de sua sensibilidade foram os do migrante e do desabrigado. O ritmo de sua existência era peregrino. Qualquer espécie de domesticidade era intermitente. Benjamin (1892-1940) foi, como diz o anti-semitismo com desprezo, um “Luftmensch” (homem de vento), que só se sentia em casa em hotéis baratos, pensões, locações temporárias ou no quarto de hóspedes de amigos compreensivos.

O efêmero foi recuperado e reforçado com as vigas de uma erudição muitas vezes monumental, mas o gênio da inconclusão, a sensação de que, à exceção de alguns, todos os seus textos são uma série de rascunhos, que temem o desfecho, desconfiam da finalização, é inconfundível

Suas companhias eróticas eram agitadas e invadiam a solidão natural de um errante. O credo do provisório, do incompleto, dominou qualquer noção de espírito e de desejo em sua não-carreira. Por outro lado, ou simultaneamente, o envolvimento de Benjamin com o marxismo, seu “pas-de-deux” com o sionismo e a idéia reiterada de emigrar para a Palestina, seus flertes com o haxixe, suas alusões ao mesmo tempo ardentes e irônicas de que poderia haver um lugar para ele na instituição acadêmica possuíam um caráter difuso e inevitavelmente fragmentado. Tinham a instabilidade passageira e a intermitência articulada dos cafés em que eram sonhados e discutidos interminavelmente. Talvez a sala de leitura da Biblioteca Nacional em Paris tenha sido o que mais se aproximou da terra natal de Benjamin. Seu suicídio num hotel decrépito de fronteira (entre a França e a Espanha, em 1940) foi emblemático -sendo o emblema e sua clarividência alegórica um dos temas fulcrais de Benjamin- de sua crepuscular viagem .

Vida precária

Seus textos refletem imediatamente esse desabrigo. A primeira dissertação, rejeitada, sobre o barroco alemão, “A Origem do Drama Barroco Alemão”, é a única monografia completa. A obra de Benjamin existe em forma de ensaios, prefácios, palestras, roteiros para rádio e um corpo considerável de jornalismo. Resenhas de livros, relatos de viagens, folhetins sobre uma ampla variedade de temas culturais e sociais -de cinema a casas de bonecas, de excursões bibliográficas à arquitetura- expressam ao mesmo tempo a vida precária de Benjamin e as colagens contingentes tão típicas de suas inclinações. A inspirada tradução de Proust permaneceu um torso. O extenso artigo de enciclopédia sobre Goethe foi recusado pelos editores soviéticos. Uma quantidade razoável se perdeu por inteiro. Os imponentes volumes de “Escritos Completos” representam um milagre enganoso. O efêmero foi recuperado e reforçado com as vigas de uma erudição muitas vezes monumental (existe em Benjamin um empenho de detalhismo talmúdico e “odium philologicum”). Mas o gênio da inconclusão, a sensação de que, à exceção de alguns, todos os seus textos são uma série de rascunhos, que temem o desfecho, desconfiam da finalização, é inconfundível. Portanto é absolutamente apropriado que a realização máxima de Benjamin consista em 18 anotações aforísticas: as famosas e enormemente importantes “teses” sobre o conceito de história, com sua evocação do “vendaval que veio do Paraíso” e tudo dispersou.

Gênese labiríntica

A gênese de “O Trabalho das Passagens” é labiríntica, assim como Benjamin. Foi em 1927, sob o impacto de “O Camponês de Paris”, de Aragon, que Benjamin começou a planejar um ensaio tendo Paris como tema. Há evidências de que mesmo nessa fase prematura estavam em jogo certos temas cardinais: a Paris do século 19 como “o abrigo da coletividade”; as mudanças provocadas pelo consumo urbano de produtos mercantis; as fantasias surrealistas que poderiam se relacionar à demolição da velha “Passage de l’Opéra”. Inicialmente Benjamin via seu projeto como uma “féerie” dialética, uma rubrica talvez mais precisa e sugestiva do que todas as posteriores. Quando terminou de trabalhar com o material, no exílio parisiense em 1934, Benjamin tinha em mente vários títulos possíveis: “Passagenarbeit” (O Trabalho das Passagens/Galerias), sem dúvida, estaria muito mais no espírito da empreitada. Denota uma “obra em progresso”, um canteiro de construção. A alternativa frequente era “Paris -Capital do Século 19”, versão conhecida pelos que acompanharam e apoiaram a pesquisa.

A labuta de Benjamin se estenderia, com constantes interrupções, por mais de 13 anos. Sua “misère” cada vez mais profunda, que ele via claramente como o fracasso do Front Populaire, a vã esperança de moldar as “Passagens” aos desejos de Horkheimer e Adorno -mestres-de-obras recalcitrantes, mas indispensáveis- e a eclosão de uma guerra mundial tornaram a tarefa um pesadelo e ao mesmo tempo algo essencial. Ela forneceu a Walter Benjamin um eixo em torno do qual organizaria seu trabalho e sua vida. Além disso, os sucessivos projetos de Benjamin nas cartas a Gershom Scholem, em esboços enviados ao Instituto de Pesquisas Sociais, no plano geral de 1939 eram tão espaçosos, tão fluidos que poderiam incluir projetos paralelos como a antiga idéia da monografia sobre Baudelaire ou a continuação de uma pesquisa sobre literatura francesa moderna, com ênfase especialmente no surrealismo e em Proust. O trabalho passou por diversas fases. O esboço de 1935 prevê seis partes principais. O de 1939 é um pentagrama, moldado no edifício em cinco partes de “Flores do Mal”. A descoberta de Benjamin, por meio de “L’Enfermé”, de Gustave Geffroy, do líder revolucionário utópico Louis-Auguste Blanqui, em 1936-37, modifica profundamente as “Passagens”. A cosmologia mística de Blanqui, em seu “L’Eternité par les Astres”, de 1872, torna-se vital. Benjamin relacionará a terrível visão de Blanqui do universo “como catástrofe permanente” à doutrina de Nietzsche do “eterno retorno” e ao sentimento de vitimização social e política de Baudelaire como o verdadeiro inferno na terra em “As Litanias de Satã”.

Espirais sarcásticas

O sombrio rufo de tambor nas “Passagens” é o das sucessivas derrotas do proletariado em 1830, 1839, 1848 e 1871, às quais Benjamin acrescenta as de 1930 nas democracias ocidentais, assim como no fascismo, no nazismo e no stalinismo (essa é, na verdade, uma leitura bastante parcial do radicalismo utópico de Blanqui). Mas agora, em sua incessante luta para encontrar gêneros narrativos e analíticos adequados, o leviatã muitas vezes encalhado de Benjamin alcançará o “ciclo infernal de repetição”, o terror hipnótico do déjà vu. Como numa prisão de Piranesi, as “arcadas” se transformam em espirais sarcásticas. No entanto, há “Leitmotifs” interessantes nesse labirinto. Benjamin pretende abrir “arcadas” entre a psicologia de massa, tingida de elementos freudianos, uma sociologia materialista, a estética e uma escatologia altamente pessoal, às vezes esotérica. As “Passagens” serão uma análise onírica do grande sono em que o capitalismo mergulhou a consciência coletiva. O mundo de sonhos assim engendrado é cheio de objetos e de promessas libidinosos fetichizados (consumo excessivo e publicidade). Enquanto Aragon e o surrealismo permanecem no “reino de sonhos”, Benjamin busca a “constelação do despertar”. O espaço histórico real, a cartografia do urbanismo, deve substituir a mitologia impressionista de Aragon e Breton. Assim, para Aragon, a “passagem” parisiense, ou galeria, é uma experiência a ser metaforizada; para Benjamin é uma realidade socioeconômica cuja utilização de vidro e metal é ao mesmo tempo decisiva e ambígua. Os objetos devem ser lidos como Freud lê os sonhos. No capitalismo, os próprios objetos são sonhos coletivos que extraem seu poder alucinatório da produção em massa e do merchandising. “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” de Freud foi antecipada pelas sagas visionárias do mercantilismo e da expansão urbana em Balzac e Zola. Essas percepções clarividentes devem ser validadas pelo diagnóstico clássico da reificação e alienação em “História e Consciência de Classe” de Lukács (de maneiras que Scholem considerou simplesmente inadmissíveis, o marxismo de Benjamin era um híbrido inquietante de Lukács e Trótski). Sem dúvida, o mapeamento dos esgotos de Paris feito por Benjamin, dos vastos porões sob a metrópole burguesa, das moradias e sótãos cheios de memórias e brinquedos, tem sua contrapartida na anatomia tríplice da psique definida por Freud. Mas esse mapeamento, vivamente influenciado pelo “flashback” e pelo close-up, pelas técnicas de montagem da fotografia e do cinema, pretende dar uma visão da destruição dos valores pelo capitalismo e pelo mercado de massa. Escrevendo para Scholem, Benjamin descobre uma taquigrafia incisiva: o Hamlet do surrealismo será sucedido por seu Fortinbrás. Os adormecidos devem ser despertados. Essas linhas complexas são tramadas por certos personagens. O catador de trapos -aqui Benjamin recorre a Baudelaire e ao “trapeiro de Paris” de Félix Pyat- é um dos protagonistas. Em suas rondas na madrugada, o trapeiro recolhe os fragmentos descartados, perdidos ou desprezados das esperanças e decepções humanas. “Dire que j’ai tout Paris, là dans cet osier.” (E dizer que tenho Paris inteira aqui neste cesto). Essa recuperação dos detritos da história, como sabemos, é o cerne do programa de Walter Benjamin.

 Figuração do messiânico

Na montagem aparentemente caótica do “chiffonnier” estão os verdadeiros “Denkmaler eines Nicht-mehr-Seins” (“monumentos ao que não é mais”). A ressurreição do efêmero, do desconsiderado, do rejeitado transforma o trapeiro em uma figuração do messiânico. Importância comparável tem o “flâneur”, mais um tema crucial em Baudelaire (Benjamin traduz “A Une Passante”, de Baudelaire). Todos esses temas se reúnem nas frívolas perambulações do “flâneur”, cuja atitude e cujo voyeurismo despreocupado combinam perfeitamente com a geografia das “passagens”. De maneiras relacionadas tanto à coleta do trapeiro quanto à do bibliófilo, Benjamin foi um compilador apaixonado -o “flâneur” subverte o programa utilitário e determinista da cidade. Ele encontra tesouros ou vestígios de ruínas por acaso. As gírias hoje erodidas de “mooning” (divagar) e de “swanning about” (vagar) codificam precisamente os símbolos do peregrino apreciados por Baudelaire e por Benjamin. Eternamente, o “chiffonnier” e o “flâneur” cruzarão em seus caminhos com a prostituta. Ela também é essencial ao elenco. As calçadas são sua nave mercante. Se a prostituta encarna fantasias arquetípicas de eros, de intimidades a serem “colhidas”, é também o agente emblemático na polêmica marxista sobre a escravidão do capitalismo em seu aspecto mais indecente, assim como na narrativa freudiana da angústia e do desejo libidinoso da classe média. A fenomenologia da prostituição no Segundo Império e na belle époque permite que Benjamin entrelace economia, sociologia e psicanálise com um repertório inesgotável de precedentes literários. Especificamente, ela esclarece as compulsões obsessivas, as coleções repetidas: a prostituta coleciona clientes e é colecionada por eles. Nessa encruzilhada, Benjamin se inteira do “erotismo da aquisição e coleção” de Georges Bataille, da paradoxal libertação dos “objetos” (o corpo feminino) da servidão da utilidade. “Escrever história é citá-la”, declara Benjamin, sabendo que em espanhol “citar” significa se “encontrar com”, “marcar um encontro”. Ninguém refletiu de maneira mais aguda sobre a natureza da citação do que Walter Benjamin. Somente Coleridge alcança as arriscadas profundezas da poética do empréstimo de Benjamin (os “Cadernos” de Coleridge são o que temos de mais próximo, em espírito e letra, ao “Trabalho das Passagens”). Anteriormente Benjamin havia sugerido a composição de um livro feito inteiramente de citações. Não no sentido banal, de um dicionário de citações, mas como um mosaico coeso, como uma hélice “recombinadora”, situando cada frase sob uma nova luz.

Documentação e citação

No apreciado modelo de Lichtenberg, Benjamin brincava com a idéia de um livro de aforismos constituído de citações que poderiam ser truncadas, fundidas e até alteradas (tática conhecida por Montaigne). Que demonstração mais articulada do “eterno retorno” -sombras de um futuro Borges- do que a licença para articular verdades frescas e novos insights em palavras já utilizadas com exatamente a mesma aparência externa? Toda documentação é citação. Que outros meios de lembrança possuímos?

Como o conhecemos, “O Trabalho das Passagens” consiste essencialmente em trechos citados de mais de 850 fontes, na maior parte recolhidos na Biblioteca Nacional de Paris. Sua identificação, sua organização em 26 pastas principais, ou “convolutos”, e as notas explicativas são o mérito do esforço prodigioso e da erudição de Rolf Tiedemann. Sua edição surgiu em 1982 como o volume cinco, partes um e dois, da “Suhrkamp Collected Works”.

A prostituição dá poder à industrialização, à tecnocracia de eros; mas também se relaciona à subversão e à paródia dos racionalismos e valores no cassino dos capitalistas-burgueses -o frequentador das prostitutas e o jogador compulsivo se assemelham

Escondido por Bataille durante a ocupação alemã de Paris, o material chegou a Nova York no final de 1947. Apesar de extensa pesquisa textual, ainda há grande imprecisão sobre os planos finais de Benjamin quanto à sequência em que apresentaria o material e sobre sua evidente intenção de continuar a pesquisa. Colocado de maneira simples: ninguém tem autoridade para decretar se Walter Benjamin desejava ou não que seu vasto “canteiro de obras” fosse publicado de maneira semelhante à atual. A pasta “A” reúne material básico sobre as arcadas de Paris, sobre as novas mercearias e lojas de departamentos, sobre as personagens dos vendedores. O “Guide Illustré de Paris” de 1852 serve como fio de Ariadne. As referências são tipicamente variadas: incluem monografias sobre empresas funerárias (um negócio florescente), sobre litografia, os cafés de Paris, a regulamentação oficial dos nomes de produtos, além de Chesterton analisando Dickens, a “Comédia Humana”, os textos de Börne e Baudelaire. Michelet e Heine são homenageados. “A influência dos negócios comerciais em Lautréamont e Rimbaud deve ser examinada!” Benjamin enuncia seu tema subjacente: “Sobre a “intoxicação religiosa das grandes cidades” de Baudelaire. As lojas de departamentos são templos dedicados a essa intoxicação”.

Catacumbas da megalópole

A pasta “C” é uma descida às catacumbas da megalópole, à decomposição que rói seu caminho pela cidade opulenta. Na epígrafe (uma paixão de Benjamin), o Avernus de Virgílio confronta o depoimento de Apollinaire sobre o envelhecimento de Paris. Nessa parte, a própria voz de Benjamin se destaca de modo incomum. O “flâneur” sugere um panorama de toda a cidade, desdobrando-se em ritmo cinematográfico. “Paris foi construída sobre um sistema de cavernas do qual o ruído do metrô e da ferrovia sobe à superfície e ao qual cada ônibus ou caminhão que passa impõe um eco prolongado.” Esse submundo, celebrado em “Os Miseráveis” por Victor Hugo, conecta as grutas e catacumbas da Baixa Idade Média às operações de contrabando dos séculos 16 e 18. Espíritos anárquicos e clandestinos esconderam-se nessa escuridão buliçosa. “Na entrada, uma caixa de correio: última oportunidade de mandar algum sinal para o mundo que se está deixando.” Por meio da biografia “Charles Méryon”, de G. Geffroy, Benjamin acrescenta a seu registro o Homem da Multidão de Poe e alusões ao cavernoso. Os arcos triunfais de Paris -Benjamin brinca com o rito de passagem das pessoas que os atravessam- são edificados sobre um labirinto de espaços subterrâneos. A arrogante cidade desmoronaria para dentro? A pasta “D” narra o tédio, a “noia”, o grande cenário psicológico de Baudelaire, com figurações nietzschianas de “eterno retorno”. Benjamin inclui o fascinante estudo de Jean Tardieu sobre o “Ennui”. Pode ser considerado “uma espécie de breviário para o século 20”. Benjamin classifica o tédio como “a superfície exterior do evento inconsciente”, como o tecido cinza “em que nos envolvemos quando sonhamos”. É o ornamento do dândi, a fonte do frenesi do jogador e da peregrinação do “flâneur”. Na pasta “D” Blanqui torna-se uma presença central. Sua cosmologia de ficção científica deve ser relacionada ao “Zaratustra” de Nietzsche. “A essência do evento mítico é o retorno” -a circularidade carregada tanto de promessa como de terror. A pasta “E” se concentra nas interações entre a brutal modernização de Paris por Haussmann no Segundo Império e as insurreições nas barricadas, que os novos bulevares inibiriam com suas linhas de fogo para a artilharia. A crítica de Engels à tática de barricadas aparece depois de longos trechos do estudo de Georges Laronze sobre o estranho rótulo dado por Haussmann e Fourier à construção de barricadas como “um trabalho não remunerado, mas apaixonado”. Os sangrentos combates de rua durante a guerra civil espanhola prolongam os de Paris de 1830, 1848 e na Comuna. A pasta “H”, sobre o colecionador, é uma peça autobiográfica de grande pungência. Invocando os ensinamentos de Bergson sobre a elasticidade do tempo em relação às percepções individuais dos objetos, Benjamin explica como as coisas parecem atingir, capturar o colecionador. O “colecionador vive como num sonho”. As anotações tornam-se tão densas que só podem esclarecer os conhecedores do idioma de Benjamin: “Matéria destruída: a elevação da mercadoria”. O colecionador separa o objeto de sua matriz funcional, inserindo-o numa colagem; mas seria interessante estudar o bibliófilo “como o único tipo de colecionador que não remove completamente seus tesouros do contexto funcional”. Também se deve notar o desprezo de Marx pela servidão do colecionador à reificação e pela idolatria aos modismos do mercado. Há muito de Benjamin na breve entrada: “Animais (pássaros, formigas), crianças e homens velhos como colecionadores”. No envelope “J” (mas seriam essas rubricas do próprio Benjamin?) estão os tijolos do tão desejado livro sobre Baudelaire. Aqui tudo é virtualmente citação do mestre, de seus contemporâneos e biógrafos anteriores. Nadar, Victor Hugo, os Goncourt, a “opinião muito justa” de Proust sobre a posição de Sainte-Beuve a respeito de Baudelaire aglomeram-se ao redor da figura titular e da “necessidade supra-individual de seu modo de vida”. As pastas “K” e “L” tratam dos sonhos, com componentes extraídos de Freud e Jung. Mas também aparecem arquitetos como Giedion e Le Corbusier. “Arcadas e passagens sem lado de fora como o sonho.” Museus de cera podem ser considerados casas de sonhos “par excellence”. Aqui, um artigo de Ernst Bloch, sempre um assistente importante, embora ambíguo, abre caminho. A pasta “D” contém uma das observações seminais de Benjamin: “Nos campos em que temos interesse, o conhecimento vem apenas em relâmpagos. O texto é o longo trovão que o segue”.

Andorinhas migratórias

A epígrafe da pasta “O” cita o amor como “uma ave de passagem”. Nas galerias que formam o andar superior das arcadas se aninham as mulheres conhecidas como “hirondelles”, as andorinhas migratórias para aquisição sexual. A prostituição dá poder à industrialização, à tecnocracia de eros. Mas também se relaciona à subversão e à paródia dos racionalismos e valores no cassino dos capitalistas-burgueses. O frequentador das prostitutas e o jogador compulsivo se assemelham.

As reflexões pioneiras de Walter Benjamin sobre a fotografia, Daguerre e seu diorama revolucionário estão reunidas na pasta “Q”. Esse material abre diretamente com o tema dos espelhos, cujo gênio tutelar, para Benjamin, é Mallarmé. Os espelhos conjugam os usos evoluídos do vidro, essenciais na construção das “passagens” e transformados em expoentes no Crystal Palace. Novas formas de iluminação artificial (“T”) modificam todo o potencial das imagens e da simulação. A lâmpada a gás transmuta os espaços internos em grutas encantadas. As novas intensidades da iluminação revestem o céu urbano. Benjamin volta-se em seguida para os ensinamentos socioutópicos de Saint-Simon e o desenvolvimento das ferrovias. Novamente, temas cruciais são anotados num código provisório e opaco: a “emancipação da carne” apregoada por B.P. Enfantin, o apóstolo de Saint-Simon, “deve ser comparada às teses de Feuerbach e às visões de Georg Büchner. O materialismo antropológico está incluído no dialético”. Grande parte da esperança radical e utópica do século 19 tinha uma estrutura conspiratória e clandestina. Daí o papel vital das conspirações, da “compagnonnage” proibida e dos grupos anárquicos (pasta “V”). De Babeuf e os “carbonari” a Bakunin e as células niilistas, a necessária modulação dos sonhos em pesadelos ativos falam da violência no subterrâneo. A revolução não-violenta é o ideal de Fourier (“W”). Na lógica perfeita, “o falangismo é uma máquina feita de seres humanos”. O dossiê X é feito de trechos de textos marxistas clássicos, sob a luz condutora do comentário de Karl Korsch. O breve tratamento das bonecas e autômatos que conclui a sequência alfabética é um dos mais sugestivos. As bonecas musicais são as sereias-glórias das arcadas. Sabemos que o autômato de xadrez, com seu jogador anão oculto, é o ícone preferido de Benjamin para a ação teológica inerente à história secular. “O Projeto das Arcadas” não é “legível” num sentido imediato. É uma “loja de curiosidades antigas” (Benjamin cita repetidamente o título de Dickens), uma caverna de tesouros de Aladim num sótão, um quarto de despejo metafísico-histórico e uma casa de bonecas de incrível mobiliário para vasculhar e meditar, exatamente como fazem o “flâneur”, o catador e o colecionador na própria encenação de Benjamin.

Ideal de beleza frígida

De vez em quando, um único aforismo ou um rótulo en passant abrem grandes panoramas. A liquidação da fertilidade na organização tecnológica do mundo torna-se manifesta pelo ideal de beleza frígida do “Jugendstil”: o gênio da alegoria impede que o grande artista (Baudelaire) sucumba ao abismo da mitologia; as revoluções são o ar fresco da cidade pujante, elas abrem e desmitificam seus sonhos estáticos e empacotados; e, sobretudo, “meu pensamento se relaciona à teologia como o mata-borrão se relaciona à tinta. Está saturado dela. Se dependesse do mata-borrão, porém, nada do que está escrito permaneceria” -a máxima de um escritor obcecado por espelhos e por grafologia.

A primeira tradução para inglês, de Howard Eiland e Kevin McLaughlin, segue em geral minuciosamente a edição comentada e revista de Tiedemann. Assim como as notas, as explicações sobre o material colhido preliminarmente e as colaborações editoriais. Mas há problemas. Embora cuidadosa, a tradução para inglês e anglo-americano contraria a própria textura do afresco a-não-ser-concluído de Benjamin. A edição de Benjamin pela Harvard University Press, hoje em progresso monumental, é um empreendimento admiravelmente generoso. Os volumes iniciais superam a erudição oferecida primeiramente pela Suhrkamp. Mas no caso das “Passagens”, um esforço colossal talvez tenha sido mal direcionado. Encerrando essas 1.073 páginas densamente impressas, somos assombrados pelo veredicto de Benjamin sobre Mallarmé, de que “a obra é a máscara mortuária de sua concepção”.


George Steiner é catedrático do Churchill College, em Cambridge, e um dos mais importantes críticos literários vivos, autor, entre outros, de “Extraterritorial” e “Linguagem e Silêncio” (Companhia das Letras). Este texto foi originalmente publicado no “The Times Literary Supplement”. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0402200103.htm

 

A Dor não nos matará

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Jonathan Franzen

Bom dia, turma de 2011.

Bom dia, parentes e professores. É com grande honra e satisfação que estou aqui hoje.

Vou começar partindo do princípio de que vocês sabiam onde estavam se metendo quando escolheram um escritor para fazer este discurso. Vou fazer o que escritores fazem, que é falar sobre si mesmos, na esperança de que minha experiência tenha alguma ressonância em vocês. Gostaria de abordar o tema do amor e sua relação com minha vida e com o estranho mundo tecnocapitalista que vocês estão herdando.

Há duas semanas, troquei meu BlackBerry Pearl, que já tinha três anos, por um BlackBerry Bold muito mais potente, com uma câmera de cinco megapixels e tecnologia 3G. Nem preciso dizer como fiquei impressionado em verificar quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo que eu não precisasse telefonar ou mandar e-mail para alguém, queria continuar manuseando meu novo Bold e curtir a maravilhosa nitidez da tela, o toque macio do pequeno trackpad, a incrível velocidade de resposta, a sedutora elegância dos ícones. Em resumo, estava apaixonado por meu novo aparelho. É claro que também adorava meu velho celular; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu a graça. Surgiram problemas de confiança em minha relação com o Pearl; questões de responsabilidade e de compatibilidade e também, já no fim da nossa história, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente fui obrigado a reconhecer que tinha perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso dizer — na falta de uma projeção licenciosa e antropomorfizante segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado triste com o fim do amor que eu sentia por ele — como nosso relacionamento era absolutamente unilateral? Mas vou dizer mesmo assim. Reparem como a palavra sexy é sempre usada para descrever os modelos mais recentes dos aparelhos eletrônicos; e como as coisas tão legais que hoje podemos fazer com esses aparelhos — ativá-los por meio de comandos de voz ou ampliar a imagem da tela do iPhone usando dois dedos, por exemplo — teriam parecido, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros truques de mágica; e como falamos em magia quando queremos descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente. Deixem-me propor a ideia de que, segundo a lógica do tecnoconsumismo, pela qual os mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se tornou extremamente eficiente para criar produtos que correspondam à nossa fantasia de um relacionamento erótico ideal, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo com que nos sintamos todo-poderosos, e não apronta cenas constrangedoras quando, substituído por um objeto ainda mais sexy, vai parar no fundo de uma gaveta; a ideia de que (para falar de modo mais geral) o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, seja substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos — um mundo de furacões e dificuldades e corações vulneráveis, um mundo de resistance — por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos que é como se fosse mera extensão do ser. Deixem-me, finalmente, sugerir que o mundo do tecnoconsumismo é portanto perturbado pelo amor real, o que lhe deixa como única opção de resposta perturbar o amor.

A primeira linha de defesa do mundo tecnoconsumista é transformar seu inimigo em mercadoria. Todos temos um exemplo favorito e sabemos citar os casos mais nauseabundos de mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de TV com lindas criancinhas e a prática de dar automóveis como presente de Natal, além da particularmente grotesca equação que compara diamantes a devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é que, se amamos alguém, deveríamos comprar alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação, graças ao Facebook, do verbo curtir, que deixa de descrever um estado de espírito e passa a designar um ato que desempenhamos com o mouse: deixa de ser um sentimento e vira uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto da cultura comercial para amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo — sobretudo dos aparelhos eletrônicos e aplicativos — é o fato de terem sido projetados para serem bem curtíveis. Essa é, na verdade, a definição de um produto de consumo — em contraste com o produto, que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão preocupados se vamos ou não curtir. Estou pensando nos motores de aviões a jato, nos equipamentos de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade de ser curtida, o que temos aí? Temos uma pessoa sem integridade, sem um centro. Em casos mais patológicos, temos um narcisista — alguém incapaz de tolerar que sua autoimagem seja manchada pela possibilidade de não ser curtido e que portanto ou se afasta do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtido.

Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é. E, se tiver êxito na tentativa de manipular os outros para que seja curtido, será difícil que, em algum nível, não sinta verdadeiro desprezo por aqueles que caíram em seu embuste. Tais pessoas existem para que nos sintamos bem em relação a nós mesmos, mas que bem podem nos fazer se não as respeitamos? Podemos ficar deprimidos, descambar para o alcoolismo ou, no caso de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão desestimulante, pois não são pessoas. São, no entanto, grandes aliados dos narcisistas, a quem facilitam a vida. Além de saírem da fábrica com a ansiedade de ser curtidos, têm incorporada a ansiedade de nos causar boa impressão. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando filtradas pela interface sexy do Facebook. Estrelamos nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia é apenas uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar suas manipulações, como faríamos no caso de pessoas de verdade. É um movimento circular sem fim. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la em nossa lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Provavelmente vocês estão cansados de ver as mídias sociais desrespeitadas por cinquentões rabugentos. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “cair no fosso e chafurdar no amor”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espirra no espelho do nosso respeito próprio. O fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com relações amorosas. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá envolvido numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo da sua boca palavras de que não gosta, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. De repente, surge algo mais real que a curtibilidade e você se vê levando uma vida real. De repente, existe uma escolha verdadeira a ser feita, não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, mas uma pergunta: Eu amo esta pessoa? E para a outra pessoa: Ela me ama? Não existe a possibilidade de curtir todas as partículas de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição é, no limite, uma mentira. Mas é possível amar cada partícula de uma pessoa real. É por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Um dos alentos da praga dos celulares na minha vizinhança em Manhattan é que, entre zumbis enviando torpedos e imbecis combinando festas nas calçadas, às vezes caminho ao lado de alguém que está discutindo de peito aberto com a pessoa que ama. Tenho certeza de que eles prefeririam não discutir em público, mas de qualquer maneira é isso o que está acontecendo e o comportamento deles não é nada legal. Gritam, trocam acusações, protestam, se insultam. Esse é o tipo de coisa que me dá esperança no mundo.

Isso não quer dizer que o amor envolva apenas brigas, ou que pessoas muito autocentradas não sejam capazes de se acusar e se insultar. O amor é uma questão de empatia infinita, nascida de uma revelação do coração de que a outra pessoa é tão real quanto nós. É por isso que o amor, como eu o vejo, é sempre específico. Tentar amar toda a humanidade pode ser um esforço digno, mas ironicamente mantém o foco em nossa individualidade, em nosso próprio bem-estar moral ou espiritual. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com suas lutas e alegrias como se fossem suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Quando estava quase terminando a faculdade, participei do primeiro seminário da universidade sobre teoria literária e me apaixonei pela estudante mais brilhante do curso. Adoramos a maneira como instantaneamente a teoria literária nos fez sentir poderosos — nesse aspecto a sensação é similar à proporcionada pela moderna tecnologia de consumo — e nos sentimos envaidecidos porque éramos mais sofisticados do que a molecada que ainda estava debruçada nas tediosas análises de texto. Por várias razões teóricas, achamos que seria legal nos casarmos. Minha mãe, que tinha passado vinte anos tentando me tornar uma pessoa totalmente comprometida com o amor, deu uma guinada e começou a achar que eu deveria aproveitar meus vinte anos “livre e solto”, como ela dizia. Naturalmente, como para mim ela estava sempre errada, parti do princípio de que dessa vez também não fosse diferente. Tive que descobrir da maneira mais difícil como esse negócio de compromisso é uma confusão.

A primeira coisa que fizemos foi deixar de lado a teoria. Numa lamentável cena na cama, minha futura mulher me disse algo memorável: “Você não pode me desconstruir e tirar minha roupa ao mesmo tempo”. Passamos um ano em continentes diferentes e logo descobrimos que, embora fosse divertido inserir uns toques teóricos em nossas cartas, não era tão divertido assim lê-las. Mas o que para mim realmente matou a teoria — e começou a me curar, mais genericamente, da minha obsessão pela imagem que eu projetava — foi minha paixão pela ficção. Pode haver uma semelhança superficial entre revisar um texto de ficção e revisar um perfil no Facebook; mas uma página de prosa dispensa aquelas imagens vistosas que favorecem nossa autoimagem. Quem se animar a retribuir o presente que representa a ficção de outra pessoa não poderá ignorar o que há de fraudulento e de segunda mão em sua própria página. Essas páginas também são um espelho, e, se realmente amamos a ficção, descobriremos que as únicas páginas que valem a pena ser guardadas são aquelas que nos refletem como realmente somos.

Há aqui, claro, o risco da rejeição. Podemos de vez em quando suportar o fato de que nem sempre somos curtidos, pois existe uma gama infinita de pessoas que, potencialmente, podem nos curtir. Mas nos expormos por inteiro em nossa individualidade, e não apenas a superfície curtível, e sermos rejeitados, é algo que pode ser insuportavelmente doloroso. Em geral, a perspectiva da dor, da dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir. Minha mulher e eu, tendo nos casado jovens demais, abrimos mão de nós mesmos de tal maneira e nos causamos tantos sofrimentos que tínhamos motivos para nos arrependermos de ter embarcado nessa relação.

E no entanto nunca me arrependi. Em primeiro lugar, a luta para honrar nosso compromisso nos tornou o que somos como pessoas; não éramos moléculas de hélio flutuando indolentemente pela vida; nós nos unimos e mudamos. Em segundo lugar — e essa pode ser a principal mensagem para vocês hoje —, a dor fere, mas não mata. Quando levamos em conta a alternativa — um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado pela tecnologia —, a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Passar pela vida e não sofrer é não viver. Dizer a si mesmo “Ah, vou deixar para mais tarde essa história de amor e dor, talvez para depois dos trinta” é como se resignar a passar dez anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser (e emprego a palavra em seu sentido mais pejorativo) um consumidor.

O que disse antes, sobre como o compromisso com algo que amamos nos obriga a encarar quem realmente somos, pode se aplicar particularmente à atividade de escrever ficção, mas é verdade também em relação a qualquer trabalho que façamos com amor. Gostaria de concluir falando sobre um outro amor que tive.

Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois, eu curtia o mundo natural. Não amava, mas sem dúvida curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E como a teoria literária havia me instigado e eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, querendo achar razões para odiar as pessoas responsáveis por tais erros, gravitei naturalmente em direção ao ambientalismo, porque sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu percebia o que estava errado — a população mundial em explosão, o exagerado consumo de recursos naturais, o aumento da temperatura global, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas matas virgens —, mais me enfurecia e odiava as pessoas. Finalmente, mais ou menos na época em que meu casamento estava acabando e eu resolvi que dor era algo bem diferente do que passar o resto da vida me sentindo cada vez mais furioso e infeliz, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Não havia nada de significativo que eu pudesse fazer, pessoalmente, para salvar o planeta, e, além disso, queria continuar me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter baixa minha emissão de carbono, mas esse parecia ser meu limite, se não quisesse de novo sentir raiva e desespero.

Foi então que algo engraçado me aconteceu. É uma longa história, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isso não ocorreu sem uma resistência considerável, pois não há nada menos cool que ser um observador de pássaros, e qualquer indício que revele uma paixão verdadeira não é, por definição, cool. Mas, aos poucos, mesmo relutando, fomentei essa paixão e, se metade de uma paixão é obsessão, a outra metade é amor. Sim, admito que mantive meticulosamente uma lista das espécies de pássaros que já tinha visto e me esforcei para conhecer novas espécies. Mas, o que é igualmente importante, sempre que olhava um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um pardal, sentia meu coração se encher de amor. E o amor, como venho tentando dizer a vocês, é onde nossos problemas começam.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias nesse front não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com isso — na realidade, eram bem piores —, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos que eu podia apreciar. Eram o lar dos animais que eu amava. E foi então que veio à tona um curioso paradoxo. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só aumentaram por causa da minha preocupação com os pássaros silvestres, e no entanto, à medida que me envolvia com a preservação dos pássaros e aprendia sobre as muitas ameaças que eles sofrem, tornou-se estranhamente mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode acontecer algo assim? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem sabia existir. Em vez de continuar viajando por aí como cidadão do mundo, curtindo algumas coisas, descurtindo outras e guardando envolvimentos para o futuro, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que eu tinha que aceitar na íntegra ou rejeitar absolutamente. É isso que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental para todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas um dia vamos morrer. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E podemos optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo.

Como disse, esse envolvimento com os pássaros foi algo inesperado para mim. Durante a maior parte da minha vida, praticamente nem liguei para animais. Talvez tenha tido azar de me aproximar dos pássaros tão tarde em minha vida, ou talvez tenha tido sorte de que esse envolvimento simplesmente tenha acontecido. Mas, uma vez que sentimos um amor assim, não importa se cedo ou tarde, mudamos nossa relação com o mundo. Eu, por exemplo, tinha abandonado o jornalismo depois de algumas primeiras tentativas, porque o universo dos fatos não me estimulava da mesma maneira que o universo da ficção. Mas depois que minha experiência com os pássaros me ensinou a ir ao encontro da dor, da raiva e da desesperança, e não a me afastar delas, passei a aceitar um novo tipo de trabalho jornalístico. Aquilo que eu mais odiava, em determinado momento, se transformou em algo sobre o que eu queria escrever. Fui a Washington no verão de 2003, quando os republicanos estavam fazendo coisas que me deixavam furioso. Fui à China uns anos atrás porque o que os chineses estavam fazendo com o meio ambiente me tirava o sono. Fui ao Mediterrâneo entrevistar caçadores que estavam matando pássaros migratórios. Em cada um desses casos, ao me encontrar com o inimigo, descobri pessoas que realmente passei a curtir — em alguns casos até a amar. Assessores republicanos engraçados, generosos, brilhantes e alegres. Jovens chineses amantes da natureza, maravilhosos e destemidos. Um legislador italiano louco por armas, de olhos suaves e que citava o defensor dos direitos dos animais, Peter Singer. Em cada caso, a antipatia que sentia facilmente por eles já não tinha mais nada de fácil.

Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentindo indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E então quem saberá dizer que rumo a vida tomará?
Obrigado.

Carta de Susan Sontag a Borges

Querido Borges:

0_NSZN9MF-yPVhoOae_Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores… e também o  mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como “o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado”. Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.

Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo… e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor – acrescentando delicadamente: todas as pessoas – deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. (Estava falando da sua própria cegueira).

O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: “Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente… São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram”. E isso continua sendo assim.  Ainda continuamos aprendendo com o senhor. Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a  literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos.Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano “real” a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.

Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada,  e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela”  que deverá  descarregar qualquer “texto” a pedido, e que poderá mudar  sua aparência, formular perguntas, “interagir” com esse texto. Quando os livros se convertam em “textos”, com os que “interagiremos” segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem – como algo mais “democrático”. Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção… e do livro.

Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros – da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

Estados Alterados de Consciência

A Neuropsicologia de Como a Percepção no Tempo Modula a Experiência de Si Mesmo. Da Depressão ao Tédio, ao Fluxo Criativo


“O cérebro não representa simplesmente o mundo de forma desencarnada como uma construção intelectual… Nossa mente está vinculada ao corpo. Nós pensamos, sentimos e agimos com nosso corpo no mundo. Toda experiência está embutida neste ser-no-mundo relacionado ao corpo ”.

DE MARIA POPOVA


“Há, nas horas mais sãs, uma consciência, um pensamento que se eleva, independente, retirado de tudo, calmo, como as estrelas, brilhando eterno. Esse é o pensamento da identidade”, escreveu Walt Whitman ao contemplar o paradoxo central do eu. E, no entanto, a característica mais paradoxal da consciência pode ser precisamente a indefinição do eu em uma identidade composta de multidões porosas e em constante mudança. Um século depois de Whitman, o poeta, dramaturgo e romancista austríaco Thomas Bernhard abordou isso em sua excelente meditação sobre o paradoxo da auto-observação: “Se nos observarmos, nunca estamos observando a nós mesmos, mas a outra pessoa. Assim, nunca podemos falar de auto-observação, pois estamos falando como alguém que nunca somos quando não estamos observando a nós mesmos e, portanto, quando nos observamos, nunca estamos observando a pessoa que pretendíamos observar, mas outra pessoa ”.

No meio do caminho entre Whitman e Bernhard, Virginia Woolf destilou o paradoxo em seu problema central: “Não se pode escrever diretamente sobre a alma. Se a olhamos ela desaparece.” Muito à frente da ciência moderna, ela entendeu que nossa experiência de individualidade e da “alma” está largamente enraizada em nossa experiência do tempo – esse eu e o tempo estão entrelaçados em uma elasticidade compartilhada .

Quase um século depois de Woolf e muitas voltas da roda cultural após Whitman, o psicólogo e cronobiólogo alemão Marc Wittmann – um pioneiro na pesquisa sobre a percepção do tempo – retoma essas questões enormes e elementares em Altered States of Consciousness: Experiences Out of Time and Self ( biblioteca pública), traduzido por Philippa Hurd. Entrelaçando fenomenologia da percepção, pesquisa clínica em psiquiatria e neurobiologia, estudos de casos de pacientes, filosofia, literatura e experiências históricas de laboratórios de psicologia ao redor do mundo, Wittmann examina os extremos da consciência – experiências de quase morte, epilepsia, meditação intensiva, uso de psicodélicos, doença mental – para lançar luz sobre os enigmas permanentes do que a consciência é realmente, e como corpo, eu, espaço e tempo se entrelaçam, onde as fronteiras do eu estão localizadas, porque a dissolução dessas fronteiras pode ser a suprema fonte de felicidade e como a consciência do tempo e da consciência do eu co-criam um ao outro para construir a experiência de quem somos.

Discus chronologicus , uma representação alemã do tempo a partir do início dos anos 1720, das Cartografias do Tempo

Em um sentimento que lembra o verso de encerramento do esplêndido “Hino ao Tempo” de Ursula K. Le Guin –

“O tempo é ser e ser / tempo, é tudo uma coisa, o brilho, a visão, o escuro, abundante.”-

Wittmann escreve:

Os estados alterados de consciência muitas vezes andam de mãos dadas com uma percepção alterada do espaço e do tempo… Em última análise, nossa percepção e nossos pensamentos são organizados em termos de espaço e tempo. Estados extraordinários de consciência devem, portanto, afetar também o espaço e o tempo.

Em consonância com a refutação atemporal do tempo de Borges – “O tempo é a substância da qual eu sou feito. O tempo é um rio que me varre, mas eu sou o rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. ”- Wittmann acrescenta:

O tempo subjetivo e a consciência, o tempo sentido e a experiência do eu estão intimamente relacionados: eu sou meu tempo; Através da minha experiência comigo mesmo, eu alcanço um sentimento de tempo. Se tivermos uma melhor compreensão da experiência subjetiva do tempo, então aspectos importantes da autoconsciência também terão sido melhor compreendidos.

[…]

Em estados extraordinários de consciência – momentos de choque, meditação, experiências místicas súbitas, experiências de quase morte, sob a influência de drogas – a consciência temporal é fundamentalmente alterada. De mãos dadas com isso está uma consciência alterada do espaço e do eu. Nessas circunstâncias extremas, o tempo e os conceitos de espaço e eu são modulados juntos – intensificados ou enfraquecidos juntos. Mas também em situações mais comuns, como o tédio, a experiência do fluxo, a ociosidade, o tempo e o eu são coletivamente alterados.

Pensamentos, pensamentos silenciosos, do Tempo, do Espaço e da Morte. Ilustração de Margaret C. Cook de uma edição de 1913 de Folhas de Erva de Walt Whitman .

Wittmann aponta para uma diferença fundamental entre nosso senso de tempo e nossos outros sentidos, que destaca a centralidade da percepção do tempo para a nossa experiência de individualidade:

O sentido do tempo é “corporificado” de uma maneira mais abrangente do que os outros sentidos. Em última análise, a percepção do tempo não é mediada por um órgão sensorial específico, como acontece no caso dos sentidos da visão, audição, paladar, olfato ou tato. Não há órgão sensorial para o tempo. O tempo subjetivo como um senso de self é uma totalidade física e emocionalmente sentida de todo o nosso ser através do tempo.

E, no entanto, em sua própria pesquisa na Universidade da Califórnia em San Diego, Wittmann localizou, se não um órgão sensorial separado, pelo menos uma região do cérebro em particular, responsável principalmente por nosso senso de tempo. Usando fMRI, ele e sua equipe forneceram a primeira evidência empírica sistemática de que a percepção do tempo é codificada em sinais corporais governados pela ínsula – um fragmento do córtex cerebral dobrado profundamente dentro de cada lobo do cérebro, já implicado por pesquisas anteriores como um locus crucial de consciência envolvida em emoção, autoconsciência e interação social. Com um olho no delicado entrelaçamento entre nossos corpos e nossas mentes , Wittmann escreve:

O cérebro não representa simplesmente o mundo de forma desencarnada, como uma construção intelectual, mas o organismo interage como um todo com o meio ambiente… Nossa mente está vinculada ao corpo. Nós pensamos, sentimos e agimos com nosso corpo no mundo. Toda a experiência está embutida neste ser-no-mundo relacionado ao corpo. Ou, para colocar de outra forma, experiência subjetiva significa viver que está incorporado no ambiente e na interação social com outras pessoas.

[…]

As sensações corporais que estão ligadas à temperatura do corpo íntegro, dor, contrações musculares, contato físico e sinais do intestino – também são um componente integral das emoções e desencadeiam sentimentos positivos ou negativos. Afetos de curto prazo e humor de longa duração são essenciais para a modulação do sentido do tempo.

De fato, algumas das evidências mais convincentes para o self como uma entidade temporal provêm dos vários experimentos e estudos de caso que indicam que pessoas com estados mentais e de humor interrompidos exibem percepção de tempo prejudicada. A depressão, que William Styron descreveu tão memoravelmente como um “confinamento sufocante” em um desespero prolongado, dilata a percepção do tempo em um grau tortuoso. Citando um estudo no qual pacientes hospitalizados por depressão demonstraram forte correlação positiva entre a gravidade de seus sintomas e sua incapacidade de estimar corretamente o tempo, Wittmann escreve:

Pessoas que sofrem de depressão são dessincronizadas temporariamente; sua velocidade interna não corresponde à velocidade do ambiente social. Depressividade e tristeza, expressas em uma auto-imagem negativa, auto-culpabilização e um sentimento de inutilidade, entre outras coisas, andam de mãos dadas com a sensação intensificada e desagradável do tempo passando mais devagar. 

Arte de Bobby Baker, de seu diário visual de doença mental .

Além disso, o tempo se torna arrítmico. Quando intoxicados por um estimulante, pensamentos e ações se aceleram a partir de sua taxa normal, mas o cérebro não codifica essas experiências aceleradas como memórias adequadas. Durante a retirada, acontece o oposto – o tempo se dilata e se expande. O foco no presente desejo pela droga faz com que os sintomas físicos tortuosos pareçam intermináveis ​​e um futuro livre de dependência pareça infinitamente distante. Wittmann resume a cruel armadilha temporal do vício:

Em um estado de dependência, o indivíduo perde sua liberdade temporal – a liberdade de escolher entre oportunidades presentes e futuras.

Na esquizofrenia, a ruptura temporal é ainda mais pronunciada – a unidade contínua como o “eu” é comumente experimentado se quebra em momentos fragmentários que parecem congelar no tempo, impedindo a pessoa de integrar passado, presente e futuro em uma imagem coesa de ser. Refletindo sobre os relatos consistentes dos pacientes sobre o tempo parado, de toda perspectiva futura desaparecendo, e de sentir que eles mesmos estão se dissolvendo, Wittmann escreve:

Na esquizofrenia, a continuidade da experiência temporal e, com ela, a continuidade do eu são perturbadas. É como se o “eu” estivesse preso no presente. O tempo não se move mais e parece parado. Paralisação temporal significa a paralisação do sujeito. Normalmente, nos sentimos como uma unidade de nosso eu. Nosso foco em eventos antecipados inicia nossos preparativos para a ação. A presença mental significa que integramos a experiência passada, presente e antecipada em um todo que é o nosso eu. Como seres conscientes, somos constituídos pela experiência de si nos três modos temporais … Na esquizofrenia … a dinâmica da passagem do tempo, subjacente à subjetividade de toda a nossa experiência, não funciona mais. Porque o tempo subjetivo “fica preso, “A experiência do eu que depende da estrutura temporal dinâmica subjacente é prejudicada. Sem a dinâmica desse fluxo temporal, o “eu” entra em colapso em fragmentos de agora.

Arte de Lisbeth Zwerger para uma edição especial de Alice no País das Maravilhas

Essa interdependência entre nosso senso de tempo e nosso senso de self se manifesta não apenas em estados mentais patológicos no sentido clínico, mas também em nossas patologias existenciais, por assim dizer – nossas experiências de tédio, fluxo criativo e as margens da vigília. Quase um século depois de Bertrand Russell ter admoestado que “uma geração que não pode suportar o tédio será uma geração … em quem todo impulso vital lentamente murcha, como se fossem flores cortadas em um vaso”, escreve Wittmann:

O tédio na verdade significa que nos achamos entediantes. É a auto-referência intensiva: estamos entediados conosco mesmos. Estamos cansados ​​de nós mesmos.

[…]

No tédio somos completamente tempo e completamente vazio interior. Agora sou eu e nada mais – um excesso de ser a si mesmo, na maioria dos casos quando se está sozinho, mas às vezes também é solitário quando se está com os outros.

Se o tempo se desenrola interminavelmente no tédio, ele corre tão rapidamente que desaparece durante o fluxo criativo. Em tal estado, experimenta-se a contrapartida positiva para a dissolução do relato de pacientes com auto-esquizofrenia. Wittmann limita a experiência:

Por um lado, conseguimos algo que será permanente – escrevendo este texto, resolvendo um problema de sintaxe na programação -, mas a nossa vida como um todo quase desapareceu por minutos ou até horas. Estávamos nos concentrando completa e completamente no assunto em questão, mas, ao fazê-lo, não nos notamos: uma perda da experiência do eu e do tempo. Expressá-lo negativamente desta maneira também mostra como a percepção do eu e do tempo são conjuntamente moduladas.

Ilustração de Tom Seidmann-Freud, sobrinha de Sigmund Freud, de um livro filosófico de crianças de 1922, David the Dreamer .

Um dos maiores confrontos cotidianos com o eu em desintegração ocorre nos momentos em que a consciência se esvai em seu manto diurno e no noturno. Mais de um século e meio depois de Nathaniel Hawthorne contemplar como o espaço transcendente entre o sono e a vigília ilumina a temporalidade, Wittmann observa que essas experiências revelam algo além do modelo padrão de memória e narrativa como os blocos de construção do eu – emergindo dessa lacuna entre o sono e a vigília também é um senso do eu como “o mero sentimento de ser”, independente da memória autobiográfica. Ele escreve:

Nos segundos de acordar, como o eu narrativo não está atualizando, a consciência está focada em algo, no entanto: é o eu físico que está no centro da percepção e do pensamento, o que permite a diferenciação entre o eu e o não-eu. Em circunstâncias normais, estamos cientes de nossas experiências, lembranças e expectativas, os objetos de nossa consciência. Abaixo da superfície, no entanto, também temos um eu mínimo, a âncora egocêntrica de todas as experiências que, na situação supramencionada do despertar sem memória, é repentinamente experimentada com muita clareza, à medida que os objetos habituais de nossa consciência, percepções e lembranças estão ausentes. Eu sou jogado de volta em mim mesmo.

Em tal caso, a experiência do eu pode ser entendida como um “pólo do ego”. Meu “ego-sujeito” é focalizado em um “objeto do ego”: eu me percebo. No entanto, há um problema fundamental aqui, pois o objeto do ego é categoricamente diferente do ego-sujeito. Se nos observamos auto-referencialmente – isto é, o ego-sujeito se observa a si mesmo – ele sempre se observa como um objeto do ego.

[…]

Na transição do sono para o despertar, experimentamos os limites do nosso estado habitual de self. Toda vez que acordamos, nos tornamos conscientes de nós mesmos mais uma vez; estamos inseridos em nosso estado de consciência. Mas, em casos isolados, o processo de tornar-se consciente não acontece de maneira perfeita – o ego não se reconhece. Através desses momentos, temos a oportunidade de investigar o enigma da consciência, revelando como o eu consciente depende de fatores ainda a serem determinados, que são constitutivos da autoconsciência.

Ilustração de Lisbeth Zwerger para uma edição especial dos contos de fadas dos irmãos Grimm

Mas em nenhum lugar as fronteiras do self-in-time parecem se dissolver de forma mais palpável do que durante as experiências psicodélicas. Um século depois que o psicólogo e filósofo pioneiro William James primeiro codificou as características típicas dos estados transcendentes, Wittmann se baseia na nova geração de pesquisas sobre como a ciência dos psicodélicos ilumina a consciência e escreve:

Pesquisas científicas sobre os efeitos do LSD e da psilocibina mostraram claramente que os estados de consciência envolvem mudanças marcantes na percepção, nas emoções e nas ideias, e também nos modos como são descritos: o tempo, o espaço e a experiência do self são drasticamente alterados. Essas mudanças são comparáveis ​​apenas a outros estados extremos de consciência, como os que ocorrem nos sonhos, no êxtase místico e religioso, ou nas fases psicóticas agudas no estágio inicial da esquizofrenia. As dimensões da experiência mística incluem a unidade do eu com o universo, a sensação de intemporalidade e ausência de espaço, os sentimentos mais intensos de felicidade e a certeza de experimentar uma verdade sagrada que é, no entanto, indescritível. Este último é o sentimento de olhar por trás do véu da realidade e ver o imutável 

[…]

A pesquisa sobre a experiência mística da desintegração do tempo e do eu sob a influência de alucinógenos é um caminho para entender a consciência humana.

No restante dos fascinantes Altered States of Consciousness , Wittmann prossegue examinando como experiências como meditação e música profundas iluminam a natureza da consciência através das lentes do tempo e do self. Complementa-lo com Kierkegaard em ligar o efêmero e eterno e neurocientista Christof Koch sobre como os qualia de nossa experiência iluminam o mistério central da consciência , então revisitar a exploração anterior de Wittmann de como a interação de espontaneidade e autocontrole medeia nossa capacidade de presença .

Original em inglês

https://www.brainpickings.org/2019/07/19/altered-states-of-consciousness-marc-wittmann/

O Cancelamento Lento do Futuro

Mark Fisher

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‘Não há tempo aqui, não mais’

A imagem final da série de televisão britânica Sapphire e Steel parecia projetada para assombrar as mentes adolescentes. Os dois protagonistas, interpretados por Joanna Lumley e David McCallum, encontram-se no que parece ser um café à beira da estrada dos anos 1940. O rádio está tocando uma simulação de Glenn Miller no estilo Big Band jazz. Outro casal, um homem e uma mulher vestidos com roupas da década de 1940, estão sentados em uma mesa ao lado. A mulher se levanta dizendo: ‘Esta é a armadilha. Isso não é nada e é para sempre’. Ela e seu companheiro desaparecem, deixando contornos espectrais, depois o nada. Pânico em Sapphire e Steel. Eles vasculham os poucos objetos no café, procurando por algo que possam usar para escapar. Não há nada, e quando eles puxam as cortinas, há apenas um vazio negro e estrelado além da janela. O café, parece ser algum tipo de cápsula flutuando no espaço profundo.

Observando esta extraordinária sequência final agora, a justaposição do café com o cosmos provavelmente colocará em mente alguma combinação de Edward Hopper e René Magritte. Nenhuma dessas referências estava disponível para mim na época; na verdade, quando mais tarde encontrei Hopper e Magritte, sem dúvida pensei em Sapphire e Steel. Era agosto de 1982 e eu acabara de completar 15 anos. Mais de 20 anos depois, eu voltaria a ver essas imagens. Nesta ocasião, graças aos VHS, DVDs e YouTube, parecia que praticamente tudo estava disponível para re-assistir. Em condições de recall digital, a perda é perdida.

A passagem de 30 anos apenas fez a série parecer ainda mais estranha do que na época. Isso era ficção científica sem nenhuma das armadilhas tradicionais do gênero, sem naves espaciais, sem armas de raios, sem inimigos antropomórficos: apenas o tecido revelador do corredor do tempo, ao longo do qual entidades malévolas rastejariam, explorando e ampliando lacunas e fissuras no contínuo temporal. Tudo o que sabíamos sobre Sapphire e Steel era que eles eram “detetives” de um tipo peculiar, provavelmente não humanos, enviados de uma misteriosa “agência” para consertar essas quebras no tempo. ‘O básico de Sapphire e Steel ‘ explicou o criador da série, PJ Hammond, ‘veio do meu desejo de escrever uma história de detetive, na qual eu queria incorporar o Tempo. Sempre me interessei pelo Tempo, particularmente pelas ideias de JB Priestley e HG Wells, mas eu queria uma abordagem diferente do assunto. Então, em vez de fazê-los retroceder e avançar no Tempo, seria sobre o Tempo, a Hora invadindo e, tendo estabelecido o precedente, percebi o potencial que isso oferecia a duas pessoas cujo trabalho era impedir as invasões. (Steve O’Brien, “A história por trás da Sapphire e do Steel”, The Fan Can,http://www.thefancan.com/fancandy/features/tvfeatures/steel.html )

Hammond já havia trabalhado como escritor em dramas policiais como Um toque suave e A Caminhada do Caçador e em fantasias infantis como Ás de Paus e Dramarama. Com Sapphire e Steel , ele alcançou uma espécie de marca autoral que nunca mais conseguiria repetir. As condições para esse tipo de transmissão pública visionária desapareceriam durante a década de 1980, quando a mídia britânica foi tomada pelo que outro autor de televisão, Dennis Potter, chamaria de “forças de ocupação” do neoliberalismo. O resultado dessa ocupação é que agora é difícil acreditar que tal programa poderia ter sido transmitido no horário nobre da televisão, ainda menos na então única rede comercial da Grã-Bretanha, a ITV. Havia apenas três canais de televisão na Grã-Bretanha: BBC1, BBC2 e ITV; O Channel 4 faria sua primeira transmissão apenas alguns meses depois.

Em comparação com as expectativas criadas por Star Wars, Sapphire e Steel saiu-se como algo muito barato e divertido. Mesmo em 1982, os efeitos especiais chroma-key não pareciam convincentes. O fato de que os cenários eram mínimos, e o elenco pequeno (a maioria das “tarefas” só apresentava Lumley e McCallum e um casal de outros), davam a impressão de uma produção teatral. No entanto, não havia nada de simplicidade no naturalismo da pia da cozinha; e Sapphire e Steel tinha mais em comum com a opressão enigmática de Harold Pinter, cujas peças eram frequentemente transmitidas pela televisão da BBC durante a década de 1970.

Uma série de coisas sobre a série são particularmente impressionantes do ponto de vista do século XXI. A primeira é a absoluta recusa em “encontrar o público na metade do caminho” da maneira que esperávamos. Isso é parcialmente uma questão conceitual: Sapphire e Steel era enigmático, suas histórias e seu mundo nunca foram totalmente divulgados, e ainda menos explicados. A série foi muito mais próxima de algo como a adaptação da BBC dos romances Smiley de John Le Carré – Tinker Tailor, Soldier Spy – transmitida em 1979; sua sequencia Smiley’s People (que começaria a passar um mês depois do fim de Sapphire e Steel) do que era para Star Wars. Foi também uma questão de teor emocional: a série e os seus dois personagens principais carecem do calor e do humor malicioso que agora é uma característica tão garantida da mídia de entretenimento. O Steel de McCallum tinha a indiferença de um técnico em relação às vidas com as quais ele se envolvia relutantemente; embora ele nunca perdesse seu senso de dever, se mostrava impaciente e impaciente, frequentemente exasperado pela forma como os humanos “bagunçam suas vidas”. Se a Sapphire de Lumley parecia mais simpática, sempre havia a suspeita de que sua aparente afeição em relação aos humanos era algo como a fascinação benigna de um proprietário por seus animaizinhos de estimação. A austeridade emocional que caracterizou a série desde o início assume uma qualidade mais explicitamente pessimista na temporada final. Os paralelismos de Le Carré são reforçados pela forte suspeita de que, assim como Tinker Tailor, Soldier Spy, os personagens principais foram traídos por seu próprio lado.

E então havia a música incidental de Cyril Ornadel. Como Nick Edwards explicou em um post de 2009, esta foi “formada por um pequeno grupo de músicos (predominantemente de cordas) com o uso liberal de tratamentos eletrônicos (modulação de toque, eco / delay) para intensificar o drama e sugestão de horror, e as pistas de Ornadel são muito mais poderosas e evocadoras do que qualquer coisa que você possa ouvir na grande mídia hoje em dia”. (‘Sapphire and Steel’, gutterbreakz.blogspot.co.uk/2009/05/sapphire-steel.html )

Um dos objetivos de Sapphire e Steel era transpor as histórias de fantasmas do contexto vitoriano para lugares contemporâneos, os ainda habitados ou os recentemente abandonados. Na tarefa final, Sapphire e Steel chegam a uma pequena estação de serviço. Logotipos corporativos – Access, 7 Up, Castrol GTX, LV – estão colados nas janelas e nas paredes da garagem e no café adjacente. Esse ‘meio caminho’ é uma versão protótipo do que o antropólogo Marc Augé chamou em um livro de mesmo título de 1995, de ‘não-lugares’ – as zonas genéricas de trânsito (retail parks, aeroportos) que viriam a dominar cada vez mais o mundo, espaços do capitalismo tardio. Na verdade, a modesta estação de serviço em Sapphire and Steel é estranhamente idiossincrática em comparação com os monólitos genéricos clonados que proliferarão além das autoestradas nos próximos 30 anos.

O problema que Sapphire e Steel resolveram, como sempre, tem a ver com o tempo. Na estação de serviço, há uma dilatação temporal de períodos anteriores: imagens e figuras de 1925 e 1948 continuam aparecendo, de modo que, como diz a colega de Sapphire e Steel, “o tempo acabou de se misturar, misturar-se, e não fazer nenhum tipo de sentido”. O anacronismo, a confusão de pequenos períodos de tempo de um para o outro, foi ao longo da série o principal sintoma da quebra da temporalidade. Em uma das primeiras tarefas, Steel reclama que essas anomalias temporais são desencadeadas pela predileção dos seres humanos pela mistura de artefatos de diferentes épocas. Nesta tarefa final, o anacronismo levou à estase: o tempo parou. A estação de serviço se tornou ‘um bolso, um vácuo’. Há ‘ainda tráfego, mas não vai a lugar nenhum’: o som dos carros é aprisionado num zumbido em loop. Silver diz: “não há tempo aqui, não mais”. É como se todo o cenário fosse uma literalização das linhas da obra de Pinter Nenhum homem na Terra: ‘Terra de ninguém, que nunca se move, que nunca muda, que nunca envelhece, que permanece para sempre gelada e silenciosa.’  Hammond disse que ele não pretendia necessariamente que a série terminasse ali. Ele pensou que ela seria paralisada, mas que voltaria em algum momento no futuro. Mas não houve retorno – pelo menos, não na rede de televisão. Em 2004, Sapphire and Steel voltaria para uma série de aventuras em áudio; embora Hammond, McCallum e Lumley não estivessem envolvidos, e nesta ocasião o público não era o público que assistia à televisão, mas o tipo de nicho de interesse especial facilmente encontrado na cultura digital. Eternamente suspensas, para nunca serem libertadas, sua situação – e de fato sua proveniência – nunca será totalmente explicada, a permanência de Sapphire e Steel neste café do nada é profética para uma condição geral: na qual a vida continua, mas o tempo parou.

O lento cancelamento do futuro

A alegação deste livro é que a cultura do século XXI é marcada pelo mesmo anacronismo e inércia que afligiram a Sapphire e Steel em sua aventura final. Mas esta estase foi soterrada, enterrada por trás de um frenesi superficial de “novidade”, de movimento perpétuo. A ‘confusão do tempo’, o envelhecimento de eras anteriores, deixou de ser digna de comentário; agora é tão prevalente que não é mais notada.

Em seu livro Depois do Futuro , Franco “Bifo” Berardi refere-se ao “lento cancelamento do futuro [que] teve início nas décadas de 1970 e 1980”. ‘Mas quando eu digo ‘futuro’, ele explica,

Não estou me referindo à direção do tempo. Estou pensando, antes, na percepção psicológica, que emergiu na situação cultural da modernidade progressista, às expectativas culturais que foram fabricadas durante o longo período da civilização moderna, que atingiu o ápice após a Segunda Guerra Mundial. Essas expectativas foram moldadas nos quadros conceituais  de um desenvolvimento sempre em progresso, embora através de diferentes metodologias: a mitologia Hegel-Marxista de Aufhebung, fundando a nova totalidade do comunismo; a mitologia burguesa de um desenvolvimento linear de bem-estar e democracia; a mitologia tecnocrática do poder abrangente do conhecimento científico; e assim por diante. Minha geração cresceu no auge dessa temporalização mitológica, e é muito difícil, talvez impossível, livrar-se dela e olhar para a realidade sem esse tipo de lente temporal. Jamais poderei viver de acordo com a nova realidade, por mais evidente, inconfundível ou deslumbrante que seja sua tendência social planetária.  (Depois do  Futuro, AK Books, 2011, pp18-19)

Bifo é de uma geração mais velha do que a minha, mas ele e eu estamos aqui do mesmo lado desse corte temporal. Eu também nunca conseguirei me ajustar aos paradoxos dessa nova situação. A tentação imediata aqui é encaixar o que estou dizendo em uma narrativa cansada e familiar: é uma questão de o velho não chegar a um acordo com o novo, dizendo que era melhor em seus dias. No entanto, é justamente esse quadro – com a suposição de que os jovens estão automaticamente à frente da mudança cultural – que agora está desatualizado.

Em vez do já batido mergulho do “novo” no medo e na incompreensão, é mais provável que aqueles cujas expectativas se formaram em uma época anterior, se assustem com a pura persistência de formas reconhecíveis.

Em nenhum lugar isso é mais claro do que na cultura da música popular. Foi através das mutações da música popular que muitos de nós que crescemos nos anos 60, 70 e 80 aprendemos a medir a passagem do tempo cultural.

Mas diante da música do século XXI, é o próprio sentido do choque de futuro que desapareceu. Isso é rapidamente estabelecido através da realização de um simples experimento mental. Imagine qualquer disco lançado nos últimos dois anos sendo transmitido no tempo para, digamos, 1995 e tocado no rádio. É difícil pensar que isso produzirá algum choque   nos ouvintes. Pelo contrário, o que poderia chocar nossa audiência de 1995 seria a própria reconhecibilidade dos sons: a música realmente teria mudado tão pouco nos próximos 17 anos? Compare isso com a rápida mudança de estilos entre os anos 1960 e os anos 90: tocar um álbum de 1993 para alguém em 1989 teria soado como algo tão novo que os desafiaria a repensar o que a música era ou poderia ser. Enquanto a cultura experimental do século XX foi tomada por um delírio recombinatório, que fez com que a novidade estivesse infinitamente disponível, a século 21 é oprimida por uma sensação esmagadora de finitude e exaustão. Não parece o futuro. Ou, alternativamente, não parece que o século 21 tenha começado ainda. Continuamos presos no século 20, assim como Sapphire e Steel foram encarcerados em seu café à beira da estrada.

O lento cancelamento do futuro foi acompanhado por uma deflação de expectativas. Pode haver poucos que acreditem que no próximo ano um recorde tão grande como, digamos, o Fun House dos Stooges, ou o There’s a Riot Goin do Sly, será lançado. Ainda menos esperamos o tipo de ruptura provocada pelos Beatles ou pela disco. A sensação de atraso, de viver depois da corrida do ouro, é tão onipresente quanto negada. Compare o terreno em pousio do momento atual com a fecundidade de períodos anteriores e você será rapidamente acusado de “nostalgia”. Mas a confiança dos artistas atuais em estilos que foram estabelecidos há muito tempo sugere que o momento atual está nas garras de uma  nostalgia formal, da qual mais em breve falaremos.

Não é que nada tenha acontecido no período em que o lento cancelamento do futuro se instalou. Pelo contrário, esses 30 anos foram uma época de mudanças massivas e traumáticas. No Reino Unido, a eleição de Margaret Thatcher colocou fim aos compromissos incômodos do chamado consenso social do pós-guerra. O programa neoliberal de Thatcher na política foi reforçado por uma reestruturação transnacional da economia capitalista. A mudança para o chamado pós-fordismo – com a globalização, a computação onipresente e a precarização do trabalho – resultou em uma transformação completa na forma como o trabalho e o lazer são organizados. Nos últimos 10 a 15 anos, enquanto isso, a Internet e a tecnologia de telecomunicações móveis alteraram a textura da experiência cotidiana para além de qualquer reconhecimento. No entanto, a despeito de tudo isso, há uma sensação crescente de que a cultura perdeu a capacidade de compreender e articular o presente. Ou pode ser que, em um sentido muito importante, não haja mais presente para compreender e articular.

Considere o que acontece com o conceito de música “futurista”. O “futurista” na música há muito tempo deixou de se referir a qualquer futuro que esperamos que seja diferente; Tornou-se um estilo estabelecido, muito parecido com uma fonte tipográfica específica. Convidados a pensar no futurista, ainda teremos algo parecido com a música do Kraftwerk, mesmo que isso seja tão antigo quanto o jazz big band de Glenn Miller, quando o grupo alemão começou a experimentar sintetizadores no início dos anos 70.

Onde está o equivalente do Kraftwerk no século XXI? Se a música do Kraftwerk surgiu de uma intolerância casual com o já estabelecido, então o momento presente é marcado por sua extraordinária acomodação em relação ao passado. Mais do que isso, a própria distinção entre passado e presente está se desfazendo. Em 1981, os anos 60 pareciam muito mais distantes do que hoje. Desde então, o tempo cultural se retraiu e a impressão de desenvolvimento linear deu lugar a uma estranha simultaneidade.

Dois exemplos bastarão para introduzir essa temporalidade peculiar. Quando vi pela primeira vez o vídeo do single ‘I Bet You Look Good on the Dancefloor’ do Arctic Monkeys 2005, eu realmente acreditava que era algum artefato perdido por volta de 1980. Tudo no vídeo – a iluminação, os cortes de cabelo, as roupas – foi montado para dar a impressão de que esta foi uma performance no ‘show de rock sério’ da BBC2 O velho teste do apito cinza . Além disso, não houve discordância entre o olhar e o som. Pelo menos para uma escuta casual, isso poderia facilmente ter sido um grupo pós-punk do início dos anos 80. Certamente, se alguém fizer uma versão do experimento de pensamento que eu descrevi acima, é fácil imaginar ‘Eu Aposto que Você Parece Bem na Pista’ sendo transmitida em The Old Grey Whistle Test (programa britânico de música dos anos 80) em 1980, e não produzindo nenhum sentimento de desorientação na audiência. Como eu, eles podem ter imaginado que as referências a ‘1984’ nas letras se referiam ao futuro.

Deveria haver algo surpreendente sobre isso. Conte 25 anos a partir de 1980, e você está no começo do rock and roll. Um disco que soasse como Buddy Holly ou Elvis em 1980 teria soado fora do tempo. Claro, esses registros foram lançados em 1980, mas eles foram comercializados como retro. Se os Arctic Monkeys não foram posicionados como um grupo “retro”, é em parte porque, em 2005, não havia nenhum “agora” com o qual contrastar sua retrospecção. Nos anos 90, foi possível considerar algo como o revivalismo do Britpop, comparando-o com o experimentalismo que acontecia no underground do dance do Reino Unido ou no R & B dos EUA. Em 2005, as taxas de inovação em ambas as áreas haviam diminuído enormemente. A dance music do Reino Unido continua muito mais vibrante do que o rock, mas as mudanças que acontecem lá são minúsculas, incrementais e detectáveis em grande parte apenas pelos iniciados – não há nenhum deslocamento de sensação como o que você ouviu na mudança de Rave para Jungle e de Jungle para o Grunge nos anos 90. Enquanto escrevo isso, um dos sons dominantes do pop (a música globalizada de clubes que suplantou o R & B) assemelha-se a nada menos que a Eurotrance, um coquetel europeu particularmente insípido dos anos 90 feito de alguns dos componentes mais insossos da House e Techno.

Segundo exemplo. Ouvi pela primeira vez a versão de Valerie de Amy Winehouse enquanto caminhava por um shopping center, talvez o local perfeito para consumi-lo. Até então, eu acreditava que “Valerie” tinha sido tocada pela primeira vez pelos indie plodders, os Zutons. Mas, por um momento, o álbum é um antiquado soul dos anos 1960 e o vocal (que da primeira vez eu não reconheci como Winehouse) me fez revisar temporariamente essa crença: será que essa faixa dos Zutons era uma versão aparentemente ‘mais velha’ desta faixa, que eu não tinha ouvido falar até agora? Naturalmente, não demorou muito para perceber que o som do soul dos anos 60 era na verdade uma simulação; esta era realmente uma cover da faixa dos Zutons, feita no estilo retro em que o produtor do disco, Mark Ronson, se especializou.

As produções de Ronson poderiam ter sido projetadas para ilustrar o que Fredric Jameson chamou de “modo nostálgico”. Jameson identifica essa tendência em seus escritos notavelmente prescientes sobre pós-modernismo, a partir dos anos 80. O que torna “Valerie” e os Arctic Monkeys típicos do retro-moderno pós-modernista é o modo como eles realizam o anacronismo. Embora sejam suficientemente “históricas” – soando para transmitir, em primeiro lugar a sensação de que pertencem ao período em que eles estão -, há algo de errado nelas. As discrepâncias na textura – os resultados do estúdio moderno e das técnicas de gravação – significam que elas não pertencem nem ao presente nem ao passado, mas a alguma era “atemporal” implícita, um eterno dos anos 60 ou um eterno dos anos 80. O som ‘clássico’, seus elementos serenamente liberados das pressões do devir histórico, agora podem ser periodicamente amenizados por novas tecnologias.

É importante ser claro sobre o que Jameson quer dizer com o “modo nostálgico”. Ele não está se referindo à nostalgia psicológica – de fato, o modo nostálgico sobre o qual Jameson teoriza que pode ser dito, impede a nostalgia psicológica, uma vez que surge apenas quando um sentido coerente do tempo histórico se desfaz. O tipo de figura capaz de exibir e expressar um anseio pelo passado pertence, na verdade, a um momento paradigmaticamente modernista – pense, por exemplo, nos engenhosos exercícios de Proust e Joyce na recuperação do tempo perdido. O modo nostálgico de Jameson é melhor entendido em termos de formal  apego às técnicas e fórmulas do passado, consequência de um recuo do desafio modernista de inovar formas culturais adequadas à experiência contemporânea. O exemplo de Jameson é o filme meio esquecido de Lawrence Kasdan Noites Escaldantes (1981), que, embora fosse oficialmente ambientado na década de 1980, parece pertencer aos anos 30. Noites Escaldantes tecnicamente não é um filme de nostalgia ”, escreve Jameson,

pois ocorre em um ambiente contemporâneo, em uma pequena vila da Flórida perto de Miami. Por outro lado, essa contemporaneidade técnica é de fato muito ambígua … Tecnicamente, … seus objetos (seus carros, por exemplo) são produtos da década de 1980, mas tudo no filme conspira para confundir essa referência contemporânea imediata e para possibilitar receber isso também como trabalho nostálgico – como uma narrativa ambientada em algum passado nostálgico indefinível, uma eterna década de 1930, digamos, além da história. Parece-me extremamente sintomático encontrar o próprio estilo dos filmes nostálgicos invadindo e colonizando até mesmo os filmes hoje em dia que têm cenários contemporâneos, como se, por algum motivo, hoje não pudéssemos focar nosso próprio presente, como se tivéssemos nos tornado incapazes de alcançar representações estéticas de nossa própria experiência atual. Mas se é assim, então é uma terrível acusação do próprio capitalismo de consumo – ou, no mínimo, um sintoma alarmante e patológico de uma sociedade que se tornou incapaz de lidar com o tempo e a história. (‘Postmodernism and Consumer Society’ em A Volta Cultural: Escritos Selecionados sobre o Pós-moderno, 1983-1998 , Verso, 1998, pp. 9-10.)

O que impede Noites Escaldantes de ser uma peça de época ou uma imagem nostálgica de qualquer maneira direta, é o seu repúdio a qualquer referência explícita ao passado. O resultado é o anacronismo, e o paradoxo é que essa “indefinição da contemporaneidade oficial”, esse “declínio da historicidade” é cada vez mais típica de nossa experiência com produtos culturais.

Outro dos exemplos de Jameson do modo nostalgia é Guerra nas Estrelas (Star Wars):

uma das experiências culturais mais importantes das gerações que cresceram entre os anos 1930 e 1950 foi a série da tarde de sábado dos vilões alienígenas do tipo Buck Rogers, verdadeiros heróis americanos, com heroínas em perigo, o raio da morte ou a caixa do Juízo Final, e o cliff-hanger no final, cuja solução milagrosa seria presenciada no próximo sábado à tarde. Guerra nas Estrelas reinventa essa experiência na forma de um pastiche; não há sentido para uma paródia de tais séries, já que elas estão extintas há muito tempo. Longe de ser uma sátira sem sentido de tais formas mortas, Guerra nas Estrelas satisfaz um desejo profundo (posso até dizer reprimido?) de experimentá-los novamente: é um objeto complexo no qual, em um primeiro nível, crianças e adolescentes podem tomar as aventuras diretamente, enquanto o público adulto é capaz de gratificar mais profundamente o desejo nostálgico de retornar àquele período anterior e  viver seus estranhos artefatos estéticos antigos uma vez mais. (‘Postmodernism and Consumer Society’, p8)

Não há nostalgia por um período histórico aqui (ou, se existe, é apenas indireto): o anseio sobre o qual Jameson escreve é um anseio por uma forma. Guerra nas Estrelas é um exemplo particularmente ressonante do anacronismo pós-moderno, devido à maneira como utilizou a tecnologia para ofuscar sua forma arcaica. Desprezando suas origens nessas formas de séries de aventuras fabulosas, Guerra nas Estrelas poderia parecer novo porque seus efeitos especiais, então sem precedentes, dependiam da mais recente tecnologia. Se, de maneira paradigmaticamente modernista, o Kraftwerk utilizasse a tecnologia para permitir o surgimento de novas formas, a nostalgia subordinaria a tecnologia à tarefa de reformar a antiga. O efeito foi disfarçar o desaparecimento do futuro como seu oposto.

O futuro não desapareceu da noite para o dia. A frase de Berardi “o lento cancelamento do futuro” é tão apropriada porque capta a maneira gradual, mas implacável, pela qual o futuro foi erodido nos últimos 30 anos. Se o final dos anos 1970 e início dos anos 80 foram o momento em que a crise atual da temporalidade cultural pode ser sentida primeiro, foi apenas durante a primeira década do século XXI que o que Simon Reynolds chama de “dyschronia” tornou-se endêmico. Essa discronia, essa disjunção temporal, deveria parecer estranha, mas a predominância do que Reynolds chama de “retromancia” significa que ela perdeu uma inquietante (unheimlich ) acusação: o anacronismo é agora dado como certo. O pós-modernismo de Jameson – com suas tendências de retrospecção e pastiche – foi naturalizado. Tome alguém como a incrivelmente bem sucedida Adele: embora sua música não seja comercializada como retro, também não há nada que marque seus discos como pertencentes ao século 21. Como tantas produções culturais contemporâneas, as gravações de Adele estão saturadas de um sentimento vago, mas persistente, do passado, sem recordar nenhum momento histórico específico.